“A nossa intenção é ter em Portugal dez centros a funcionar”

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola está satisfeita com o êxito de mais um investimento espanhol em Portugal do Grupo Ingesport. Detentor dos ginásios GoFit, o grupo começou a internacionalização pelo nosso país, com a recuperação das piscinas dos Olivais, e tem em mãos o complexo do Campo Grande. Até 2022-2024, a marca  investirá em Portugal cerca de cem milhões de euros

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

35562450João Galileu, da GoFit, Pedro Ruiz, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aqui estamos para falar de uma presença empresarial de raiz espanhola num setor, por ventura, menos conhecido de atividades empresariais: o fitness, a saúde, os ginásios. Fale-nos da GoFit em Portugal e em geral como grupo.

João Galileu (J.G.) – É um grupo que se implementou em 2008 em Espanha e em 2010 tomou a decisão de se expandir internacionalmente pela primeira vez. Em 2015 conseguiu sair fora de portas e a primeira unidade criou-a em Portugal. Recuperámos as antigas piscinas dos Olivais.

Mas já antes saiu para outros países ou não?

Não. Esteve sempre sediada em Espanha.

Portanto, o salto é para Portugal.

O salto, primeiro, é para Portugal. Ou seja, fomos as cobaias, em Portugal, desta internacionalização e deste plano de expansão. Há projeto de irmos para a Polónia e Itália  ainda no decorrer deste ano ou em princípios do próximo, mas neste momento está a solidificar-se todo o investimento que foi feito em Portugal. Até ao final deste ano estamos a falar de um investimento em Portugal na ordem dos 16 a 18 milhões de euros: cada unidade do GoFit, do Grupo Ingesport, ronda  os sete milhões a 10 milhões de euros, depende das unidades.

Porque estamos a falar dos Olivais e  já do Campo Grande.

Do Campo Grande, sim.

Onde estão muito melhoradas aquelas instalações que havia. Recuperaram-nas, não foi?

São instalações que estiveram encerradas ao público durante dez anos. No caso dos Olivais, foi uma requalificação mantendo toda a traça arquitetónica.

Eram conhecidíssimas, as piscinas dos Olivais, não é?

Sim, porque, no fundo, eram conhecidas como a praia de Lisboa.

E eram muito populares.

É verdade. Tinham uma grande penetração não só junto dos cidadãos de Lisboa, mas em todo o distrito, de onde havia muita gente a deslocar-se. Porque estamos a falar de uma instalação de 1967 e que tinha uma interação com a comunidade local e uma presença muito fortes. E, no fundo, foi tentar devolver à comunidade essa instalação. Hoje, felizmente, contamos com 13 mil praticantes: passam lá, por dia, quatro mil pessoas.

E corresponde ao plano de negócios que tinham previsto para esse centro?

Diria que superámos as expectativas porque, na verdade, tínhamos um plano inicial de conseguir chegar [a um número] a dez mil, 11 mil pessoas. Neste momento, podemos orgulhar-nos de conseguir atingir 13 mil pessoas, quatro mil pessoas por dia, o que são números, dentro daquilo que é o nosso setor, extremamente surpreendentes. Além do mais, numa fase crítica que se atravessava dentro daquilo que era o momento económico a nível mundial e principalmente a nível da Península Ibérica, haver uma empresa que fizesse esse investimento numa época de crise e de alguma incerteza, houve aqui um querer muito forte por parte da administração e por parte da empresa em acreditar que, realmente, Portugal reunia as condições para o fazer.

35562421Agora queria ver também o ponto de vista da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, que é sempre um intermediário, um facilitador de negócios. Sendo o Pedro [Ruiz] também do setor, fale-nos da atividade da Câmara neste setor e em termos gerais.

Pedro Ruiz (P.R.) – Nós, na Câmara, estamos radiantes de ter mais uma empresa espanhola a investir em Portugal. Ainda por cima num setor que traz saúde. Mas saúde de verdade, não é como o setor chamado da saúde que é o setor da doença, não é? Eles têm 13 mil sócios que provavelmente não faziam exercício, a maior parte deles.

J.G. – A maior parte deles, 60%.

P.R. – Portanto, esses 60% desses 13 mil, talvez…

Cerca de oito mil.

P.R. – Mas talvez cinco mil tivessem diabetes. Provavelmente já estão curados – isto não é um milagre, é um facto. O exercício físico, seja ele qual for, cura a diabetes, entre outras coisas. Portanto, veio uma empresa espanhola investir em Portugal…

E é a primeira neste setor ou não?

P.R. – Não, já há uma outra empresa espanhola também a investir nesta área.

Muito bem.

P.R. – Portanto, também estão a criar empregos. Quantos empregos é que já criaram?

J.G. – Neste momento, diretos, 70 postos de trabalho.

Nos Olivais.

Nos Olivais.

Porque o Campo Grande ainda não abriu.

O Campo Grande vai abrir no final do trimestre deste ano e, portanto, vai contar com mais 70 postos de trabalho.

No último trimestre deste ano.

Deste ano.

P.R. – E isso são postos de trabalho diretos. [Depois] temos os postos de trabalho indiretos, que estão agora a criar nas empresas de construção portuguesas e todo o…

Depois todo o fornecimento, evidentemente.

Todo o fornecimento. É claro que vão criar algum desemprego nos centros de saúde [risos], nos centros médicos, nos hospitais.

Não, isso não é desemprego, é redução da pressão. Redução da pressão dos utentes.

Redução da despesa do Estado.

Da despesa do Estado, sim. Se for isso, toda a gente ganha.

Portanto, este é que é o nosso trabalho na Câmara de Comércio: é ajudar que as empresas espanholas invistam cá, mas também que as empresas portuguesas invistam e vendam em Espanha.

Mas em termos das empresas não financeiras não se sente qualquer pressão ou qualquer dificuldade de investimentos cruzados, pois não?

Eu acho que nunca houve. Portanto, no mundo empresarial nunca houve nenhuma resistência. Onde existe algum atrito é, digamos, do ponto de vista político, não é? Políticos que aproveitam os nacionalismos para ganhar votos e coisas dessas. Mas [entre] os empresários e os consumidores só queremos maximizar quer os lucros das empresas, de um lado e do outro, como o consumidor minimizar a sua despesa podendo aproveitar as sinergias de empresas de ambos os lados da raia.

João, fale-me do plano de expansão. O primeiro passo a seguir é o centro do Campo Grande.

J.G. – Sim.

Conta passarem de 13 mil sócios para…?

Neste caso, 25 mil.

São mais 12 mil?

São mais 12 mil.

E são zonas muito diferentes da cidade. Serão outros públicos ou será o mesmo estrato social?

Diria que o estrato social, à partida, será o mesmo, embora nós saibamos que geograficamente o Campo Grande está sediado numa zona mais nobre, com outro tipo de poder de compra, e é óbvio que a maioria das pessoas acaba por criar outro tipo de apetência para a prática.

Mas há uma preocupação em atingir estratos menos bem na vida com este conjunto de serviços.

Sim, é verdade.

Através de uma política de preços?

Diria que é através de uma política integrada não só de preço mas de serviço ao cliente.

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Na entrevista com António Perez Metelo (à direita) João Galileu (à esquerda) falou do modelo de negócio e da estratégia de expansão do Grupo Ingesport, a que pertencem os ginásios GoFit. Pedro Ruiz saudou o efeito benéfico do emprego fomentado pela entrada de empresas espanholas em Portugal e garantiu que no setor de health & fitness o mercado português tem muito espaço para crescer

Explique-nos isso.

Na verdade, aquilo que é o nosso posicionamento é que nós, como dizia o Pedro e bem, somos uma empresa de saúde, não de infraestruturas, em que o nosso foco e a nossa missão é fazer com que o cliente viva mais e melhor. Portanto, a nossa filosofia, o nosso posicionamento, é  “desporto para todos”, independentemente do sexo, da idade ou do estrato social ou do poder de compra. E a um preço que é razoável, em que o foco é o agregado familiar, ou seja, não é a pessoa individual: 61% do nosso público advém de famílias.

Portanto, mais de uma pessoa.

Mais de uma pessoa. Conseguimos atingir cerca de 2,9 pessoas por agregado.

São quase três.

São quase três pessoas por agregado familiar.

E aí é que o preço se faz sentir, não é? Nesses pacotes.

Exatamente. É nesses pacotes porque a nossa intenção, o que queremos e desenvolvemos, é um programa adaptado e personalizado para todas as idades. Ou seja, não há nenhuma idade que fique de fora. Há sempre uma solução para essas pessoas dentro daquilo que é o nosso programa inovador de incentivar à prática e à atividade desportiva e de cruzarmos isso com os hábitos nutricionais. Tanto que nós temos a nossa Fórmula Laranja, que é “treine bem, coma saudável e descanse bem”. Porque hoje sabemos que uma parte importante da fórmula é descansar bem.

Sim, ainda não é muito conhecido, mas os problemas ligados à falta de sono e de descanso são problemas que se impõem cada vez mais.

Sem dúvida. Hoje a sociedade cada vez sofre mais com o stress , o dia–a-dia e, na verdade, nós servimos como complemento. Tanto que está presente em todas as nossas instalações no GoFit uma piscina de spa. Isto para que as pessoas possam relaxar, para que se sirvam e olhem para o GoFit como um centro em que possam ter mesmo o lazer, o descanso, o ócio e em que possam divertir-se, acima de tudo, em família também, já que muitas das vezes isso é esquecido.

Esse conceito empresarial é de origem, também está presente nos 14 centros em Espanha.

Sem dúvida.

Portanto, é replicar aquilo que é a razão de ser da formação da empresa, é isso?

Sim, é o nosso modelo de negócio que tem tido muito sucesso em Espanha e que está a tê-lo em Portugal – os números ditam isso. A nossa intenção neste momento é continuar o nosso plano de expansão. Temos previsto nos próximos seis, oito anos, um investimento de cem milhões de euros, dos quais 17 milhões já estão feitos ou praticamente feitos. E a nossa intenção é que em Portugal tenhamos a funcionar cerca de dez centros.

Suspeito que depois de Lisboa vem o Porto, não é verdade? Mas além do Porto estão a pensar espalhar–se pelo território continental, pelas regiões autónomas?

Vai ser difícil.

Porque vi que têm um centro nas Canárias, daí a pergunta.

Temos, mas o centro das Canárias, como tem uma densidade populacional muito forte, aí fazia sentido e justificava-se esse investimento. Aqui só se justifica o nosso investimento e modelo de negócio em centros com grande densidade populacional e vai estar centrado no Grande Porto e na Grande Lisboa.

Ai é?

É. Dificilmente vamos estar presentes noutra área.

Mas se são oito, quer dizer que vão abrir outros centros em Lisboa, além dos do Porto?

Provavelmente podemos abrir mais um em Lisboa e na área da Grande Lisboa. No fundo, vão estar concentrados cerca de sete centros em Lisboa e três no Grande Porto.

As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto é que podem atrair…

Exatamente. Porque o nosso modelo de negócio depende muito da massificação. Na verdade, nós queremos tocar toda a sociedade, independentemente do estrato social, mas para isso temos de estar localizados geograficamente em zonas de grande densidade populacional.

Quando esse plano estiver concretizado – enfim, há de levar anos…

Esperemos que não.

Bem, se fosse para o ano era ótimo. Mas [quando se concretizar isso], quantos postos de trabalho e que volume de negócios é que preveem para tudo isto?

No caso de Portugal [o objetivo] é chegar a uma realidade de 700 postos de trabalho diretos, com um investimento de cem milhões e, no fundo, com uma faturação que andará à volta dos 50 milhões. É desses números que estamos a falar e é essa a realidade que economicamente faz a diferença. No fundo, estamos a falar também de uma realidade que nos permite sonhar com 120 mil utilizadores dos nossos centros e contribuir para o aumento da atividade física e principalmente da vida ativa das pessoas.

Porque esses 120 mil, se forem divididos por oito, dá 15 mil utentes por cada centro.

Por cada centro.

Esse já é um ponto de equilíbrio bom para o GoFit?

Sim, esse é o nosso ponto de equilíbrio, em que os acionistas ficam muito satisfeitos.

Podem operar com menos, mas isso é útil.

Sim, é verdade. Mas aquilo que nos deixa mais satisfeitos e é mais gratificante é ver que, no fundo, mudamos a vida das pessoas. Portanto, a nossa missão diariamente é mudar a vida das pessoas e sermos um catalisador para que essas pessoas consigam ter uma vida mais ativa e melhor.

Pedro, sobre estas indústrias do lazer, digamos assim, da qualidade de vida – sobretudo num padrão de envelhecimento muito rápido da população portuguesa – tem sinais na Câmara de Comércio e Indústria de que este setor possa expandir-se em termos de investimento, no nosso país?

P.R. – Sim, este setor está a expandir-se. Há quatro anos tínhamos uma percentagem de penetração na sociedade portuguesa de 5%. Neste momento chegamos a 7%, em parte, graças à GoFit, que não entrou praticamente em concorrência com a oferta existente, porque vieram com uma oferta completamente diferente para famílias de classe menos alta e, portanto, estão a fazer crescer o mercado.

Estão a alargar, não é?

Estão a alargar o mercado. O mercado ainda está a precisar [destes centros]. E por isso é que está a crescer não só a cadeia deles mas outras cadeias, porque a oferta não estava a chegar a toda a população.

Seguramente, na Europa, o público-alvo é mais amplo do que este que ainda não existe em Portugal, não é?

Sim. Na Europa, a média é de 10%, em Portugal ainda estamos em 7%. Mas o nosso objetivo é chegar rapidamente – em cerca de dez anos – aos 20%. Há países, por exemplo  aqui ao lado, Espanha, que estão em 16%. É mais do dobro. Em parte  devido às empresas como a GoFit e outras concorrentes.

A indústria deve ser, portanto, muito forte em Espanha, não é?

P.R. – É muito forte.

J.G. – É fortíssima.

P.R. – É. Mas noutros países, como os Estados Unidos, ainda é superior, 18%. Isto é um nível, é uma medida muito, muito exata do nível de vida e sociocultural. Por exemplo, na Suécia, a penetração é de 30%, na Noruega é de 30 e tal por cento.

Devem ser as percentagens mais altas, não é?

São. Embora haja cidades com percentagens mais altas, como Barce-lona e Nova Iorque, com 40%. Ou seja, 40% das pessoas vão ao ginásio.

Pois, o que quer dizer que aqui há margem para mais investimento.

O mercado é enorme.

Há margem para mais investimento e para a expansão das empresas que cá operam.

E para novos conceitos. Por isso o que estamos a ver é que estamos todos a concorrer para um pequeno número de pessoas que têm dinheiro e disponibilidade para a oferta atual.

Pois. Perante isto, perante a oferta e o reconhecimento de que há a possibilidade de expansão, a questão dos preços é muito relevante. Não teme uma concorrência de preços em queda para, no fundo, roubar clientes aos outros?

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João Galileu (ao centro), diretor de operações da GoFit, cadeia de ginásios do grupo espanhol Ingesport, e Pedro Ruiz (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados de mais uma edição da Economia Ibérica, moderado por António Perez Metelo (à esquerda)

J.G. – Hoje assiste-se a uma penetração muito forte no mercado. De há cinco anos a esta parte – foi quando entraram as empresas de low cost em Portugal, tiveram forte implementação e continuam a ter. É um serviço que é destinado a um outro tipo de público-alvo, à pessoa mais individual, àquela pessoa que domina a disciplina do treino, tem algum conhecimento próprio, é automotivada para a atividade física. O nosso público-alvo é o agregado familiar, é um outro tipo de público, que procura outro tipo de vetor para aquilo que é a sua vida ativa, nomeadamente para aquilo que  é a melhoria do seu bem-estar, acima de tudo. Quando falamos na questão da penetração em que o Pedro falava há pouco, a verdade é que hoje ainda continuamos a assistir a uma sociedade, principalmente em Portugal, em que cerca de 80% da população continua a ser sedentária. E aqui claramente [isso] leva a que o sucesso da expansão também está pendente disso. Porque na verdade continuamos  a ter muita gente sedentária ainda, em que existe capacidade e probabilidade de sucesso daquilo que é o nosso negócio. A verdade é que nós assentamos claramente em programas de saúde; é a forma como tentamos conectar-nos com o cliente. Há pouco o Pedro colocou a tónica naquilo que são as patologias frequentes dos nossos clientes. Porque   as pessoas partem do princípio de que o nosso cliente está bem, saudavelmente, mas eu diria que 60% a 80% dos nossos clientes têm uma patologia qualquer.

Diabetes, por exemplo.

Por exemplo, hipertensão, doenças cardiovasculares, dores nas costas, stress… Ou seja, temos uma série de patologias frequentes que nós temos, digamos, capacidade também de tratar. Porque hoje está comprovado cientificamente que o exercício físico melhora ou cura realmente todas essas patologias.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens