Agricultura tem de fazer a transição tecnológica para a era 4.0

“A agricultura portuguesa tem de fazer a sua transição para a era 4.0, tal como a indústria já o fez”, considerou o sócio-gerente da Veracruz, uma empresa luso-brasileira com o maior projeto de amendoal do país, localizado entre os concelhos de Idanha-a-Nova e do Fundão.
“A palavra-chave neste momento é agricultura de precisão”, acrescentou o empresário, que lançou um repto a todos os empreendedores agrícolas: “É responsabilidade do empresário investir na agricultura de precisão”, seja através do sistema de rega gota-a-gota, seja de estudos que indiquem as melhores soluções para as condições de solo e clima.
Mais, Filipe Rosa defendeu mesmo que “é preciso ir além da agricultura de precisão, passar para a fase da agrotech e implementar no terreno o conceito de smart farm” (fábrica inteligente). “Há um salto quântico que tem de ser dado na agricultura” e para isso talvez o governo possa desempenhar um papel enquanto agente que poderá aproximar os empresários e os centros de saber, observou.
Também o presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes, defendeu a mais-valia das tecnologias no setor. “Quanto mais desenvolvida é a agricultura e mais tecnologia incorpora, mais valor cria, embora não necessariamente mais emprego.” Mas, ressalvou, “se houver um desenvolvimento na lógica de um cluster, aí sim, há uma evolução para os usos múltiplos da agricultura, como a agroindústria, e gera-se um efeito muito interessante ao nível da criação de mão-de–obra”.
Paulo Fernandes avança com exemplos concretos registados no Fundão. “Hoje, com a marca Cereja do Fundão temos toda uma economia que vai para além do produto, criando um valor mais diversificado” como, por exemplo, a experiência da apanha da cereja, que já entra no campo do turismo.
O presidente da Câmara Municipal do Fundão lembrou, a propósito, que o concelho tem um centro de desenvolvimento agrotech, ideal para startups  testarem equipamentos, mas também para empresas que queiram inovar.
Sobre o setor agroalimentar em particular, o autarca referiu que já representa cerca de cem milhões de euros anuais, considerando tratar–se de “um valor bastante considerável para um concelho com menos de 30 mil pessoas”. Paulo Fernandes defendeu, ainda que para dar continuidade a esta dinâmica, é importante que os fundos comunitários do próximo programa apoiem também os centros científicos.
Considerando que a região tem condições para atrair capital intensivo, Paulo Fernandes admitiu que o concelho precisa de recorrer a mão-de-obra migrante. “Nós precisamos de imigração, porque o trabalho temporário é fundamental numa atividade como a agricultura.” Nesse sentido, o responsável referiu a existência, na fileira da cereja, de um centro para trabalhadores temporários , com condições para acolher estrangeiros, até porque, lembrou, a marca Cereja do Fundão tem uma imagem a proteger e uma responsabilidade social.
Alinhar estratégia com autarquias
Sobre a tradicional ligação entre agricultura e subsídios da Política Agrícola Comum (PAC), Filipe Rosa prefere não contar muito com essa muleta. “É pouco provável que a União Europeia venha a adotar uma política que melhore o financiamento à agricultura portuguesa, pelo que preferimos não nos apoiar no discurso dos subsídios  e pensar, antes, em alinhar estratégias com as autarquias locais”, disse o sócio-gerente da Veracruz.
Até porque, sublinhou, as autarquias de Castelo Branco, do Fundão e do Interior, de uma forma geral, são bastante proativas e empenhadas em criar as condições para fixar o investimento, precisamente porque têm menos oportunidades do que os concelhos do litoral.
Essa foi, de resto, uma das razões que o levou, a ele e aos sócios, a optarem pela região. “Pensámos inicialmente em investir em Alqueva, mas talvez pelo timming já ser um pouco tardio e já haver muitos projetos implantados e preços não tão atraentes, acabámos por descobrir, e ainda bem, uma região que tem tão boas condições como Alqueva para produzir amêndoa”, explica o sócio português.
Oriundo do setor das telecomunicações e com experiência de empreendedorismo também no Brasil, Filipe Rosa pretende plantar 2500 hectares de amendoal entre os municípios do Fundão e de Idanha-a-Nova. Ao fim de um ano do projeto iniciado já estão adquiridos os terrenos para começar a plantar os primeiros 1200 hectares.
“Optámos pela amêndoa porque tem um mercado potencial muito grande, com a particularidade de a produção estar concentrada nos Estados Unidos (80%), mas quase metade do consumo estar localizado na Europa (40%)”, explicou o empresário. Ora, a oportunidade de negócio está em aproximar a produção do consumo e fazê-la a um custo mais baixo.
As expectativas destes empresários só são viáveis graças ao regadio, reconhece o presidente da Câmara Municipal do Fundão, que lamenta o facto de a região ter esperado 60 anos pelo regadio da Cova da Beira, que atrasou o desenvolvimento da região.
Igual opinião foi manifestada por Luís Correia, de Castelo Branco: “O que seria da região sem o regadio e a A23?” E conclui, para dizer que “muitas vezes os grandes investimentos não têm impacto só num setor, mas tem de haver a coragem para os fazer.”