António Madaleno: “Somos líderes e exportamos para Macau e Hong Kong”

António Madaleno, presidente da Orivárzea, junto ao arroz embalado e pronto a seguir para os supermercados

O presidente da Orivárzea  gere uma organização que lidera a produção nacional de arroz e criou produtos para bebés que  chamam a atenção da Ásia. Na calha está o lançamento de duas novas sementes  e  o aproveitamento do farelo do arroz para outros produtos não alimentares.

 

Como caracteriza a Orivárzea?
A nossa filosofia assenta num princípio muito simples: estamos aqui para servir o agricultor e não para nos servirmos do agricultor. Nós nascemos em 1997, porque sentimos necessidade de maximizar as nossas economias e de nos preparar. Criámos uma sociedade anónima que integra uma organização de produtores.
Qual é a vossa dimensão atual?
Somos 50 agricultores e gerimos cinco mil hectares nos concelhos de Salvaterra de Magos, Benavente, Vila Franca de Xira e Coruche. Entrámos no mercado com o Bom Sucesso, que é totalmente nacional, desde a semente.
Como tem sido a evolução?
Somos líderes de marca com o Bom Sucesso Carolino. Este produto garante aquilo que poucos podem garantir que é a segurança alimentar. Nós controlamos a semente, não há nenhum produto aplicado nas culturas que não seja controlado pelos nossos técnicos. Porquê?  Temos um setor da nossa empresa a que damos muita importância que é o BTP (baixo teor de pesticidas). Tem como finalidade a produção de arroz para comida infantil. Nós abastecemos muitas empresas de alimentação infantil, sem contaminantes.
Têm, aliás, uma marca própria para a alimentação infantil…
Sim, temos o Baby Rice, que é exportado para Hong Kong e Macau. O  governo está para fazer um protocolo com a China e ainda não conseguiu. Via Hong Kong e Macau já começaram a fazer cópias na China.
E trabalham só com marca própria ou também fornecem marcas brancas?
Não é a nossa política. Só podemos dar retorno aos nossos agricultores com uma estratégia de diferenciação, num mercado global massificado. Por isso fizemos uma aposta muito concreta nas nossas marcas: o Bom Sucesso, o Belmonte o Baby Rice, que têm características próprias. O nosso pacote é o único que tem uma atmosfera controlada, é o único que é na totalidade feito em produção integrada. Somos o único que pomos a mesma variedade da mesma zona todo o ano, com o mesmo tempo de cozedura, o que dá maior homogeneidade ao arroz . Porque a mesma casta não é igual no Douro e no Alentejo.
Quanto produzem?
Produzimos 30 mil toneladas em média. Uma parte é para semente. Produzimos duas mil toneladas para semente. O restante é para descascar. O arroz representa cerca de 60% da quantidade total. Tem de ser seco a 13,5 graus de humidade e depois de descascado perde 60% do seu peso. Para fazer um quilo de arroz branco precisamos de cerca 1660 gramas.
O mercado nacional continua a ser o principal destino?
Sim, embora o mercado de exportação já pese cerca de 30%, o nosso mercado continua a ser o nacional. Exportamos para França, Suíça, Brasil, Macau, Hong Kong, Inglaterra. Para valorizar o que produzimos não podemos intensificar a exportação.
Como avalia o estado do setor?
O setor divide-se entre o que está organizado, que está bem, e o que não está. Quando vou comprar produtos ao mercado para cinco mil hectares não é a mesma coisa do que comprar para 20 hectares. Os custos de produção e a capacidade de  colocação no mercado são completamente distintos.
Como conseguiram ser concorrenciais junto dos hipermercados?
Não podemos ter a mesma estratégia da Cigala, que tem o maior operador europeu em arroz. Temos de apostar na diferenciação. Em 2000 iniciámos a venda de arroz branqueado e, quando dissemos à grande distribuição que o nosso produto era diferente, as pessoas não entendiam. Agora sim. Temos um arroz para risotto português. A nossa cozinha é de carolinos, degenerou quando começou a usar agulha. Ninguém faz em Espanha uma paella com um arroz que não seja redondo. Fazer um arroz de marisco com agulha é para rir. E temos o arroz perfumado.
Como surgiu o Baby Rice?
Se nós fazemos um arroz que vai ser moído para as papas dos bebés da Nestlé, Nutribem e Danone, porque não fazer um arroz de raiz para os bebés com qualidade? A diferença está no campo. Quando o arroz leva algum tipo de tratamento, produtos químicos estão excluídos. Com a bateria de análises que fazemos é impossível ter algum tipo de contaminante pesticida e fungicida.
E é esse Baby Rice que tem exportado para a Ásia?
Não só, mas dos 30% que produzimos para exportação, 20% é baby food. Estamos a mandar um contentor para Macau, mas devíamos estar a mandar dez vezes mais. Estamos limitados para satisfazer as necessidades do mercado chinês.
Que planos para o futuro próximo?
Não podemos aumentar muito a produção porque temos limitação geográfica. Mas podemos avançar para outro tipo de negócio. Estamos, em conjunto com investigadores, a pensar estabilizar o farelo, que é a parte mais rica do arroz. Como é um produto com muita gordura, rança com facilidade, tem de ser estabilizado.
Estamos a falar de novos produtos?
Podemos estar a falar de pão, mas também posso dizer que o farelo tem 17% de óleo e pode ser aproveitado para cosméticos. Ainda estamos numa fase de conhecimento. Este projeto não é só nosso, mas em conjunto com mais duas empresas.
Tem metas de crescimento?
Estamos a crescer à volta de 15%% em produção e em volume de negócios mesmo além disso. Faturamos cerca de 20 milhões de euros/ano.
Como funciona  a ligação entre produção e investigação?
Temos um trabalho com a Univer-sidade de Évora para estudar a absorção de metais pesados nas plantas e com a Universidade Nova de Lisboa desenvolvem-se estudos sobre o  selénio. Talvez se possa diminuir um pouco a fome no mundo. Sou também presidente do Cota Arroz, centro operacional e tecnológico do arroz que faz a investigação e o melhoramento de novas sementes. Estivemos 30 anos  sem novas sementes e vamos agora colocar  duas sementes no mercado: uma carolino (Ceres) e uma agulha (Maçarico)
Estamos na era do gourmet. Como explora este nicho?
Temos o arroz Carolino das lezírias ribatejanas, que vendemos para a Alemanha. É o nosso produto top. Estamos presentes em todas as cadeias e o nosso preço situa-se a meio da tabela. O preço-padrão para o Carolino e Agulha é 99 cêntimos.
Não se queixam de falta de mão–de-obra?
Não. Estamos a falar de um setor altamente mecanizado. Na minha exploração, por exemplo, tenho um funcionário. Nos anos 1970 tinha tratadores de 40 cavalos, agora têm 250 cavalos, que fazem cinco ou seis vezes mais. As sementeiras fazem–se de avião e a colheita num só trator com ar condicionado.
Como funciona uma organização de produtores dentro de uma sociedade anónima?
O agricultor, que também é dono da empresa, recebe todo o fruto das vendas da  Orivárzea, depois de retirados os custos administrativos.  Até determinada altura não tinha fins lucrativos. A seguir, criámos uma situação para remunerar o capital, porque nós não somos todos iguais, não temos as mesmas ações. A Orivárzea tem o seu próprio arroz. Essa parte é que vai remunerar o capital. O agricultor chega  aqui e compra adubo, sementes, pesticidas, seguros e nós fazemos os projetos. Eles ceifam, descarregam e sabem que no dia 15 novembro têm o dinheiro na conta, não têm mais preocupação. O circuito é fechado e ninguém pode falhar, o primeiro que falhar vai para a rua. Isto tem de ter disciplina. Não é democrático. Mas é tudo fixado em assembleia geral.
Há rumores de que a PAC pode vir a ser abrangida por outra revisão. Isso teria impacto nesta cultura?
Já não tenho idade para grandes apreensões. Temos ajudas ao hectare, específicas e agroambientais no âmbito da PAC. Em todo o caso, acho que o arroz faz uma falta extraordinária ao ambiente. Os terrenos que usamos para o cultivo do arroz eram pântanos. Quem acabou com o paludismo em Portugal foram os orizicultores. Se deixássemos que essas zonas voltassem ao abandono íamos ter problemas grandes e teríamos de combater os mosquitos com inseticida por avião. Até aqui tem havido essa consciência de que o arroz precisa de ser apoiado pela sua importância ambiental e acredito que continue a haver. Porque o preço a que o arroz é pago em casca é dumping. Estamos a vender abaixo de custo.

Ana Maria Ramos

e Carla Aguiar (Texto)

Diana Quintela (Fotos)