No encerramento da iniciativa do Grupo Santander dedicada ao setor agroalimentar, o administrador do Banco Santander, Pedro Castro e Almeida, considerou que o setor dos bens alimentares e o vinho em particular estão a registar crescimentos muito significativos, oferecendo um contributo relevante para o crescimento da economia. Pedro Castro e Almeida reiterou a determinação do Santander em ser um “banco parceiro que ajuda as empresas a crescer”, nomeadamente a nível internacional, beneficiando da forte implantação do grupo a nível internacional, nomeadamente nos mercados da América Latina e nos EUA. O administrador sublinhou ainda o facto de o vinho ter vindo a reforçar o peso nas vendas ao exterior, correspondendo atualmente a um terço do total das exportações de bens alimentares
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Portugal é o oitavo maior produtor de vinho engarrafado
Mercado. O foco na qualidade, melhoramento das castas tradicionais e promoção da marca Portugal ajudaram a dar visibilidade aos vinhos portugueses no mercado mundial
Uma revolução tranquila transformou nos últimos 15 anos o setor vitivinícola nacional num caso sério internacional. Portugal ocupa hoje o oitavo lugar no ranking dos maiores produtores de vinho engarrafado, exporta quase metade da produção e gera um volume de negócios superior a 800 milhões de euros.
Como se chegou aqui? Além do fator “descoberta de Portugal”, o presidente do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV) atribui estes resultados a “muito trabalho de formiguinha” feito pelos produtores, que começa agora a dar os seus frutos. Frederico Falcão falava no encerramento do ciclo de oito debates Economia Ibérica, do Banco Popular, agora Grupo Santander, dedicado ao setor agroalimentar, que decorreu entre abril e outubro deste ano.
O presidente do IVV destaca, em particular, o desvio da tónica do volume para a qualidade. “Em algumas zonas, por exemplo no Ribatejo, a produção estava muito voltada para o volume, enquanto hoje há uma maior aposta na qualidade.” Por outro lado, Frederico Falcão sublinha o efeito da criação de uma marca Portugal, que “teve um impacto muito importante”, ao juntar todo o setor.
“Os jornalistas internacionais das revistas da especialidade começaram a descobrir as castas portuguesas, diferentes daquilo a que estavam habituados e, ao mesmo tempo, com grande qualidade”, observou aquele enólogo de formação, para explicar que o fator novidade aliado à qualidade ajudou a dar visibilidade aos vinhos portugueses.
Também José Oliveira da Silva, CEO da Casa Santos Lima, enaltece o papel das castas tradicionais. “Temos provavelmente 200 castas nacionais e somos o terceiro país com maior diferenciação de castas autóctones”, disse o proprietário da Casa Santos Lima.
À frente de uma empresa com um historial que remonta ao século XIX, José Oliveira da Silva referiu que sempre quis preservar as castas tradicionais da região de Alenquer, algumas das quais em vias de extinção. “A ideia era fazer vinhos diferentes, até porque é possível despertar o interesse dos jornalistas especializados quando há castas diferentes”, disse. Uma aposta bem-sucedida, tendo em conta que a empresa exporta quase 90% do que produz para 50 mercados diferentes.
Mário Pinheiro, presidente da Ribafreixo, é mais um produtor a defender a importância das castas para a afirmação das marcas portuguesas de vinho. “Apostámos em castas portuguesas e pensámos sobretudo em desenvolver vinho branco de qualidade”, afirmou o empresário que transitou da África do Sul e do setor das tecnologias para a Vidigueira.
“Tivemos o privilégio de poder escolher o clima, as castas e os terrenos que mais se adequavam ao vinho que queríamos fazer”, disse o empresário que começou a investir há apenas uma década e já produz 700 mil garrafas de vinho, com capacidade para duplicar a produção.
No encerramento da iniciativa dedicada ao setor agroalimentar marcou presença o administrador do Banco Santander Pedro Castro e Almeida. Aquele responsável considerou que o setor dos bens alimentares e o vinho em particular estão a registar crescimentos muito significativos, oferecendo um contributo relevante para o crescimento da economia. Pedro Castro e Almeida reiterou a determinação do Santander em ser um “banco parceiro que ajuda as empresas a crescer”, nomeadamente a nível internacional, beneficiando da forte implantação do grupo a nível internacional, nomeadamente nos mercados da América Latina e nos EUA.
Também o administrador do Global Media Group José Carlos Lourenço enalteceu a performance do setor, dizendo que “a realidade do agroalimentar merece este projeto”, que visa reconhecer o trabalho e incentivar o investimento.
Setor está a exportar quase metade daquilo que produz
Vendas. Vitivinicultura representa 4% do total da exportações portuguesas. As quotas para a vinha são o maior travão ao crescimento
O setor vitivinícola português tem uma vocação exportadora muito vincada. Não só vende para fora quase metade daquilo que produz, em torno dos 45%, como já representa 4% do total das exportações portuguesas.
Aqueles números foram enfatizados pelo administrador do Grupo Santander Pedro Castro e Almeida na sessão de abertura do último debate do ciclo Economia Ibérica dedicado ao setor agroalimentar. O administrador sublinhou ainda o facto de o vinho ter vindo a reforçar o peso nas vendas ao exterior, correspondendo atualmente a um terço do total das exportações de bens alimentares.
Relevante nesta tendência de crescimento sustentado das exportações é o preço. Os vinhos portugueses conseguiram superar a baixa valorização do passado, em comparação com outros concorrentes, e continuam a ganhar cotação, segundo os testemunhos dos empresários que participaram no debate.
“Neste momento, o preço médio do vinho português exportado é quase o dobro do obtido pelo vinho espanhol”, revelou o presidente do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV). Frederico Falcão considera que, “não obstante a recuperação de terreno, os preços ainda estão abaixo dos franceses e italianos, mas de forma menos acentuada”.
“A França chegou primeiro, começou a trabalhar a marca e os mercados há muito tempo e ainda beneficia desse pioneirismo”, considera aquele responsável.
Embora a valorização dos preços seja um objetivo dos produtores portugueses, a prioridade atual é a penetração em novos mercados ou o reforço naqueles que apresentem mais potencial.
“Temos de tentar forçar a entrada em mercados onde os vinhos portugueses não sejam tão conhecidos”, considera José Oliveira da Silva, presidente da Casa Santos Lima. “O essencial é que o cliente prove vinho português”, diz, acrescentando que “a reação é positiva porque gostam do sabor e do preço, que fica aquém das expectativas relativamente a outros vinhos de qualidade semelhante”.
José Oliveira da Silva acredita que os produtores portugueses vão continuar a ter preços médios inferiores aos praticados pelos franceses.
Os Estados Unidos, em particular, e a China são apontados como mercados com muito potencial de crescimento para os vinhos portugueses, embora com diferenças substanciais, apontadas pelos empresários. Nos Estados Unidos, a procura é mais sofisticada e há uma maior apetência por vinho branco. Já na China, onde a tradição de consumo de vinho é baixa, os clientes consomem vinho por uma questão de estatuto, apreciando e valorizando pormenores como o peso da garrafa ou a estética do rótulo.
Independentemente das preferências, a tendência é para o aumento das exportações à medida que os vinhos portugueses ganham visibilidade no mercado internacional e reconhecimento com reputados prémios.
Limites à expansão da vinha
As possibilidades de expansão da produção nacional estão, todavia, limitadas no que diz respeito à plantação de novas vinhas. Abrangida por uma regulamentação comunitária restrita, a plantação de novas vinhas está sujeita a uma quota de acréscimo de 1%.
Neste ano, tal como noutros, houve mais procura para plantação do que quota disponível, tal como reconheceu o presidente do IVV. “Há uma procura muito grande neste momento para a plantação de vinha”, referiu Frederico Falcão.
Em contrapartida, o setor beneficiou de 80 milhões de euros de comparticipação ao investimento dos vitivinicultores.
Os produtores consideram que “o acréscimo anual de 1% não é suficiente para repor as vinhas que morrem, nomeadamente, por força da seca”. E reclamam da tutela alterações que tenham em conta essa situação.
Falando pelo Instituto do Vinho e da Vinha, Frederico Falcão lembrou que o sistema em causa vigora até 2030, mas é expectável que sofra uma revisão intermédia. Frederico Falcão admitiu que a natural expansão de um setor que está numa boa fase no mercado internacional acaba por ser travada por causa daquela limitação.
Outra revindicação dos agentes do setor é o reforço do controlo aos vinhos importados. Há vinho importado a granel que entra nas adegas e é misteriosamente “naturalizado” português, denunciou José Oliveira da Silva. Uma situação de concorrência desleal que já está a ter resposta do IVV, através de auditorias a adegas.
O presidente da Adega Cooperativa de Almeirim, a maior do país, apontou uma preocupação comum a muitos produtores: “As constantes promoções e feiras dos hipermercados, que descontam no preço do produtor.” Por essa razão, Manuel Madera e os restantes associados decidiram não participar mais nesse tipo de “feiras do vinho”.
À frente de uma adega cooperativa que vende 18 milhões de litros de vinho com um valor que oscila entre 15 a 20 milhões de euros, Manuel Madera referiu que “o setor cooperativo tem de apostar na gestão profissional e numa mudança de mentalidade que passe por produzir o que o mercado procura e não por levar a uva à adega, independentemente das tendências do mercado”. No caso de Almeirim, a adega fez uma aposta no vinho frisante, que se traduz em oito milhões de garrafas.
Mário Pinheiro: “Temos capacidade para 1,5 milhões de garrafas de vinho”
A empresa que dirige só começou a produzir vinho em 2012, mas já exporta quase 500 mil garrafas para alguns dos mercados mais exigentes, como a Austrália. Mário Pinheiro apostou em mudar de vida há uma década e apostar nos vinhos brancos, uma paixão que já se vai misturando com as cores do tinto.
Como retrata a Ribafreixo e o seu negócio?
Esta empresa está localizada na Vidigueira e assenta a sua atividade na produção de uva e vinho a partir da Herdade do Moinho Branco. Tem a particularidade de ser um projeto de raiz . Eu não tinha tradição nesta área, trabalhava em tecnologias, vim para Portugal há 14 anos e decidi criar este projeto com um amigo engenheiro agrónomo, que é meu sócio. Não há muitas pessoas que têm oportunidade de fazer um projeto de raiz. Escolhi o clima que quis e foi o microclima da Vidigueira. Eu queria fazer essencialmente vinho branco. Houve um grande crescimento no consumo do vinho branco. As pessoas começaram a perceber que o vinho branco é melhor para o almoço.
Qual é o microclima da Vidigueira?
A serra do Mendro é a demarcação natural entre o Alto e Baixo Alentejo. A Vidigueira fica cá em baixo no sopé da serra. O clima é mediterrânico com muita continentalidade, o que faz o microclima. Os ventos estancam na serra. Por outro lado, existe uma grande amplitude térmica entre o dia e a noite, sendo que, em média, as temperaturas aqui são mais baixas do que na média da região. Pudemos também escolher um terreno com xisto, o que dá muita mineralidade aos vinhos. Os nossos vinhos são muito aromáticos e de longa duração.
Quantos hectares de vinha explora a Ribafreixo?
Temos 114 hectares com 90 vinhas. Recentemente plantámos mais três hectares. Queremos que seja um vinho especial, mas gostávamos de ter mais. Também fomos nós que escolhemos as castas, quase todas portuguesas e duas ibéricas, aragonês e alvarinho (galego e minhoto). Fizemos um verdadeiro alvarinho.
Desde quando estão a explorar?
Há uma década. Quem for à adega não acredita que isto foi feito só em dez anos. O projeto cresceu muito rapidamente. A única coisa que travou foi a natureza. As vinhas têm oito e dez anos. Retirámos a maior parte das vinhas mais velhas. Quando começámos, a nossa estratégia passava por ter 70% da produção dedicada ao vinho branco e 30% ao vinho tinto. Este ano vamos aumentar a produção de vinho tinto.
Quantos rótulos comercializam e como é que isso se traduz em vendas anuais?
A ideia inicial seria fazer só uma marca. Mas optámos por ter vinhos monocastas. Temos seis ou sete rótulos, mas todos eles são monocastas. A região da Vidigueira é DOC (Denominação de Origem Controlada). Temos o barrancôa, Pato Frio e Gáudio. Apesar de termos a casta alvarinho não podemos usar o nome, porque o alvarinho não pode ser considerado DOC na Vidigueira, não está na lista da região do Alentejo. O facto de termos várias marcas acaba por nos dar uma maior liberdade para trabalhar o mercado de exportação. No Japão, tenho em Osaka um distribuidor para o Pato Frio e em Tóquio outro distribuidor para a marca Gáudio. Consigo meter lá mais vinhos assim.
A produção é mais vocacionada para a exportação ou para o mercado nacional?
Nunca apostei muito no mercado nacional, a não ser no Algarve. Era tudo para exportar. A primeira pessoa que me chamou a atenção de que talvez não fosse a melhor opção foi o nosso enólogo. E isso fez-me pensar e rever a estratégia. Hoje trabalhamos com distribuidores regionais. Vendemos em cerca de 40% para o mercado nacional e 60% para exportação. O mercado nacional é muito importante.
É importante porquê?
Para consolidação das marcas. Por exemplo, acaba de acontecer uma feira de vinhos em Lisboa, onde estiveram os nossos vendedores. É mais fácil chegar ao mercado. Há uns anos, os vinhos brancos em Portugal eram péssimos. Hoje produzem-se vinhos maravilhosos.
Disse que o mercado nacional vale 40%. Qual a perspetiva de crescimento?
O crescimento da nossa empresa é devido, em parte, ao nosso esforço particular, mas também ao desenvolvimento do próprio mercado que está a crescer. Os consumidores de vinho branco pedem muito vinho novo.
E as exportações? Quais são os vossos mercados prioritários?
O mercado preferencial é a União Europeia, também porque é o mais fácil. Na UE vendemos para Irlanda, Inglaterra, Holanda, República Checa, Bélgica e temos alguns contratos com grandes superfícies. Fora da UE vendemos para países tão diferentes como o Japão, Filipinas, Israel, China ou os Estados Unidos.
E como se distribuem as quotas de exportação?
Temos 30% a 40% de toda a exportação para a Austrália. Encontrámos um nicho de mercado e mandamos bastantes contentores para lá.
E planos de expansão?
Agora em novembro vamos começar a delinear a nossa estratégia para 2018. No vinho branco, vamos trabalhar mais o mercados norte-americano, e, no tinto, mais a China. Quanto mais sofisticado é o mercado mais consome vinho branco. Os Estados Unidos é um país muito grande e há muita coisa a fazer. Um cliente cativo é muito mais interessante do que ter um cliente novo. Eu, pessoalmente, gosto de trabalhar com clientes fidelizados. Claro que também apostamos em mercados novos e, às vezes, vão aparecendo oportunidades quando não se espera. Foi o caso do mercado australiano.
Tem planos para investir em mais vinha ou adega?
Ainda este ano investimos em mais três hectares. A nossa adega produziu o seu primeiro vinho em 2012. Temos capacidade para produzir um milhão e meio de garrafas. Estamos a produzir 700 mil garrafas. Acabámos de investir em equipamento.
Quanto investiram?
Já investimos 10 milhões de euros. Os subsídios comunitários foram muitíssimo importantes, tanto na agricultura como na adega. Os subsídios não contemplam a compra de propriedades. O financiamento foi em torno dos 25%.
Quanto é que essas 700 mil garrafas que estão a produzir rendem em volume de negócios?
Cerca de 1,8 milhões de euros. Este ano vamos aumentar, mas não vamos aumentar muito. Em todo o mundo houve uma quebra muito grande na produção de vinho por razões diversas. A Argentina está a comprar no Chile, a Nova Zelândia, a Austrália e a África do Sul também tiveram problemas. A França e a Itália sofreram com a geada, como nós, o que nos causou uma quebra de metade da produção. A geada apareceu nos dias críticos para a cultura. E também houve falta de polinização e, por isso, muita vinha não tem uvas. Para o ano vamos ter mais abelhas para melhorar a polinização.
Mas, mesmo assim, perspetiva um crescimento?
Sim, vamos crescer, porque até ao ano passado ainda estávamos a vender uva. O nosso desígnio é ter um vinho de alta qualidade, com um rácio preço/qualidade muito bom, mas para isso temos de ter total controlo sobre a uva que usamos. Não quero passar do milhão e meio de garrafas. Qualidade e muita quantidade não se coaduna. E nós queremos vinhos de qualidade.
Faltam técnicos especializados
Ensino CAP propõe que universidades criem cursos de acordo com a especificidade agrícola das regiões para colmatar falta de técnicos
Não é fácil encontrar técnicos agrícolas preparados em Portugal”, observou Javier Parladé, administrador do Grupo Rabala. O empresário considera que o país deveria apostar numa formação técnica agrícola mais especializada e fazer disso uma prioridade.
O empresário espanhol acrescenta que, apesar de Portugal ter muito bons técnicos de azeite, dos melhores, “os que querem ser bons têm de ir a Espanha à Universidade de Córdoba”.
O desafio lançado por Javier Parladé encontra eco junto da Confederação dos Agricultores de Portugal. Eduardo Oliveira e Sousa reconhece que, não obstante existirem universidades como as de Évora e várias escolas agrícolas, “o sistema de ensino não reage à velocidade que gostaríamos”.
Por isso, o presidente da CAP disse que tem o objetivo de incentivar as universidades a criar polos de especificidade. “Gostaríamos de que as universidades criassem cursos especializados de acordo com o perfil das suas regiões.” E questiona: “Quem quer saber de vinhos vai a Bordéus ou à Austrália, mas quem quer saber de azeite em Portugal onde vai?”
Por outro lado, aquele responsável considera que a questão da formação não deixa de estar relacionada com a lei da oferta e da procura. Daí que considere muito importante os jovens terem acesso a informação sobre as potencialidades do investimento na agricultura e que possam olhar para o setor de outra maneira.
A falta de técnicos especializados é, aliás, uma das razões que faz que Javier Parladé ainda não se tenha decidido por abandonar a monocultura do olival intensivo e diversificar para os frutos secos. Isto apesar de estarem a apostar numa nova área de regadio junto a Aviz, muito boa para olival e frutos secos. “Tenho um pouco de medo, porque não há técnicos tão bons nesta área como se encontra no azeite.”
Para o empresário Miguel Castelo Branco, à frente da Herdade do Paço do Conde, com uma faturação que se aproxima dos 10 milhões de euros, não há dúvidas de que “a gente jovem acredita na agricultura”.
“Há muitos jovens que veem neste setor uma oportunidade de desenvolvimento e satisfação profissional”, assevera.
Plano Nacional de Regadio moderniza rega de norte a sul
Política. Projeto para regar o país custa 530 milhões de euros e vai permitir a expansão da área de rega de Alqueva em mais 50 mil hectares
O Plano Nacional de Regadio, que prevê modernizar as áreas de rega desde Trás-os-Montes ao Algarve, vai também permitir a expansão do perímetro de rega de Alqueva em mais 50 mil hectares, passando a abranger 170 mil hectares, avançou o presidente da EDIA, José Pedro Salema. Em causa está um investimento da ordem dos 530 milhões de euros, metade do qual a ser financiado pelo Banco Europeu de Investimento.
Segundo José Pedro Salema, “as negociações estão muito bem encaminhadas e em fase de conclusão”, estimando-se que as primeiras áreas possam estar disponíveis no verão de 2019 e que até 2021 aconteça a expansão dos 50 mil hectares de Alqueva. A EDIA é a entidade que está a liderar o processo de candidaturas no âmbito do Plano Nacional de Regadio.
O norte e o interior norte deverá ser a região mais beneficiada pelo plano, agora que a área sul tem mais recursos hídricos.
Um projeto e uma decisão que não poderiam chegar em melhor altura, a julgar pelas palavras do presidente da CAP. “A situação de seca severa que estamos a viver é muito dramática”, considerou Eduardo Oliveira e Sousa, no debate realizado terça-feira, na sede do Banco Popular, sobre Alqueva.
“Há agricultores a passarem muito mal no país todo, desde a faixa interior norte a sul, como Trás–os-Montes, Beira, Portalegre”, justamente pela falta de acesso à água, exemplificou. O novo porta-voz da agricultura portuguesa lembrou que “este ano morreram animais devido à seca”.
Por essas razões, mas também devido ao facto de as alterações climatéricas tenderem a acentuar os fenómenos extremos, o presidente da CAP defende a necessidade de um plano estratégico de longo prazo para a agricultura, que tenha em conta a questão da água. Chamando a atenção para a região do Vale do Tejo – a de maior potencial agrícola do país – que “precisa de muita atenção e investimento”, Eduardo Oliveira e Sousa ressalvou também as carências de outras regiões como Mirandela ou o Norte alentejano.
UE subestima problema da água
“Se o país considerar a agricultura um setor estratégico, os problemas vão-se resolvendo.” Mas, lembrou, “é preciso que os nossos atores políticos saibam defender os nossos interesses”, nomeadamente junto das instâncias comunitárias, onde se começará a discutir uma nova reforma da Política Agrícola Comum e também o brexit.
“Estamos numa União Europeia cujos interesses dos países mais poderosos não percebem a necessidade da água, ou seja, as suas preocupações centram-se mais nas questões da qualidade da água do que da quantidade de água”, disse o líder da CAP.
Ao mesmo tempo, Eduardo Oliveira e Sousa mostrou-se algo receoso dos efeitos do brexit e da eventual redução da fatia do orçamento da Política Agrícola Comum (PAC) a canalizar para a agricultura portuguesa. “Vão ser sete cães a um osso”, vaticinou.
O presidente da CAP assume, a propósito, a necessidade de melhorar a divulgação e a comunicação das questões relacionadas com a agricultura, de modo a que elas sejam mais bem percecionadas pela opinião pública, bem como pelos decisores políticos.
Idêntico desafio é assumido pelo presidente da EDIA. Este lembrou que a propósito do projeto Alqueva vai à escola, desenvolvido em 2016, “era desolador ver o que os professores sabiam sobre o Alqueva”, não estando em condições de passar informação aos alunos sobre as possibilidades da região e novas formas de perspetivar o futuro.
Regadio combate fogos florestais
Um argumento de peso a favor da necessidade de um plano estratégico para o regadio é, de acordo com Eduardo Oliveira e Sousa, a relação entre a ausência de água e os fogos florestais.
“Vivemos este ano um ano terrível em matéria de fogos florestais, o que também tem que ver com regadio”, na medida em que “é preciso aumentar a capacidade de retirar rendimento da agricultura e a única forma de o fazer é criar alguma intensificação, o que só se faz com acesso a água”, considerou.
Para o presidente da CAP aquela é a fórmula de atrair mais gente, dinamizar as economias das regiões e impedir a desertificação do interior, “porque água é vida”.
No que diz respeito em concreto ao impacto de Alqueva na agricultura alentejana, os convidados do debate são unânimes em reconhecer que houve um aumento significativo da produtividade e rentabilidade bem como da diversidade de culturas, com grande destaque para o olival, a vinha e os frutos secos, sempre ou quase sempre com vocação exportadora.
É o caso da Herdade do Paço do Conde, que está a alargar a dimensão da adega para o dobro bem como a aumentar a plantação de olival e de vinha. Miguel Castelo Banco prevê entrar nos frutos secos em 2018, aumentando assim a já significativa diversificação de culturas.
Já a Herdade Monte da Sousa, administrada por Javier Parladé, deverá continuar a focar-se no olival intensivo para azeite a granel. “No início, a realidade foi mais difícil do que esperávamos, porque os preços do azeite estavam baixos, mas os preços subiram e as produções foram aumentando”, disse. Os frutos secos não estão totalmente fora de hipótese, mas Javier Parladé diz ter ainda algum receio de entrar nesta cultura, pela falta de técnicos qualificados.
Carla Aguiar (Texto)
Sara Matos/Global Imagens (Fotos)
Alqueva tem reserva de água para dois anos
Balanço. Alqueva atravessa seca com reservas a 70%. Empresários reconhecem que sem o acesso à água da albufeira neste ano seria muito complicado com produção inferior em 80%
O Alqueva está a enfrentar com nota positiva o seu stress test em cenário de seca severa. Apesar da conjuntura, “as reservas de água estão neste momento a 70%, com cerca de dois mil milhões de metros cúbicos de água”, revelou o presidente da EDIA, José Pedro Salema.
“A água em reserva é suficiente para mais de dois anos”, adiantou o responsável da entidade gestora do complexo de albufeiras, que falava num debate do ciclo Economia Ibérica, promovido pelo Banco Popular, com foco no agroalimentar.
O desafio mais importante do sistema do Alqueva é, no entanto, garantir que a água chega onde é necessária, percorrendo às vezes centenas de quilómetros. Nesta frente, José Pedro Salema garante que no fim desta campanha “não houve nenhuma exploração das que estão ligadas ao sistema que tenha ficado sem água”.
Em causa está um perímetro de rega oficial de 120 mil hectares. Mas o Alqueva ajudou neste ano a regar mais 30 mil hectares, explico José Pedro Salema. Apesar de as comportas terem sido fechadas em 2002, as últimas barragens só foram concluídas em 2016, o que faz que este tenha sido o primeiro ano com toda a estrutura a funcionar em pleno, acumulando uma situação de três anos de baixa pluviosidade.
“O Alqueva veio reforçar a importância de uma estratégia nacional para armazenar e distribuir água em quantidade e qualidade ”, considerou o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Eduardo Oliveira e Sousa sustentou, por isso, que “o modelo deve ser copiado para outras regiões, embora não necessariamente com a mesma dimensão”. “Absolutamente crucial” é como o empresário Miguel Castelo Branco avalia o impacto do Alqueva na Herdade do Paço do Conde, que administra, em Baleizão, e na agricultura alentejana. Apesar de a herdade cultivar olival há mais de 100 anos, Miguel Albuquerque não hesita em calcular que se não fosse o acesso à água “a produção de olival baixaria entre 80 e 90%”.
Para lá das vantagens diretas, aquele empresário, que explora 12 sociedades, sublinha o efeito dinamizador do Alqueva na economia local e de uma nova forma de fazer agricultura com recurso às mais modernas tecnologias. Já para o agricultor espanhol Javier Parladé, o Alqueva foi mesmo a razão de ser do investimento de 50 milhões de euros no Alentejo. “Foi a água do Alqueva que nos trouxe para cá, porque na Andaluzia não havia possibilidade de fazer novo regadio”, explicou o engenheiro agrónomo que explora desde 2005 olival para produção de azeite a granel em Évora, Ferreira do Alentejo e Avis.
Administrador do Grupo Rabala, Javier Parladé acredita no futuro do setor do azeite em Portugal, considerando que o Alentejo tem neste momento uma oportunidade que lhe traz vantagens competitivas face a Espanha porque, ao contrário desta, tem água. “Agora é saber gerir a oportunidade”, diz.
Carla Aguiar (Texto)
Sara Matos/Global Imagens (Fotos)
Miguel Castelo Branco: “Antes de Alqueva o acesso à água era caro e incerto”
À frente da Herdade Paço do Conde, em Baleizão, Miguel Castelo Branco dá continuidade a uma empresa familiar iniciada pelos avós, que fez a transição da agricultura tradicional de sequeiro para o olival, a vinha e os frutos secos, a mais recente aventura. Já exporta mais de metade do que produz.
Como se conta a história da Herdade Paço do Conde?
Eu e os meus irmãos descendemos de várias gerações de empresários agrícolas e estamos a continuar. Até 1988 dedicávamo-nos à tradicional agricultura de sequeiro alentejana. Depois desenvolvemos o processo de transformação do grupo de 12 sociedades, iniciado pelo meu pai. No olival temos um lagar próprio com capacidade para transformação de 2,5 milhões de quilos de azeitona. Vendemos com marca própria Paço do Conde e também exportamos, sobretudo para Espanha e Itália.
As propriedades foram abrangidas pela reforma agrária…
Claro. Ficaram ocupadas desde o dia 5 de agosto de 1975 até a última propriedade ser recuperada, em 1986, através dos tribunais.
Como é a atividade nos vinhos?
Temos vinhas na região de Baleizão e na Vidigueira e uma adega onde transformamos 1,5 milhões de quilos de uva. Temos um projeto para atingir 2,5 milhões em 2018.
Qual é o peso das exportações?
Exportamos mais de 50% da nossa produção. O Canadá é o nosso principal destino, mas também Brasil, Europa, China e Angola. Temos várias marcas que temos estado a desenvolver. A par destas duas atividades que implicaram a transformação de 1500 hectares de olivais com as técnicas mais modernas e cerca de 200 hectares de vinha, construímos um lagar e uma adega que permite transformar os nossos produtos e também prestar serviços a terceiros.
Mas também se dedicam a outras culturas…
Este grupo de propriedades faz ainda hortícolas, melão, meloa, cebola, alho, papoila para fármacos, milho e forragens. Temos também efetivo pecuário, cerca de mil vacas. Vamos arrancar com um projeto para a criação de animais de uma determinada raça para um cliente específico.
Como é que o acesso à água de Alqueva potenciou o negócio?
Desde 1986-87 que nos antecipámos a Alqueva fazendo barragens, bombando do Guadiana e procurando fazer a transição do sequeiro para o regadio, contando com o apoio de fundos comunitários. Fizemos oito barragens. A chegada da água à nossa zona, Baleizão, em 2015, foi ótima pois regularizou um bem que era escasso e caro. Apesar de não ser barata a água da EDIA, a situação é incomparavelmente melhor. O acesso à agua era sempre muito incerto, dependia das chuvas.
Quer dar um exemplo do quão marcante foi?
Tínhamos feito um investimento muito grande em equipamentos muito falíveis, com elevados custos de energia elétrica e a incerteza permanente de ter ou não ter água na barragem. Diria mesmo que nos dois últimos anos teríamos tido problemas sérios, pois praticamente não choveu. É uma riqueza enorme termos água disponível com custos bastante inferiores aos que suportava para regar deficientemente.
Diz que o preço não é barato. A EDIA está a cobrar demasiado pela água?
Como empresário é normal que diga que não é barato, até porque noutras regiões o custo é inferior. Mas também é normal que uma infraestrutura que foi paga por todo o país seja também paga por aqueles que a utilizam.
Qual é o preço de referência?
Cinco cêntimos por metro cúbico.
Qual o volume de negócios e como se distribui pelas diversas áreas?
Temos um volume de negócios superior a dez milhões de euros. O setor do azeite representa à volta de 40%, o agrícola outros 40% e os vinhos significam 20%.
Como estão a evoluir as exportações de azeite? Além de Espanha e Itália há perspetivas de abertura de outros mercados?
Temos alavancado as vendas do azeite nos mercados onde o nosso departamento comercial desenvolve as vendas dos vinhos. O azeite engarrafado representa entre 10% e 15% do nosso valor de faturação e o restante é a granel, para exportação. A quase totalidade, 90% do azeite a granel, é vendida para Espanha e Itália.
Estão satisfeitos com essa posição de mercado ou querem subir?
A nossa perspetiva é a de vender mais azeite engarrafado. Mas neste momento não é fácil fazer um preço atrativo nas grandes superfícies com um produto de alta qualidade em concorrência com grandes engarrafadores que praticam preços muito competitivos. Em face do preço elevado que é pago pelo azeite a granel, é mais atrativa a venda neste mercado.
O preço do azeite está em alta…
O azeite é uma commodity adquirida em bolsa. Está em alta devido à seca em Portugal e na Espanha e também devido a problemas sanitários em Itália. Por outro lado, os preços resultam ainda de baixas produções em países produtores como a Turquia, a Grécia e outros países do Magrebe.
Como tem evoluído o preço?
Neste ano já houve vários preços. Já esteve a 1,30 euros e está quase em quatro. Apesar do crescimento de consumo de óleos, o preço do azeite tem conseguido manter-se e as vendas a subir.
E quais são os principais mercados dos vinhos?
Temos o mercado nacional com cerca de 40%. E no exterior, o Canadá, a Alemanha, a Suíça, a Bélgica, a Dinamarca, a China, o Brasil e Angola.
Como surge a produção de papoila?
A papoila surgiu com o contacto de um grupo farmacêutico internacional que se instalou em Portugal para a produção de papoila para fins terapêuticos com as devidas licenças, naturalmente. Fazemos porque é rentável em comparação com outras culturas.
Que novos projetos estão na calha?
Prevemos um investimento global de quatro milhões de euros. Em 2018 contamos concluir a ampliação da adega no sentido de transformar 2,5 milhões de quilos de uva e também a conclusão de grande parte do lagar. A nível agroindustrial o investimento ronda os 1,5 milhões de euros. Também temos projetos para o olival intensivo e ainda para a plantação de cem hectares de amendoal. Estamos a entrar na área dos frutos secos.
O aumento do olival visa aproveitar também a conjuntura favorável nos preços do azeite?
Nós não nos movemos por conjunturas. A ideia é fazer uma transformação estrutural da propriedade visando os futuros descendentes. Até porque a conjuntura hoje é uma coisa e amanhã é outra coisa completamente diferente. Somos produtores engarrafadores. Os nossos vinhos têm uma constância de qualidade porque são das nossas vinhas, com castas que nós escolhemos para um determinado perfil de vinhos.
Que impacto teve Alqueva? Há novas formas de fazer agricultura?
Claro que sim, a primeira consequência foi a mudança de titularidade da propriedade. Pessoas que não tinham condições acabaram por vender ou arrendar as suas propriedades, graças a mudanças na lei do arrendamento. Vieram investidores estrangeiros, sobretudo espanhóis, e com novas tecnologias e novos processos que têm contribuído para transformar e modernizar a agricultura. Não há qualquer comparação nos lagares e adegas. Nem nos custos nem nos proveitos. O rendimento bruto de uma área com olival ou com vinha é quatro a cinco vezes mais do que nos cereais.
Javier Parladé: “Viemos para Portugal porque na Espanha já não era possível novo regadio”
As condições geradas por Alqueva convenceram o engenheiro agrónomo espanhol Javier Parladé a investir em olival. No Alentejo desde 2005, o Grupo Rabala, por si administrado, dedica-se à produção de azeite a granel que vende dentro e fora de portas. Parladé acredita no futuro do setor.
O que é este grupo e o que está a fazer em Portugal?
Chegámos em 2005 e comprámos uma série de propriedades, que transformámos com a plantação de 1700 hectares de olival, repartidos entre Évora, Aviz e Ferreira do Alentejo.
Desde então houve uma evolução grande. Qual foi a mais-valia da água de Alqueva para a vossa atividade?
Nós viemos para Portugal justamente por causa de Alqueva. Aqui havia a promessa de água, quando em Espanha já não havia, nessa altura, possibilidade de fazer novos regadios. Isso foi o que nos trouxe para cá. Por outro lado, ter a garantia de acesso à água por vários anos permite amortizar com tranquilidade o investimento, que foi muito grande.
Como caracteriza o vosso negócio, ao longo destes oito anos, antes e depois de Alqueva estar a funcionar?
Quando comprámos a nossa primeira propriedade já foi tendo em vista o acesso à água. Logo no ano seguinte, a barragem entrou em funcionamento.
Como tem evoluído o negócio com essa garantia de água de forma estrutural?
Tem sido uma evolução muito boa. Portugal, o Alentejo em concreto, é uma região muito apropriada para a cultura do olival. Temos uma produção muito alta que só é possível graças a Alqueva. De outro modo não seria de todo possível.
E qual é a produção média?
Estamos a produzir à volta de 1500 a 2000 quilos de azeite por hectare, ou mesmo mais.
A produção é canalizada para o mercado nacional ou também para Espanha?
A maioria da nossa produção vai para o mercado internacional, sobretudo para Itália. Também vendemos para Portugal, nomeadamente para grandes empresas como a Sovena, ou para Espanha. Temos um lagar e vendemos a granel, a um ritmo que vai dependendo da procura e da evolução dos preços.
Quanto é que as exportações para a Itália pesam nas vendas?
Dependendo do ano, a Itália pode representar 30%, 40% ou 50% da faturação global. Neste ano, por exemplo, havia muito pouca produção em Itália, razão pela qual vendemos muito.
Que fatia cabe ao mercado português?
Vendemos mais ou menos a mesma proporção para o mercado português e espanhol.
Há planos de investimento nas explorações para os próximos tempos?
Temos planos de investimento em propriedades que não tínhamos ainda transformado globalmente. Temos preferido ir um pouco por fases porque são investimentos avultados. Agora o objetivo é plantar 500 novos hectares de olival no espaço de dois a três anos.
Como está a ser este ano em volume de negócios?
Creio que vai ser muito bom, melhor do que o ano passado. Não só a colheita como os preços também estão melhores do que no ano passado.
E quanto é que isso representa?
Entre azeite e azeitona, o grupo está a vender cerca de oito a dez milhões de euros.
Contam crescer no próximo ano?
No próximo ano esperamos manter um nível de produção mais ou menos equivalente. Até agora não nos sobra azeite, vendemos tudo o que produzimos.
O Grupo Rabala tem uma meta de crescimento?
Queremos atingir um volume de negócios superior a dez milhões de euros.
Desde que se radicou no Alentejo tem sentido maior dinamismo económico na zona de Alqueva?
Sim, creio que tem melhorado. Vê–se uma mudança enorme desde 2005 tanto a nível de oferta de trabalho, de rendimento e de nível técnico. Vejo muito futuro.
Quer especificar?
Cada vez há mais gente preparada. Antes, os melhores técnicos de olival eram espanhóis. Agora são portugueses. Todas as plantações são muito modernas com as mais novas tecnologias. E seguramente que os melhores técnicos do mundo estão aqui.
Como se estrutura o vosso grupo empresarial?
Temos três sociedades e cada uma é propriedade da empresa mãe. Cada sócio é independente e de-senvolve o mesmo ramo de atividade. Cerca de 90% da terra é reservada para o olival. As sociedades agrícolas são portuguesas. A sociedade que detém as ações é espanhola. No grupo somos todos espanhóis, três famílias de amigos, engenheiros agrónomos, eu sou o administrador.
O investimento inicial foi avultado?
Sim. Investimos mais de 50 milhões de euros.
Já recuperaram esse investimento?
Ainda não, mas esperamos recuperar no futuro. É preciso lembrar que parte do investimento foi feito com recurso a crédito bancário.O facto de o preço do azeite estar em alta aumenta as vossas expectativas?
Sim, as expectativas são boas, mas também estamos a contar que provavelmente não se vai manter este nível de preços altos, mesmo que o consumo e as exportações continuem bem. O preço não deverá continuar nos atuais 3,80 euros, mas se ficar nos três euros já será muito bom para o setor e para os agricultores.
E novos mercados? Há apetência de outros países por este tipo de produtos?
Sim, estamos a enviar azeite direta ou indiretamente para os EUA ou para a Austrália. Mas são encomendas pontuais.
Porque vale a pena produzir azeite e azeitona em Portugal e Espanha?
Quando vinha um técnico a Portugal dizia que um hectare dava para produzir 300 a 400 quilos de azeite. Ou seja, há condições, consegue-se amortizar o investimento no espaço de um ano.
O que espera de Portugal? Querem crescer mais? Vê aqui futuro neste setor?
Sim, tem futuro. Creio que em muito pouco tempo Portugal estará a produzir umas cem mil toneladas de azeite, e em poucos anos estará em 150 mil. Acredito mesmo que vai chegar ao patamar das 200 mil toneladas de azeite, o que já será qualquer coisa bastante relevante, próximo dos valores de referência da Itália ou da Grécia.
Ponderam diversificar para os frutos secos tendo em conta o potencial de Alqueva, que tem levado muitos agricultores a optar por esta cultura?
Temos ponderado a possibilidade de começar a fazer amêndoas e nozes. Mas nós temos já toda uma estrutura, desde a a maquinaria aos técnicos muito focados no azeite. E até agora está a correr bem. Ainda subsistem algumas dúvidas sobre se teremos os melhores técnicos para os frutos secos. Seguir ou não por esse caminho é algo que ainda não está decidido.
No total quantas pessoas emprega o grupo nas suas propriedades em Portugal?
Se considerarmos apenas os trabalhadores fixos, estamos a falar de cerca de 40 a 50 pessoas. Na altura das colheitas chegamos a dar trabalho a cerca de 300 a 400 pessoas.
Ucrânia ameaça mudar o jogo
Mercado O aumento da produção de girassol na região do Mar Negro faz pairar uma nuvem sobre a rentabilidade no futuro
A grande ameaça que se coloca à melhoria da rentabilidade para os produtores que se dedicam ao girassol é o aumento da produção de girassol na região do Mar Negro, em especial na Ucrânia” considera a diretora de operações da Sovena, Teresa Abecasis.
Numa produção mundial total da ordem das 40 milhões de toneladas, só a Ucrânia é responsável por cerca de 14 milhões, influenciando fortemente o mercado mundial dos preços desta cultura. E dá-se a particularidade de a União Europeia ter deixado de fixar impostos à entrada dos óleos provenientes daquela região, numa estratégia de auxílio àquele país, o que retira competitividade à produção dos países da península ibérica.
Esta circunstância geopolítica “está já a ter impacto em Espanha, país onde se regista uma redução progressiva da área de plantação de girassol”, revelou aquela responsável, antecipando provavelmente quebras de rentabilidade.
Apesar daquele cenário, Teresa Abecasis sublinhou que “não quer dizer que a Sovena desista da produção local de girassol: não só não queremos estar totalmente dependentes de sementes de importação como queremos continuar a contribuir para o desenvolvimento da economia local”.
Em todo o caso lembrou que não se pode escamotear a realidade: “há esta nuvem no horizonte” com origem na região do Mar Negro.
A dirigente da Sovena observou que, como grande empresa que opera à escala global, é imperioso estar permanentemente atenta ao que se passa no mundo, seja às mudanças políticas nos Estados Unidos e sua nova estratégia de comércio externo, à vraiação do euro-dólar ou aos relatórios de análise às produções das várias regiões.
E não são só os preços dos cereais, azeite e oleaginosas que a Sovena acompanha com regularidade, mas também os do petróleo. Não sem razão. Quando os preços do petróleo e dos combustíveis atingem níveis muito elevados, dá-se uma tendência, em certas regiões, para a sua substituição por óleos, o que aumenta a demanda e influencia os preços para cima. O inverso também é verdadeiro, tal como acontece no momento atual, com preços baixos nos óleos e no petróleo.
