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VÍDEO: Reabilitação no Porto em debate
O Palácio da Bolsa, no Porto, acolheu o último debate de 2018 da série Reabilitar para Revitalizar, IFRRU 2020, desta feita. Na iniciativa conjunta do Santander e do Global Media Group participaram Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, Ana Pinho, secretária de Estado da Habitação, Carlos Abade, vogal do conselho diretivo do Turismo de Portugal, e António Fontes, diretor coordenador de Fomento à Construção do Santander.
Esta sessão das Conversas Soltas contou ainda com a presença de José Leite Maia, administrador do Santander.
Veja aqui o debate na íntegra, moderado pelo jornalista António Perez Metelo.
Projetos para reabilitar já somam 1,9 mil mihões
Até final de setembro, o IFRRU- instrumento financeiro para apoio à reabilitação e revitalização urbana, recebeu 690 intenções de investimento, que correspondem a 1900 milhões de euros. Foram apresentadas 225 candidaturas, equivalentes a 604 milhões de euros, e emitidos 794 pareceres prévios vinculativos pelos municípios, necessários para a instrução das candidaturas. Há 42 contratos assinados, que correspondem a 184 milhões de investimento, provenientes de 31 empresas, oito particulares, uma autarquia e duas IPSS.
O balanço foi apresentado pela Secretária de Estado da Habitação, Ana Pinho, no debate “Reabilitar para revitalizar, IFRRU 2020 Porto”, que decorreu, sexta-feira, no Palácio da Bolsa, no Porto, uma iniciativa realizada pelo Santander em parceria com o Global Media Group.
Os contratos assinados, explicou Ana Pinho, correspondem a projetos para habitação e atividades económicas, distribuídos por 15 municípios. “Há maior predominância de imóveis do Tejo para cima, mas há uma dispersão no território significativa”, disse, sublinhando que esse é um sinal de que o país já percebeu que estes instrumentos não se destinam apenas às grandes metrópoles como Lisboa e Porto, mas à totalidade do território nacional.
O turismo, um setor que representou cerca de 15 mil milhões de euros de receitas turísticas no ano passado, tem beneficiado particularmente da reabilitação, garante Carlos Abade, vogal do conselho diretivo do Turismo de Portugal. “Não teria sido possível atingir estes níveis de crescimento no setor se não tivesse havido um investimento muito forte a nível da reabilitação urbana”, algo que se nota no Porto, em Lisboa e noutras cidades do país, afiança.
No Porto, “muitas das unidades hoteleiras que surgiram nos últimos sete ou oito anos foram no processo fortíssimo de reabilitação urbana e alavancados também por incentivos financeiros que foram disponibilizados pelo Estado e no âmbito do Portugal 2020”, sublinhou. Segundo Carlos Abade, “a reabilitação urbana permitiu que as cidades estivessem mais acolhedoras, mais bonitas, mais adequadas a receber quem visita”. Mas também, salienta, para “quem reside e trabalha nessa cidades”. Por outro lado, a reabilitação “permitiu alargar os espaços de fruição das cidades para conseguir dar uma experiência melhor ao turista e melhores condições de mobilidade dentro das cidades”. Agora, diz, é preciso “continuar a criar condições dentro das cidades para que haja uma relação saudável entre o turista e quem reside nas cidades”.
O IFRRU, sublinha Carlos Abade, é um “instrumento fortíssimo e adequado em termos de reabilitação urbana”. No turismo existem outras “linhas que podem ser complementares ao IFRRU, como a linha de apoio à qualificação da oferta”. Os investidores podem “fazer um mix muito interessante” para obterem a melhor rentabilidade possível nos investimentos, aconselha Carlos Abade.
Santander lidera projetos
O Santander é, dos três bancos que aderiram ao IFRRU, o que tem “a fatia mais numerosa”, pois “52 % das operações do IFRRU que entraram até agora são do Santander”, sublinhou o administrador José leite Maia, para evidenciar o dinamismo do banco nesta área. E acrescentou: “temos 800 milhões de euros disponíveis para projetos de investimento”, que podem ser apresentados por privados ou câmaras que queiram revitalizar espaços. Se estiverem situados em Áreas de Reabilitação Urbana definidas e cumprirem os requisitos do IFRRU, beneficiam de financiamentos a 20 anos com juros mais baixos.
António Fontes, diretor de fomento à construção do Santander avançou que, dos 27 contratos (no valor de 65 milhões de euros) já firmados pelo Santander no âmbito do IFRRU, “dez são na região norte”. Em causa estão seis projetos residenciais (para venda, habitação própria e arrendamento) e quatro na área hoteleira.
Há operações contratadas em Braga, Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Porto. Preparam-se novos negócios em Santo Tirso, em Guimarães e em S. João da Madeira. Por isso, António Fontes acredita que rapidamente os fundos do IFRRU vão espalhar-se por todo o território.
Este debate, moderado por António Perez Metelo, justifica-se plenamente pela “relevância do tema” e pela “necessidade de informar as pessoas para tomarem as melhores decisões”, explicou Victor Ribeiro, CEO do Global Media Group.
Zulay Costa(Texto)
Igor Martins (Foto)
Porto quer levar exemplo do centro histórico para outras zonas
Quando o centro histórico do Porto começou a ser reabilitado, há uma década, havia perdido “40% da sua população”. A zona envolvente ao Palácio da Bolsa, onde decorreu o debate destinado à capital nortenha, estava “num estado lastimável, com casas abandonadas”. A descrição é de Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, que desvenda que o segredo para mudar o “buraco” passou por um conjunto de políticas públicas acompanhadas de empreendedorismo privado. “Foi quase como replantar cidade num sítio abandonado”, diz.
O bom exemplo de reabilitação do centro histórico é agora para “replicar” noutras zonas, definidas como Áreas de Reabilitação Urbana. É o caso de Campanhã.
Por vezes, e porque o “encanto” é diferente, é necessário “introduzir fatores de competitividade, como o terminal intermodal e o matadouro de Campanhã, fatores que fazem a diferenciação e potenciam crescimentos mais elevados”, explicou Rui Moreira.
O autarca, que já presidiu à sociedade de reabilitação urbana, foi percebendo que o investimento público pode alavancar o privado. Por cada euro investido pelo público, consegue-se um “efeito multiplicador” que pode chegar aos 15 ou 20 euros.
São números que alimentam a ideia de que “fazendo o Estado o seu papel, tratando do espaço publico e havendo instrumentos fiscais adequados, os privados são capazes de corresponder e o multiplicador é enorme”.
Há casos em que os proprietários não têm a “alavanca” necessária para investir. Daí que programas de financiamento como o IFRRU sejam importantes, pois permitem financiar e ajudar para, num esforço de colaboração, se tornar o território mais coeso. É que, zonas por reabilitar, mesmo que residuais, num quarteirão, “desfeiam” o resto que já está recuperado, tornando todo o espaço pouco atrativo. No país há muito para reabilitar e o trabalho nunca ficará concluído, pois é um processo contínuo. Aliás, precisou Rui Moreira, “os ciclos de reabilitação rondam os 30 anos”, sendo necessária uma intervenção contínua.
A terminar, o autarca pediu para não se “diabolizar” o turismo, porque “foi muito relevante para acelerar a reabilitação”.
Vasco Veiga: “Castanhas rendem 80 milhões de euros a produtores de Bragança”
A completar 25 anos, a Sortegel lidera, a partir de Bragança, a transformação e comercialização de castanha em Portugal. Na Europa é mesmo uma referência e uma das maiores do setor, refere o seu administrador, Vasco Veiga, em entrevista. A empresa, que exporta 75% da sua produção para vários continentes, realizou um investimento massivo de 15 milhões de euros em tecnologia, nos últimos anos. Agora é hora de consolidar mercados e diversificar para outras culturas, como o azeite e frutos secos. Até porque as alterações climáticas já estão a deixar rasto, alerta o engenheiro agrónomo.
Como é que a Sortegel se tornou, a partir de Bragança, uma das maiores empresas europeias de comercialização e transformação da castanha?
Tornou-se uma referência por causa dos investimentos recentes, em melhor tecnologia e maior eficácia da mão-de-obra e da linha de produção. Ao ganharmos massa crítica, demos o salto. Fizemos investimentos entre 12 e 15 milhões de euros na modernização, ao longo da última década, em particular, nos últimos três anos. Estamos ao nível da melhor concorrência do mundo neste setor.
E como se conta a história desta empresa 100% portuguesa?
A empresa – que teve início em 1993 e completa este ano 25 anos -, começou por ser uma sociedade de comerciantes da castanha, que se juntaram com o objetivo de se dedicarem à comercialização. Passados uns anos, cada um foi para seu lado e houve um investidor que adquiriu a totalidade das participações financeiras. Pelo meio, esse investidor acabaria por vender à então SLN (Sociedade Lusa de Negócios). Mas quando começam os problemas com esta empresa e a nacionalização do BPN (Banco Português deNegócios), entra um novo investidor privado, que se mantém até hoje como o atual acionista.
Passados estes anos, o que vos diferencia no mercado face aos outros operadores?
A dimensão e a tecnologia. Trabalhamos com muitos pequenos produtores na região e também temos produção própria.
E a internacionalização? Quando começou?
Isso foi logo desde o início. Percebemos que tínhamos muito mais valias se explorássemos o mercado internacional, porque o nacional é muito pequeno. E, infelizmente, o consumo da castanha fresca é sazonal. Ou seja, 80% a 90% da castanha fresca vende-se apenas entre os santos e o São Martinho, de 25 de outubro a 15 novembro. No resto do ano só a descascada e congelada é que tem escoamento no mercado.
No mercado português a castanha congelada também tem procura?
Tem vindo a subir muito, nomeadamente para catering, também por influência da expansão da cozinha gourmet e de pratos pré-confecionados. Em Portugal, ainda não pegaram muito os cremes, à exceção talvez do Algarve, onde há muitos estrangeiros que consomem puré de castanha.
Hoje a castanha é uma cultura rentável?
Sim, sim, neste momento eu diria que é a única cultura rentável em Trás-os-Montes, ou a mais rentável no norte do país. Esta cultura caracteriza-se pelo minifúndio, as explorações são pequenas e há muitos pequenos produtores que não têm sequer dimensão para se chamarem empresários. O ano passado foi um mau ano para a castanha. E a importância deste setor é de tal maneira significativa na região que a atividade económica de Bragança ressentiu-se ao nível do comércio e da banca, devido à fraca produção do ano passado.
E quais são as expetativas para este ano?
Com o frio que tem feito, o ouriço demorou mais abrir e a cair. E esta é uma cultura de apanha. Estamos também preocupados com os efeitos das possíveis geadas.
O preço está elevado. É demais?
Estamos no limiar do preço. Em alguns supermercados a castanha está a 6 e a 7 euros o quilo, o que é um preço exagerado. Os agricultores poderão ter de reduzir o preço para que a indústria não se sinta tentada a substituir a nossa castanha pela chinesa, sobretudo para a utilização em purés.
Quanto vale o mercado da Castanha em Bragança?
Estamos a falar de cerca de 80 milhões de euros, cash, que entram diretamente nas aldeias, para os produtores. Nós, na Sortegel, laboramos à volta de oito mil toneladas, o que representa um valor de 20 milhões de euros.
As alterações climáticas já estão a deixar o seu rasto nesta cultura?
Em termos práticos, sim. Devido à subida das temperaturas médias nos últimos anos, esta cultura está a fazer-se agora entre os 700 e os 1100 metros de altitude, quando antes se fazia entre os 400 e os 600. Isto acarreta alguns problemas, porque não só há menos solos disponíveis a essas altitudes como a qualidade da terra é menor. Em algumas regiões como Minho, Vila Real e Beira , a produção ressentiu-se de algumas doenças, como a vespa asiática.
E o que se está a fazer para combater essa doença?
Está a tentar-se minimizar a situação com as chamada “luta biológica”, que consiste em introduzir uma outra vespa, que come a que provoca a doença. Isto é um processo que está a ser desenvolvido em conjunto com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), mas leva tempo.
Foi a antecipação das alterações climáticas e sua influência nesta cultura que levou a Sortegel a a apostar na diversificação para novos produtos?
Sim. Queremos reduzir tanto quanto possível a vulnerabilidade da empresa às alterações climáticas, que são inevitáveis. Por isso estamos a investir nos frutos secos: noz, amêndoa, avelã e vamos avançar agora a castanha de cajú. Também já temos olival,
E que mercados absorvem a vossa produção?
Cerca de 70% da produção é canalizada para exportação, sobretudo na castanha congelada. Os principais mercados são a França, Itália, Países Baixos, Hungria, Brasil e Estados Unidos.
Os agricultores portugueses queixam-se de uma forma geral da falta de água. Esse também é um constrangimento na vossa atividade?
Esse é um problema, sim, que poderá agravar-se. Apesar de sermos das regiões onde mais chove, a água passa-nos ao lado, sem que lhe possamos chegar, não a podemos reter, armazenar, por causa de uma legislação demasiado restritiva. E o pior é que não podemos reter e, no verão, as ribeiras acabam mesmo por secar. Precisávamos de alguma flexibilização nestas regras, porque penaliza os pequenos e muito pequenos produtores e fazer um furo é muito caro.
Sente os custos da interioridade na vossa atividade?
Nós pagamos tudo mais caro, cimento, energia… sofremos com a interioridade. Quando há um problema energético, causado por trovoadas, por exemplo, chegamos a estar seis a oito horas até voltarmos a ter eletricidade, enquanto nas regiões do litoral isso não acontece. Isto representa um entrave à atividade e tem custos.
Como está a situação da mão-de-obra em Trás-os-Montes e Alto Douro?
Há falta de mão de obra, por isso estamos a tentar investir em mais mecanização. É no período de um mês que se apanham as castanhas. Para se trabalhar precisávamos de 20 a 30 mil pessoas na região da castanha, que não temos. Recorremos a alguns nacionais, mas essencialmente a estrangeiros, sobretudo búlgaros já residentes. Mas estamos a pensar recorrer a mais nacionalidades.O Governo deveria criar medidas para aumentar a fixação dos jovens, numa espécie de plano nacional de repovoação.
Estamos em plena época da castanha assada. Quanto é que este “mercado” de rua já movimenta?
São mais de 500 toneladas que se vendem para os assadores de castanhas. Ora, a 2.50 euros cada cartucho, estamos a falar de um preço que ronda os 15 a 20 euros o quilo. No total são cerca de dez milhões de euros, com a particularidade de que os assadores vendem sem fatura, sem pagar imposto, e quando compram aos produtores, estes também lhes vendem sem fatura, livre de impostos.
Quanto é que pode estar em causa em fuga ao fisco na castanha assada de rua?
Podemos estar a falar de cerca de dois milhões de euros. Isto cria uma distorsão no mercado, porque se não pagam IVA, os assadores estão dispostos a comprar mais caro ao produtor, que depois nos pede a nós, indústria, que pagamos imposto, um preço mais alto. Na Suíça, por exemplo, os assadores de rua têm uma máquina registadora que emite fatura. Isso também poderia e deveria ser feito cá. Não é só de fuga ao fisco que se trata, mas também de distorsão de mercado.
Carla Aguiar (Texto)
Rui Ferreira (Foto)
Tomás Roquette: “Vendas para o exterior crescem todos os anos”
A Quinta do Crasto estendeu o negócio desde Sabrosa, onde detém a propriedade, o enoturismo e uma unidade logística na zona industrial, até ao Porto, onde instalou o escritório. À produção de vinhos e azeites associou o projeto de enoturismo, que recebe uma média de 3.500 visitantes por ano. Este é um projeto familiar que já vai na quinta geração e foi desenvolvido “com muito esforço, coesão, alegria e sintonia familiar, o que nem sempre é possível neste tipo de empresas familiares”, afirma Tomás Roquette, administrador da empresa.
Qual é o principal desafio da administração da Quinta do Crasto nesta altura?
A prioridade da atual geração, a quarta que lidera a empresa, será prepará-la para enfrentar desafios futuros, que podem não ser fáceis, mas que sejam, pelo menos, diferentes. Um legado que espero que continue.Para mim, estar a trabalhar neste projeto é acima de tudo, um prazer e um orgulho enorme pelo que foi feito até hoje. Não foi fácil, mas foi feito com esforço e dedicação. A região do Douro subdivide-se em três: baixo-Corgo, cima-Corgo e Douro superior e é onde a empresa detêm três propriedades.
A Quinta do Crasto propriamente dita, na zona do cima-Corgo, tem 130 hectares, dos quais 80 hectares são ocupados por vinha e olival tradicional com cerca de duas mil e 500 árvores, recentemente recuperadas e, neste momento, já em produção.
No Douro superior, desde o ano 2000, começámos a desenvolver outro projeto, a Quinta da Cabreira, com 150 hectares, dos quais 114 são vinha, uma região fantástica, na qual se produz uma uva excelente que nos permite fazer vinhos de uma qualidade única. A empresa detém ainda outra propriedade de 10 hectares próxima do Crasto, além de arrendar 35 hectares a outros proprietários, assegurando-lhes apenas a gestão produtiva.
Quanto é a empresa produz?
O conjunto das propriedades permite uma produção anual de uva na ordem de milhão e meio de quilos. Ás vezes mais, outras um bocadinho menos”, para vinhos de mesa e vinhos do Porto.
Está previsto algum plano de expansão do negócio?
Com esta dimensão de propriedade e de produção, não está previsto expandir muito mais o negócio, até porque há desafios que fogem do nosso controlo, ou não estão ao nosso alcance resolver, como por exemplo, os fenómenos climatéricos extremos e a incógnita das alterações climáticas. O caminho passa mais por melhorar o preço médio, vender melhor aquilo que já fazemos, do que propriamente pormais quantidade.
Essa estratégia de valorização dos produtos aplica-se tanto aos vinhos como aos azeites?
Sim, até pela pela dimensão da empresa. O objetivo com os azeites foi recuperar o olival que já tínhamos, colocá-lo a produzir e fechar o ciclo, transformar isso num bom azeite, engarrafar e vender com a nossa marca, que ajudou muito, porque a marca dos vinhos já existia e o azeite foi atrás. Mas a verdade é que isto começou com uma pequena brincadeira. No primeiro ano engarrafamos três ou quatro mil garrafas e, hoje, para Portugal e para exportação já vendemos 50 mil.
E que mercado pesa mais na distribuição dessas vendas?
No azeite, tal como nos vinhos, vendemos 30% a 35% no mercado nacional e o resto é para exportação. Todos os anos, as vendas ao exterior têm crescido, mas o mercado português tem crescido ainda mais. Nós já chegámos a exportar 100% da nossa produção, no início do nosso projeto dos azeites. Depois quando começamos a vender em Portugal exportávamos cerca de 80%. Não quer dizer que a exportação tenha diminuído, o mercado nacional é que tem crescido mais, a uma velocidade maior do que a exportação.
E qual é essa quota de crescimento do mercado nacional?
Como já disse, 35% dos produtos que produzimos vendemos no mercado nacional, mas neste setor Premium penso que temos uma quota muito superior em relação aos outros produtores do Douro, penso que somos líderes de mercado, neste segmento. Isso é fruto de um trabalho que temos vindo a desenvolver, com muita persistência , mas acima de tudo, sem nos desviarmos muito do caminho que traçamos, há mais de 20 anos. Fomos criando condições para levar este projeto a um ritmo constante de crescimento e de afirmação.
Quais são os países que estão no topo das vossas vendas de vinhos e azeite?
O nosso maior mercado de exportação é o Brasil e nós somos o operador do Douro que mais vende nesse destino, de acordo com os dados do IVDP- Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. Não só porque o Brasil naturalmente é um bom mercado para os vinhos portugueses, mas também, porque o irmão mais novo do meu pai, o meu tio, João Roquette, foi o único que não regressou a Portugal, após a revolução do 25 de Abril e criou uma empresa que hoje é uma verdadeira referência no mercado brasileiro, que se chama Qualimpor, que importa e distribui por todo o Brasil, os vinhos dos dois irmãos. Quer do meu tio José Roquette que é dono da Herdade do Esporão, no Alentejo, quer da Quinta do Crasto do meu pai, no Douro. Ele tem também mais duas ou três marcas, nomeadamente a Taylors, a Quinta do Ameal e agora tem ainda um espumante espanhol que é o Freixenet. É um portefólio pequeno, mas altamente concentrado, que fez do Brasil o nosso mercado de referência na exportação, de uma forma natural. A seguir temos Inglaterra, Canadá, e EUA, três mercados muito fortes. Depois temos uma meia dúzia de mercados mais pequenos que, todos juntos, ainda são significativos e há ainda mercados residuais, mas onde é importante estar, pois de hoje para amanhã dão o salto. Em quanto mais lugares do mundo estiverem disponíveis os nossos produtos, mais alternativas existem de contornar uma eventual crise. Portanto, a ideia é continuar a abrir mais um ou dois mercados, mas, acima de tudo, o grande desafio é manter a consistência de qualidade dos nossos produtos. Produzimos coisas fantásticas, temos gente muito capaz. Temos é que valorizar mais um bocadinho aquilo que fazemos.
Tem defendido a auto-estima dos portugueses, a promoção do que fazemos, mas também insiste em abordar a questão dos recursos humanos. Há falta de pessoas qualificadas neste setor?
Há duas lacunas neste momento: há alguma falta de gente qualificada, porque ela existe, mas não está é cá, não é?
Não existem condições para fixar essas pessoas ?
Não, ainda não se tornou verdadeiramente atrativo, mas também vivemos um período muito complicado de crise, com a entrada da troika e a intervenção externa do FMI, que levou muita gente a ir para fora, mas agora acho que começa a haver alguma vontade desses quadros, desses recursos humanos regressarem ao país, mas ainda não é suficiente. O problema está também na falta de mão-de-obra sazonal. Todos os anos precisamos de gente para apanhar as uvas, pisá-las, trabalhá-las…Curiosamente este ano foi muito pouco produtivo, devido a doenças fitosanitárias, nomeadamente o míldio, que trouxe grandes quebras à região. Com essa quebra anunciada, quando chegámos à vindima, eu pensei que íamos ter mais gente, ou o mesmo número de pessoas de outros anos, mas a verdade é que tivemos uma enorme dificuldade em arranjar pessoas para trabalhar.
Como resolveram o problema?
Este ano não conseguimos resolver, posso dizer que podia ter acabado a vindima mais cedo do que acabei, andei a passo de caracol na parte final. Felizmente não choveu e não houve qualquer problema, mas podíamos ter acabado a vindima muito mais cedo e apanhado as uvas num ponto melhor e até ter menos custos, porque seriam menos dias a vindimar e de máquinas a trabalhar .
Funcionou como um alerta do que vamos encontrar para o ano e muito em breve vou marcar reuniões com a minha equipa para assimilar o problema e ver como o vamos contornar. Mas passará por mecanizar mais , é sempre possível evoluir e,por outro lado, pagar melhor aos trabalhadores, dar-lhes melhores condições e aumentar um pouco o núcleo duro da nossa equipa.
Significa contratar mais gente? Mais quantas pessoas precisa?
Sim, mas não sei bem ainda quantas. Seguramente preciso de mais, mas é preciso que estejam disponíveis, abertas à nossa formação. É preciso que aceitem o desafio, que sintam que estão a ser valorizadas e que este é um sector que pode ser um modo de vida. Não sei se as vou convencer ou não. Vamos ver.
Quais as prevsiões de crescimento para este ano?
Curiosamente, não vamos ter quebra, porque o trabalho de viticultura desenvolvido no Crasto permitiu contornar adversidades. Tivemos alguns prejuízos com aquele último escaldão, na última semana com a vaga de calor, mas não nos afetou muito em termos de quantidade e qualidade. Vamos ter mais um excelente ano, espero crescer entre 4 a 5% e chegar aos 8 milhões de euros de faturação no total, incluindo o enoturismo. Está dentro do plano de negócio que definimos. Com uma margem bastante interessante, é um negócio pesado, tem que se estar sempre a investir, mas tem retorno. Mas volto ao ponto de partida, se conseguirmos valorizar o negócio, ele está cá e a qualidade também está cá, logo, tudo isto faz sentido.
Ana Maria Ramos (Texto)
Rui Manuel Ferreira (Foto)
Video: O Desenvolvimento do Interior Norte/Douro em debate
O sexto debate da série Agricultura Mais Forte centrou-se no Desenvolvimento do Interior Norte/Douro. Nesta Conversa Solta, a última da edição de 2018, participaram Vasco Veiga, administrador da Sortegel, Tomás Roquette, administrador da Quinta do Crasto, Francisco Pavão, presidente da APPITAD, António Augusto Fontaínhas Fernandes, Reitor da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro, e Carlos Santos Lima, diretor coordenador da Direção de Negócios do Santander. A moderação ficou a cargo do jornalista António Perez Metelo.
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Quinze balcões são sinal da aposta do banco na região
O desenvolvimento do Interior é um tema sempre atual, mas constantemente adiado por falta de medidas concretas e eficazes: fala-se muito e depois nada se faz”, considerou José Leite Maia, administrador do Banco Santander, na abertura do debate dedicado ao desenvolvimento do Interior Norte/Douro, realizado terça-feira na sede do banco.
Aquele responsável justificava assim a necessidade de trazer à discussão as necessidades da região e, em particular, os desafios enfrentados pelos empresários agrícolas. “Foi o que fizemos este ano”, disse, ao longo de seis encontros em torno do setor agroalimentar, que olharam com detalhe para temas tão diversos como as florestas e ordenamento do território, Alqueva, os problemas do regadio, a agricultura no Ribatejo e as perspetivas para o país rural na próxima década.
O banco quer acompanhar a nova dinâmica do setor agroalimentar português – que tem registado um crescimento assinalável – e está a apostar neste segmento, não só com financiamento, mas com serviços e consultoria.
“Temos uma presença forte” na região, indicou Carlos Santos Lima, diretor coordenador da Direção de Negócios do Banco Santander. O responsável referiu que a instituição dispõe de 15 balcões na região, destacando o facto de ser dos que tem a maior rede de balcões naquele território.
Falando sobre a dinâmica na região, Carlos Santos Lima referiu que “tem havido muito investimento na agricultura, mas também com uma componente ligada ao turismo”. Por outro lado, o responsável adiantou que se tem registado igualmente muito negócio na área da construção. Um indicador que serviu de mote para Carlos Santos Lima dizer que “a construção nova poderá indiciar que está a aumentar a procura de jovens por habitação para se fixarem na região.
A confirmar-se a expetativa, será um ganho para a região e para os empresários que se queixam de ter dificuldades para reter jovens quadros. “Formamos um técnico durante dois ou três anos , mas quando têm a oportunidade de ir para o Litoral ou para fora vão embora”, explica o presidente da APPITAD. Uma situação que se explica com a falta de infraestruturas, por exemplo, ao nível de saúde, mas também de oportunidades de uma forma geral.
Promover a região como marca de qualidade ajuda a vender mais caro
Promover a região de Trás-os- Montes e Alto Douro como “aquela que tem a maior diversidade de produtos de qualidade” é uma necessidade reclamada por produtores e especialistas do setor agroalimentar, no sexto debate Agricultura Mais Forte, dedicado ao desenvolvimento do Interior Norte/Douro, realizado na terça-feira, em Lisboa, na sede do Santander.
É preciso um trabalho de lobby a nível nacional e internacional para valorizar os produtos produzidos nesta região, que, pelas suas características, não pode competir em quantidade, mas tem uma qualidade que tem de ser promovida defendeu Fracisco Pavão, presidente da APPITAD , a associação de produtores em proteção integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Aquele agrónomo referiu, a propósito, que a região sofre um conjunto de constrangimentos, como sejam as dificuldades de armazenamento de água, a ausência de um cadastro do território, a desertificação demográfica ou a ausência da promoção, a nível nacional, de produtos como o azeite, a castanha ou o vinho da região. A este respeito, Francisco Pavão apontou o exemplo italiano – que, na sua opinião, deveria ser seguido em Portugal – de obrigar as cantinas públicas a usar um mínimo de 10% de produtos de denominação de origem controlada ou biológicos.
“A castanha é atualmente a principal ocupação agrícola em Trás-os-Montes, nas chamadas terras frias, depois da cultura dos cereais ter sido abandonada e da batata já só se fazer praticamente para utilização doméstica”, revelou Vasco Veiga, administrador da Sortegel, a maior empresa portuguesa transformadora de castanha e uma das maiores da Europa.
“Com a produção de castanha, estão em causa 80 milhões de euros que entram diretamente nas aldeias transmontanas em cash”, disse Vasco Veiga . Neste momento esta fileira vive um momento promissor, com os preços a atingirem os 2 euros por quilo e a procura a superar a oferta em duas a três vezes. Mas, como alerta o administrador da Sortegel, estes valores aproximam-se perigosamente do limiar aceitável pela indústria. Ou seja, uma nova subida pode desencadear um processo de substituição da castanha portuguesa, nomeadamente para puré, pela castanha chinesa.
Mais preocupante é, para aquele agrónomo, o impacto das alterações climáticas nesta cultura, que já se faz sentir, por exemplo, no facto de, devido ao aumento das temperaturas, a castanha se fazer atualmente entre os 700 e os 1100 metros de altitude, quando antes se fazia entre os 400 e os 600 metros. Antecipando esses riscos, a Sortegel está a diversificar a produção para frutos secos e planeia entrar na castanha de cajú. Estratégias para reduzir a vulnerabilidade às alterações climáticas e a oscilações de mercado.
Valorizar a produção da região, nomeadamente ao nível dos preços cobrados nos mercados internacionais, é um dos principais desafios apontados por Tomás Roquette, administrador da Quinta do Crasto. Aquele gestor vitivinícola sustenta que “temos o melhor azeite do mundo, mas é muitas vezes vendido sem embalagem portuguesa e, nos vinhos, verifica-se que vinhos de qualidade idêntica são vendidos em Espanha ao dobro do preço”, porque têm uma marca que se implantou mais cedo. Por isso, é fundadamental desenvolver a marca regional “porque se vendemos com mais valor podemos pagar melhor e ajudar a fixar as pessoas aqui em vez de irem para fora”, disse.
A dificuldade em fixar gente em Trás-os-Montes é apontada como um entrave à atividade empresarial. A demografia em declínio na região é assumida como um problema pelo reitor da Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro (UTAD), que defende um trabalho em rede com outras regiões de Espanha, França e mesmo a exploração do mercado iberoamericano, que pode dar uma nova centralidade à agricultura da região. Sobre a falta de recursos humanos, o reitor lamenta que só existam duas universidades – a de Lisboa e a UTAD – que apostam na área da florestas, mas não conseguem mais de 20 candidatos”. António Fernandes sustenta que os jovens ainda têm uma ideia desajustada de como é hoje a agricultura, um setordinâmico e com pendor tecnológico. O reitor da UTAD defende, aliás, que o caminho é apostar na agricultura inteligente.
Veja aqui o debate sobre Desenvolvimento do Interior Norte /Douro
Assista hoje, a partir das 10h20, a mais um debate da série Agricultura Mais Forte, desta vez dedicado ao Desenvolvimento do Interior Norte/Douro. Nesta Conversa Solta participam Vasco Veiga, administrador da Sortegel, Tomás Roquette, administrador da Quinta do Crasto, Francisco Pavão, presidente da APPITAD, António Augusto Fontaínhas Fernandes, Reitor da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro, e Carlos Santos Lima, diretor coordenador da Direção de Negócios do Santander. A moderação está a cargo do jornalista António Perez Metelo.