Colocar o carolino na moda é mote de nova campanha

Lisboa, 26/04/2017 – Conferência Alimentamos Ideias, esta manhã no Banco Popular
António Perez Metelo, António Valente Marques, Ana Trigo de Morais, António Madaleno e Pedro Monteiro
(Diana Quintela/ Global Imagens)

Lisboa, 26/04/2017 – Conferência Alimentamos Ideias, esta manhã no Banco Popular
António Perez Metelo, António Valente Marques, Ana Trigo de Morais, António Madaleno e Pedro Monteiro
(Diana Quintela/ Global Imagens)

Tendências. Os portugueses são os europeus que mais arroz consomem. Setor quer aproveitar a predisposição para promover o carolino

Portugal é o país europeu com o maior consumo per capita de arroz, cerca de 18 kg por pessoa, mas as novas tendências para os arrozes exóticos estão a desviar consumidores da variedade portuguesa mais tradicional. Colocar o arroz carolino na moda e elevá-lo a “um conceito”, tal como existe para o risotto ou o basmati, é, por isso, o objetivo da Casa do Arroz, uma organização interprofissional que abarca toda a fileira, desde a produção à indústria.
O plano é inteiramente assumido pelo seu presidente, Pedro Monteiro: “Estamos a montar uma campanha publicitária que quer transformar a imagem de um produto tradicional em produto gourmet.”
Pedro Monteiro acredita que, quando a campanha estiver no seu auge, demorará cerca de dois anos a atingir os resultados pretendidos.
Um primeiro passo já foi dado junto de alguns dos mais conhecidos chefs portugueses, que adotam o carolino nas suas receitas. Estes vão, aliás, participar no Festival do Arroz das lezírias ribatejanas, em maio, em Salvaterra de Magos, confecionando vários pratos de arroz, à disposição dos visitantes.
Um esforço promocional que acontece num momento em que cresce precisamente a adesão ao arroz agulha.
“O consumidor quer o mais prático, não necessariamente o melhor”, assim explica António Madaleno essa preferência, lembrando que, ao contrário do que muita gente pensa, “não se faz um arroz de marisco, uma paelha ou um risotto com agulha”.
Por outro lado, acrescenta, “para além de ser mais saboroso e cremoso, o carolino  é o que mais tem a ver com a nossa cultura gastronómica”.
Apesar de ser recente a união de esforços do setor para uma promoção do carolino em grande escala, António Madaleno faz questão de vincar que está nessa luta há quase 20 anos.
A diretora-geral da APED, que tem uma relação longa com a Casa do Arroz, concorda que “é necessário promover a diferenciação do arroz carolino e a sua portugalidade”. Levar esse conhecimento ao consumidor faz também que ele esteja disposto a pagar mais, disse Ana Isabel Trigo de Morais.
Tal como referiu o presidente da Orivárzea, os consumidores dividem-se em três grandes grupos: o do carolino (30%), o do agulha e os que oscilam em função do preço. E nesta matéria a concorrência asiática não tem sido favorável à produção nacional.
Limitações geográficas
A diferenciação dos produtos portugueses é uma das únicas vias para a expansão do setor, tendo em conta que este enfrenta limitações em termos de crescimento geográfico, concordam os operadores deste setor.
No seu máximo, esta é uma cultura que ocupa 36 mil hectares e não há muito mais por onde crescer, ao longo do território, devido às suas especificidades, nomeadamente em relação à necessidade de água.
Ao contrário de outras culturas, a orizicultura não está a tirar partido do efeito Alqueva. “O preço da água de Alqueva é incomportável para fazer arroz”, lamenta António Madaleno.
O setor produz em média cerca de 180 mil toneladas em casca e junta mais de mil produtores em torno de cinco ou seis grandes empresas.
E embora as exportações destas empresas estejam a aumentar, com o desbravar de novos mercados, a produção continua ainda a ser deficitária para o consumo nacional, que recorre a importações.
O melhoramento da qualidade dos produtos é simultaneamente fundamental para o crescimento das exportações e um dos objetivos do COTA Arroz, como sublinhou Pedro Monteiro.
Este centro ajuda os produtores a escolher as melhores variedades para obter as maiores rentabilidades no campo e faz o cruzamento de sementes, para além de se dedicar também à investigação do arroz para outros usos que não alimentares. Alguns exemplos disso mesmo estão em perspetiva para o farelo do arroz.
Apesar dos constrangimentos habituais, como o esmagamento das margens de lucro com a concentração das empresas da grande distribuição, os operadores acreditam que este setor tem perspetivas de continuar a crescer, com algumas das suas empresas a registar aumentos da ordem dos 10% a 13% nas vendas para dentro e fora do país.
“Acredito muito neste projeto ligado às novas variedades, que vai dar os seus frutos ao nível da produtividade e da melhoria do rendimento”, observa António Valente Marques. E no que diz respeito, em particular, ao arroz carolino também. “Os mercados árabes valorizam muito o arroz carolino, o que também é resultado da nossa presença em feiras internacionais e numa aposta nesses mercados”, acrescentou o homem do arroz Caçarola.
A Casa do Arroz é um projeto que demorou cerca de uma década a montar. Como lembra o seu presidente, Pedro Monteiro, “não era muito frequente o hábito de os operadores deste setor se reunirem para discutir os assuntos ligados à fileira, desde a produção à indústria, com a participação também da perspetiva da grande distribuição”. O mais difícil parece ter sido conseguido: a união de todos em torno de uma estratégia comum.