“Espanha continua a ser a nossa principal operação no estrangeiro”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola não tem dúvidas de que Portugal tem tudo para ter sucesso no mercado global e explica porquê. A Endutex, empresa dedicada à arquitetura têxtil e impressão digital, é líder de mercado no seu segmento, começou a sua expansão em Espanha e hoje está em mais de 50 países. O seu CEO conta como uma empresa familiar atingiu uma dimensão internacional

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

34523095Vítor Abreu, dirigente da Endutex, Francisco Dezcallar, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, muito bem-vindos. Vítor, faça-nos uma ficha rápida desta empresa, que é uma empresa de têxteis técnicos. O novo têxtil de que se fala, que se transformou e que se reinventou em Portugal, está bem encarnado nesta sua empresa, não é verdade?

Vítor Abreu (V.A.) – Exatamente. Começando do fim para o princípio, para situar um bocado quem não tenha perfeita consciência, porque a Endutex é um grupo, é uma empresa pouco conhecida, o nosso core business são os têxteis técnicos, tendo, hoje em dia, já diversificado também para a área hoteleira, imobiliária e de energia, bem como para os acabamentos têxteis. Dito isto, e no que respeita ao intercâmbio comercial e à nossa presença no mercado ibérico, concretamente – em Portugal, na produção, e em Espanha, na distribuição – iremos  focar-nos na parte da Endutex revestimentos, que é efetivamente a empresa que tem esta participação e este conhecimento no mercado ibérico. A Endutex nasceu em 1970, desde o princípio com uma gente familiar e integrada no grupo têxtil.

Quase cinquentenária, portanto.

V.A. – Quase cinquentenária. O tempo passa. Eu não estava na fundação [risos], mas, de qualquer maneira, é quase cinquentenária.

Mas reinventou-se muito.

Exatamente. Eu acho que se reinventou, [tal] como o nosso espaço económico, que é a Europa. A Endutex tem de acompanhar a evolução dos tempos, na Europa e no mundo, de uma maneira geral, e por isso, sabendo nós que estamos aqui em Portugal e na Europa, com tudo o que isso representa, a Endutex tenta tirar vantagens de estar em Portugal, mas não numa perspetiva de sobrevivência, antes numa perspetiva de competitividade. E com isso, de o tempo passar, derivou de uma parte têxtil mais tradicional (mesmo a parte dos têxteis revestidos também tinha uma parte mais tradicional) para uma parte têxtil técnica, mais evoluída, com mais inovação e desenvolvimento.

E no setor automóvel, na arquitetura têxtil…

E na impressão digital. Tudo isso sempre com uma grande diversificação.

E são coisas, tecnologicamente, bastante…

Exatamente. São coisas com uma maior incorporação de know-how, de capacidade técnica e é aí que a Endutex tenta apostar.

Eu sei que tem duas fábricas, uma cá e outra no Rio Grande do Sul, salvo erro.

Exatamente, no Rio Grande do Sul.

E tem sete filiais.

Exatamente.

Isto significa o quê, em termos de volume de negócios, volume de emprego, para termos uma ideia.

Referindo só à nossa área de têxteis técnicos, que é a que mencionou, isto representa um volume de negócios consolidado na ordem dos 73 milhões de euros e cerca de 500 pessoas abrangidas por estas duas fábricas e sete filiais.

E, nesta conjuntura difícil, nomeadamente no Brasil, como é que se está a aguentar? Continua a crescer ou está com problemas, neste momento?

Eu diria que nem uma coisa nem outra. [Risos]. Focando a parte do Brasil, efetivamente o ano de 2015 foi muito tumultuoso, principalmente no que diz respeito à volatilidade cambial. A nossa empresa do Brasil importa muitas matérias–primas em moedas fortes – em dólares, euros e tudo isso – e depois vende em reais. E esta ginástica, esta adaptação dos custos de importação para a venda é complicada. Felizmente, temos uma excelente equipa de gestão na nossa unidade brasileira e também é verdade que alguma da nossa concorrência tem ficado pelo caminho, o que ajuda a negociar.

Pois, [ajuda] à implantação e expansão.

E à implantação e expansão da nossa unidade.

Portanto, continua a crescer?

Continuamos a crescer.

E a perspetiva de 2016 é para crescer.

É para crescer, um bocado em contraciclo. Não é que seja essa, basicamente, a nossa estratégia, mas efetivamente o mercado tem apostado na nossa empresa no Brasil. E nós temos crescido, mas com os pés bem assentes na Terra, porque sabemos que 2016 também vai ser um ano complicado, por isso, a política é de consolidação.

34523087Agora queria dar a palavra ao Francisco (F.D.). Há bocadinho ouvi-o dizer que, às vezes, há falta de confiança no nosso país para projetar a atividade económica. Parece que não acreditamos muito. Há essa sensação na Câmara de Comércio e Indústria, de que a atividade económica em Portugal poderia ser mais dinâmica do que aquilo que é, a partir do conhecimento que tem do setor empresarial?

F.D. – É evidente. Nós pensamos que aqui em Portugal há muitas hipóteses. Eu sempre digo – e, de facto, ouvimos falar na Câmara muitas vezes – que isto podia ser a Califórnia da Europa. Se aqui acreditassem em Portugal. Porque tem tudo. Tem tudo! Tem um clima bom, uma localização ótima, estamos no euro, tem uma estabilidade política incomparável… Quer dizer, tem todas as características… Tem gente muito bem preparada, falam-se línguas [estrangeiras], coisa que em Espanha não se fala [risos]. Tem tudo para poder ter [sucesso]. Agora, temos de querer e acreditar em Portugal. Só que, às vezes, falta isso.

A sua visão – que arranca de Espanha mas que tem já 20 anos de experiência deste país – acaba por ser mais otimista do que a de muita gente cá, não é verdade?

Às vezes, sim. Lamentavelmente, acho que sim.

E como é que explica isso?

Bom, eu não quero falar do fado. Quiçá seja um pouco um tema sentimental, um pouco português, de terem pouca confiança em si próprios. Portugal é um grande país. E sempre que eu oiço falar aos portugueses, eles falam mal dele e eu acho que isso é um erro.

Claro.

Porque os franceses vendem França, têm essa capacidade. Mas, em contrapartida, Portugal tem coisas boas e não as sabe vender ou então, não sei, parece que tem medo. Acho que  é uma pena, realmente é uma lástima, porque o país tem muito para dar e poderia desempenhar um papel mais importante do que está a desempenhar neste momento.

Quer dizer que a Câmara, que sente isso, poderia ter uma intervenção mais dinâmica.

A Câmara está sempre disposta a ajudar. O principal papel da Câmara é ajudar a atrair investimentos para cá; e o segundo é ajudar os portugueses a sair para Espanha. E, nesse sentido, nós estamos abertos a todos. Mas o nosso papel é ajudar, é acomodar, não gerar iniciativa. A iniciativa depende dos empresários. E, nesse sentido, quero dizer que a Câmara, com a ajuda da Câmara hispano-portuguesa – que quem a dirige é o senhor Calçada de Sá e com a qual temos uma ótima relação -, fará tudo o que seja aumentar, favorecer e ajudar os empresários.

E este ano de 2016 há dinamismo de investimento e aumento de trocas comerciais vindas de Espanha para Portugal ou não há?

Sim, aumento de trocas há.

Os investimentos estão mais parados.

Estão mais parados. Eu não sei se isso também pode ser por estarmos na área em que estamos. O mercado sul-europeu, o mercado que era um destino nosso, isso – o tema das nações – já passou à história. Cada vez mais, as relações são mais fáceis. Por um lado, é isto. Por outro, dado que, hoje em dia, há uma crise económica importante, neste momento a nossa relação [entre Portugal e Espanha] é mais comercial do que de investimento. Neste momento, por parte de Espanha. Isso não quer dizer que não possa ser revisto.

Eu sei, por exemplo, que o ano passado aumentou o comércio entre os dois países.

Aumentou. No ano passado, houve, mais ou menos, trocas que rondaram os 26 mil milhões de euros nos dois sentidos. E foi um aumento pequeno, relativamente ao ano de 2014. Tenho esperança de que este ano também aumente, mas vais ser [um crescimento] pequeno. Estamos a deslocar-nos em níveis que não são de grande expansão, digamos assim.

Vítor, vi que a empresa criou sete filiais, nomeadamente no centro da República Checa…

V.A. – Hungria, Polónia.

Vou-lhe fazer esta pergunta porque não sei, mas vou avançar uma hipótese: será que isso tem que ver com os têxteis automóveis e há indústria automóvel nesses países, que estão a fornecer?

Não. Não.

Mas é um dos segmentos, não é?

É um dos segmentos, certamente.

34523037Mas é aqui para o mercado interno, para a produção no país?

Não, é em termos gerais. A Endutex exporta cerca de 80% da sua produção e, por isso, o mercado interno – também depende da linha de produtos de que estamos a falar, do segmento de que estamos a falar; em algumas áreas [o mercado interno] ainda tem alguma importância, noutras áreas é mais residual -, mas, no cômputo global, a Endutex exporta 80% da sua produção e isso mostra a importância que têm os outros países na nossa estratégia comercial. Repare, a Endutex tenta, como certamente todas as empresas, fazer diferente. E fazer diferente é desde a produção à comercialização. A primeira experiência de internacionalização da Endutex foi Espanha, em 1988. E porquê? Porque além de parecer natural, na altura e na minha leitura, foi o grande presente da nossa entrada na Comunidade Europeia. Portugal estava na EFTA, na altura, e por isso já tinha comércio livre com muitos países, mas a Espanha era uma economia muito fechada. E, por isso, nós fomos para Espanha, em 88, faz quase 30 anos agora, porque foi uma grande abertura.

Com a abertura de 1986, dos dois países?

Exatamente. E em boa hora fomos, porque, hoje em dia, continua a ser – à parte a unidade no Brasil, que tem umas características diferentes -, a nossa principal operação no estrangeiro em termos de volume de negócios. Estamos muito satisfeitos com a nossa operação em Espa-nha, que tem a sede em Barcelona, mas também tem distribuição em Madrid. Nós fomos para o centro da Europa também, mais uma vez, depois da abertura desses países.

Nos anos 1990.

Nos anos 1990, exatamente, porque achámos também, mais uma vez, que era um espaço económico [atrativo]. Os outros países estavam mais ou menos consolidados, batidos.

Sim, eram os emergentes da Europa, não era?

Eram os emergentes e países com características diferentes. Mas, por exemplo, a Polónia é uma grande economia e nós estamos extremamente satisfeitos com essa operação. Por isso, a estratégia foi sempre um bocado esta: ir para sítios diferentes, fazer diferente, porque mais do mesmo, penso que já há muita coisa.

Sim, não leve a mal a minha pergunta, mas é que não há muitas empresas portuguesas que tenham apostado nesses países.

Mas não leve a mal a minha resposta [risos], eu fico contente com isso.

Mas viram ali uma oportunidade.

Vimos, vimos uma oportunidade.

E continuam a ver? Estão a dar-se bem nesses três países?

Estamos a dar-nos bem nesses três países, com características diferentes. Eu acho a Polónia, por exemplo, especificamente um mercado muito apetecível, com características quase iguais às nossas.

E que está a crescer muito bem.

E que está a crescer muito bem e que atravessou muito bem estes períodos conturbados que nós tivemos. Mas, hoje em dia, já estamos numa fase diferente da nossa estratégia. A última experiência de internacionalização que temos é na Alemanha e já é uma economia completamente diferente. Aí, é mais uma questão de implantação num país de última tecnologia, para ter outro tipo de informações do mercado.

Mas isso tem a vantagem de puxar, seguramente, pela inovação da própria empresa, não é verdade?

Certamente.

E, nesses mercados, estão com a palete generalizada de produtos, com produtos muito diversificados?

O objetivo é esse, mas mentiria se não dissesse que há setores em que esses mercados têm mais recetividade, em que a Endutex é mais competitiva. Por isso, eu diria que, dentro desses mercados todos, a parte de impressão digital – onde a Endutex, presentemente, é líder – é comum a todos e depois, a reboque, vem outro tipo de setores. Mas tentamos estar com uma palete generalizada, efetivamente.

Pergunta complementar: [qual] o investimento que fazem na inovação, em novos produtos, em novas tecnologias?

Repare, a inovação e desenvolvimento, para nós, é absolutamente crucial. É um chavão, mas, para nós, é absolutamente crucial.

Chegam a gastar 1% do volume [de negócios] nisso ou não?

Sim, andará muito próximo. Temos pessoas exclusivamente afetas à parte de inovação e desenvolvimento, temos um laboratório muito bem apetrechado e, todos os anos, desenvolvemos dezenas de novos produtos – não estou a dizer que são todos bem conseguidos, mas, pelo menos, o nosso objetivo é esse: é inovar e apresentar soluções diferentes aos nossos clientes, o que certamente, também, outras empresas tentarão fazer. Mas nós fazemo-lo, de facto, e [isso] faz parte do nosso DNA.

Francisco, este aspeto da transformação qualitativa do tecido empresarial, de algum modo, perpassa pela Câmara de Comércio Luso–Espanhola? São sentidos indiretamente ou não? Porque têm que ver mais com o investimento, não é?

F.D. – É, têm que ver mais com investimento. Fala-se do assunto e trocamos impressões, mas não é um tema que os serviços da Câmara abranjam diretamente, digamos. É evidente que o investimento, hoje em dia, é fulcral, porque as empresas, a sua vida está na evolução que existe. Mas é um tema que ultrapassa o trabalho da Câmara.

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António Perez Metelo (à esquerda) moderou mais uma conversa sobre Economia Ibérica. Vítor Abreu (ao centro) revelou que a estratégia de sucesso da Endutex reside na expansão e em tudo “fazer diferente”, desde a produção à comercialização. Francisco Dezcallar (à direita) lamentou que Portugal não saiba vender o muito que tem de bom

A Câmara sente mais interesse nas trocas comerciais e/ou investimento [por parte] de regiões particulares de Espanha, que nós sabemos que são muito diferenciadas, ou é um pouco por todo o lado distribuído?

A Câmara é completamente transparente quanto ao investimento, pelo que este é sempre bem-vindo e é favorecido, venha de onde vier, porque cria riqueza. É evidente que há interesses distintos em diferentes partes de Espanha. Há umas [regiões] que, para o seu desenvolvimento, podem ter interesses na expansão [para outros mercados], como por exemplo, quiçá, a Cata-lunha, que já tem um [grande] desenvolvimento, é uma das regiões de Espanha mais desenvolvidas. Mas há outras que, devido à proximidade, têm muita força. De facto, nós vamos, hoje em dia, ao Norte de Portugal e o Norte de Portugal e o Sul da Galiza é uma região [só]. É completamente transparente.

Sim, é uma eurorregião, vá.

É uma eurorregião.

E também se está a fazer [o mesmo], com a Extremadura, as Beiras e o Alto Alentejo.

Exato, está a começar a haver algo que as está a aproximar mais. Há espaço, muito espaço a desenvolver aí, inclusivamente, o turismo. Sobretudo na parte da Andaluzia e do Algarve. É um tema que acho que as diferentes regiões, por distintos interesses, estão a fomentar. Mas a Câmara é completamente transparente face a qualquer uma delas e apoia todas ao mesmo nível, de acordo com os seus interesses.

Uma última questão, Vítor. O que é que projeta para este ano de 2016 para o grupo Endutex?

V.A. – Deixe-me só fazer aqui um comentário ao Francisco, quando falou em relação a Portugal e aos portugueses. É verdade, eu acho que nós somos melhores do que o que projetamos, mas acho que a nova geração, hoje em dia, já não cultiva tanto o fado e prefere outras músicas. [Risos]. Eu acho que já está menos complexada.

F.D. – Concordo, concordo. [Risos].

E têm uma visão muito mais cosmopolita, não é?

Certamente que sim e bem-vinda. O que é que nós [na Endutex] projetamos. Eu como CEO do grupo e empresário, às vezes, fico um bocado triste, porque parece que o ambiente fica um bocado adverso ao empreendedorismo, mas, isto à parte… Eu não digo que a estratégia do grupo e as decisões de investimento são independentes de tudo o que se passa à nossa volta, mas nós temos a nossa estratégia: em algumas áreas, de consolidação; noutras áreas, de expansão. Como disse,  estamos, hoje em dia, também na área hoteleira e temos três novos projetos a arrancar aqui em Portugal, temos dois projetos no Brasil, também, em fase de montagem. E na parte industrial, queremos seguir nesta senda da internacionalização. Falta-nos o pé nos Estados Unidos. Gostaríamos de ter uma unidade de comercialização no mercado americano, que acho que é muito importante para nós.

Esse é o objetivo, portanto.

Em termos comerciais, é o objetivo. Em termos industriais, estamos a estudar uma série de novos investimentos, porque logicamente parar é morrer, na nossa área.

Fora do país.

Não. Fora do país, só em termos comerciais e é, como digo, nos Estados Unidos. Em termos da nossa unidade industrial cá, estamos a projetar novos investimentos, com equipamentos diferentes, etc., para poder permitir uma maior competitividade e uma maior capacidade de inovação industrial.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens