“Estamos decididos a continuar a fazer mais hotéis em Portugal”

O Grupo Hoti Hotéis é a sétima maior cadeia hoteleira em Portugal, graças à parceria com a marca espanhola Meliá, que lhe permitiu apostar numa estratégia inovadora: o grupo tem hotéis próprios e gere os de terceiros. Para a Câmara de Comércio Luso-Espanhola o primeiro patamar de expansão internacional de qualquer empresa ibérica será sempre o país vizinho, porque é mais fácil e mais barato

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

Lisboa, 23/03/2016 - Entrevista Economia Ibérica com Manuel Prença, Presidente do grupo Hoti Hotéis e Manuel Alvarez, Presidente da Remax Portugal. Manuel Prença, Presidente do grupo Hoti Hotéis (Diana Quintela/ Global Imagens)Manuel Proença, dirigente dos Hoti Hotéis no nosso país, a sua cadeia de hotéis está ligada a um grupo. A primeira coisa [que peço] é que nos caracterize, faça-nos uma ficha do grupo, neste momento, na sua implantação em Portugal e em Espanha, em termos gerais.

Manuel Proença (M.P.) – A Hoti Hotéis é uma empresa 100% portuguesa, o capital pertence totalmente a famílias portuguesas, e está fundada desde 1979, portanto, estamos com 37 anos. Este ano faz 37 anos, no próximo mês.

Aproximadamente a idade da nossa democracia, não é?

Praticamente. Um pouco menos, exatamente. E resultou, exatamente, da fundação no Porto, através de um primeiro hotel, que nós arrendámos – nessa altura, ainda não tínhamos capacidade para fazer investimento -, o Hotel D. Henrique, no Porto. Essa foi a nossa primeira unidade. Depois seguiram-se variadíssimos hotéis. Numa primeira fase, só por arrendamentos de hotéis e, numa fase mais tarde, através de investimento e da construção de unidades.

E agora?

Hoje, temos um total de 15 unidades hoteleiras em Portugal, que estão, a maior parte delas, sob as marcas da Meliá Hotels, de Espanha. [São as] marcas Meliá, Tryp e, brevemente, Innside, que são marcas da Meliá Hotels.

Disse-me que esta associação vai cumprir este ano 20 anos.

Isso. Está no 20.º aniversário. Em termos de cobertura territorial, ao nível de quatro estrelas, temos a melhor cobertura territorial em Portugal, principalmente com os hotéis Tryp. E estamos muito felizes com essa parceria. Está a funcionar muito bem. Vamos lançar uma nova marca, como referi, a marca Innside, e vamos continuar em frente, cá e, provavelmente, também nas antigas colónias portuguesas.

Qual é o volume de negócios e de emprego?

Aproximadamente 50 milhões de euros, na sua globalidade. E o emprego anda, aproximadamente, nos  700-750 empregados.

E, segundo vi, pelos materiais à disposição, o ano passado foi um bom ano para este negócio e para este grupo de hotéis.

Sim. Há um crescimento rápido desde 2013: O ano de 2014 foi bom; 2015 foi o recorde, com um crescimento da ordem dos 14%. Foi um crescimento fantástico e que, este ano, está a continuar, pese embora uma pequena quebra no mês de janeiro. Mas as perspetivas que temos, para este ano, é que vamos aumentar. Estamos a crescer a dois dígitos ao ano.

E taxa de ocupação é de 76%.

76%, sim.

É considerada boa na hotelaria?

Sim, sim. Taxa de ocupação média.

Média, eu sei. Durante todo o ano.

E em toda a cadeia temos alguns hotéis que têm um desempenho mais baixo. Estamos a falar em hotéis do interior. Nós temos bastantes hotéis no interior, em cidades como Castelo Branco, Covilhã, por exemplo, que têm taxas de ocupação mais baixas. Mas, no global, são 76%, além de que as taxas mais altas estão situadas aqui, em Lisboa, particularmente no Tryp do Aeroporto, e na Madeira. Essas andam acima dos 90%.

E as notícias que se ouvem é de compromissos para este verão altíssimos, não é? Ocupações prometidas ou já aprazadas próximas dos 100%.

Sim. Sim.

Também se reflete isso na sua cadeia de hotéis?

Reflete-se. Naturalmente que há picos, digamos, de ocupação, particularmente em Lisboa, que é onde se verifica maior procura, na Madeira também e nas zonas de lazer. Nas zonas do interior não será tanto, ou seja, não têm essas taxas de ocupação. Mas, no global, não tenho dúvidas de que este ano vai ser melhor do que o ano passado. Obviamente, a beneficiar não só de um trabalho bem feito ao nível do Turismo de Portugal, na área da promoção – com um foco mais no turismo digital e através da internet, o que nos favoreceu bastante -, mas também fruto destes problemas todos internacionais, que agora se verificam, da insegurança.

Quero dar a palavra agora também e as boas-vindas, a Manuel Alvarez, que é o líder da Remax no nosso país e que está aqui a representar a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola. Como é que no imobiliário, no turismo, no setor do turismo em geral, se reflete, digamos, este ambiente geral e, especificamente, para a indústria hoteleira? Como é que tudo isto se liga? Este clima de alguma incerteza que nós vivemos, mesmo assim, nos últimos anos, tem-se revelado muito positivo. Eu julgo que me poderá falar também um pouco da situação em Espanha e em Portugal, nesta matéria.

34494797Manuel Alvarez (M.A.) – Sim. Bom, o imobiliário e o turismo estão totalmente ligados, porque o turismo tem de construir um prédio e, a partir daí, dar uma utilização turística ao prédio. Mas o mais importante, que eu acho que há que destacar, é que, graças ao turismo, o mercado imobiliário em Portugal retomou com uma pujança e uma força muito grande. Os anos de 2011 e 2012 foram muito duros e foram as low-cost, foram os turistas, que começaram a chegar a Lisboa e ao Porto, principalmente, que acordaram o mercado imobiliário. As pessoas começaram a comprar prédios para reabilitação…

No Porto, esse movimento é extraordinário, não é?

É extraordinário nas duas cidades.

Esteve, de facto, muito ligado às low-cost, que ligaram o Porto a inúmeras outras cidades e criaram este fuso.

Exatamente. Portanto, o turismo foi um dos motivos fundamentais da reabilitação, de novo, das cidades, dos investimentos imobiliários, de trazer estrangeiros para investimentos imobiliários, alguns em turismo, outros não.

Negócios também, não é?

Negócios, claro. E, a partir destas duas cidades, como em círculos, foi abrangendo e está a estender-se por todo o país um maior desejo e procura de investimento imobiliário. E, volto a repetir, porque é muito importante: foi o turismo que fez acordar o mercado imobiliário.

Manuel, nós, de Espanha, agora, feliz ou infelizmente, só ouvimos notícias deste grande impasse político na formação do governo, de movimentos muito importantes na Catalunha, o futuro do país  com algumas incógnitas importantes. Mas, através da Câmara de Comércio e Indústria, o que é que nos pode falar, justamente, deste setor da hotelaria/turismo no país vizinho que possa ter interesse para os negócios cá em Portugal?

Eu acho que o turismo é o reflexo do que devem ser todas as empresas que desejam internacionalizar-se, tanto portuguesas em Espanha como espanholas em Portugal. O turismo é como um rio que se move naturalmente e é fácil. No ano passado entraram 2,4 milhões de espanhóis em Portugal. É o principal [país], penso eu.

Sim. Sim, sim.

E entraram 1,7 milhões de portugueses em Espanha.

Embora – deixe-me dizer – alguns sejam de ao pé da fronteira, não é verdade?

Exatamente. Muitos, das regiões da fronteira.

Extremadura, Beiras, Galiza, Minho, Alentejo.

M.P.  – Sim, em dormidas [Espanha] não tem o primeiro lugar; em entradas [no país], sim. Em dormidas, são os ingleses que têm a liderança.

Mas as entradas, esseintercâmbio vai-se intensificando, não é?

M.P. – Sim.

M.A. – Vai, vai. E está a crescer. Mas o mais importante é que assim como uma classe média, média–baixa, em Espanha, que quer fazer turismo, vem cá a Portugal, porque é o mais barato, também, numa internacionalização, numa empresa, o mais barato e o mais natural é passar a fronteira, ir ao lado. E, portanto, quero destacar a importância disto, neste sentido, porque é o mais fácil, porque a língua também ajuda, por tudo. E, por exemplo, a nível de turismo, estava a ver dados, a quota de mercado do turismo português na Extremadura ou na Galiza é quase 50%. Ou seja, de todo o turismo que recebem os galegos, metade é português. Isso é de uma importância para a economia da Galiza impressionante.

Por isso é que se fala das novas centralidades, em que os interiores, que de um lado e de outro da fronteira, tradicionalmente, eram muito deprimidos, estão a descobrir que, em conjunto, podem ter uma nova massa crítica para crescer mais. Eu pergunto-lhe, estando ligado ao importantíssimo Grupo Meliá, que nós sabemos com expressão… Bem, agora Cuba está muito falada!

M.P. – Sim, Cuba, agora, está na moda.

O Meliá abriu caminho…

São 30 hotéis que o Meliá tem em Cuba.

Exato. Qual é a dimensão e a importância desta dimensão ibérica no conjunto do grupo em que se inserem os Hoti Hotéis?

Bom, nós optámos, desde 1996, por fazer uma parceria com a Meliá e, felizmente, tem corrido muitíssimo bem, começando, primeiro, com os hotéis Tryp e, depois, com os hotéis Meliá e, como disse, depois com os Innside, que é uma marca que nós vamos lançar muito brevemente. Mas vimos nesta ligação, nesta parceria, grandes possibilidades. E, de facto, tem grandes possibilidades. A Meliá, em termos de hotéis de lazer, é a primeira a nível mundial – os chamados hotéis de praia -, tem um grande impacto. Em Portugal, reflete-se também esse impacto. Nós recebemos, através da plataforma Meliá, o que significa para nós mais de um terço da clientela. Ou seja, estamos a falar de 33%, 34%. Claro que não são todos espanhóis, mas a recolha, ou seja, o apport que a Meliá nos traz, através da sua plataforma, é importantíssimo. Isso tem um significado muito grande. E estamos decididos a continuar a fazer mais hotéis em Portugal e a crescer. E vamos fazer isso no futuro.

Mas os tempos estão difíceis, estão perigosos. Março em Bruxelas, novembro passado em Paris: atentados jihadistas. É um desafio ao nosso estilo de vida, ao nosso modo de vida. Sempre ouvi dizer que o turismo, justamente, era a indústria da paz, porque relacionava… E é sabido, não é? O fluxo turístico mundial é extraordinário no relacionamento de culturas, povos, etc. Mas há esta contracorrente. Até que ponto esta contracorrente pode ou não, não digo matar, mas enfraquecer o negócio?

Bom, do meu ponto de vista tem um verso e um reverso. O verso: há um crescimento fantástico em termos de turismo e de hotelaria, nos últimos tempos, em particular também em Portugal e Espanha, beneficiando dessa instabilidade internacional, particularmente depois dos atentados do Egito, da Turquia…

Da Tunísia.

…e da Tunísia.

Portanto, está a dizer-me que Portugal é considerado um destino seguro.

Seguro. Com segurança. Portanto, nós temos beneficiado também disso. E depois há os atentados mais… Digamos que já são outras áreas, também turísticas, mas são grandes cidades, como é o caso de Londres e de Paris e agora, mais recentemente, Bruxelas, o que é um reverso, porque isto cria medo.

Pois. É essa a questão.

Cria instabilidade e cria um medo, nas pessoas, de viajarem.

E as pessoas retraem-se, não é?

E as pessoas retraem-se.

Manuel Proença (centro) revelou que um terço da clientela dos Hoti Hotéis resulta da parceria com a marca Meliá. Manuel Alvarez (à direita) sublinhou que é de Espanha que vem o maior número de turistas que entram em Portugal. António Perez Metelo (esquerda) foi o anfitrião da Economia Ibérica

Manuel Proença (centro) revelou que um terço da clientela dos Hoti Hotéis resulta da parceria com a marca Meliá. Manuel Alvarez (à direita) sublinhou que é de Espanha que vem o maior número de turistas que entram em Portugal. António Perez Metelo (esquerda) foi o anfitrião da Economia Ibérica

Sobretudo, quando há atentados em aeroportos.

Sim, e com a dimensão que tiveram, não é? E, isso, é natural que tenha alguma consequência. Mas eu julgo que a outra parte, que nós chamamos o verso, é o crescimento, a facilidade de as pessoas viajarem, os preços a que a aviação conseguiu chegar, particularmente das low-cost, que facilitaram toda essa movimentação e é imparável, vai crescer. Aliás, a nível mundial, a própria Organização Mundial de Turismo anuncia taxas de crescimento que andam na ordem dos 5%, 6% e, portanto, é um movimento mundial.

Mas é porque a Ásia também está a viajar mais, não é?

Também está.

Particularmente a China.

Justamente.

É isso que sustenta, também muito, o aumento mundial dos fluxos, não é?

Tudo isso, justamente. Mas é imparável. Ou seja, nós vamos crescer, não tenho dúvidas, apesar disso [dos atentados]. Porque eu julgo que se cria um certo medo mas, isto, o que tem como consequência é o receio do terrorismo mas não é deste, digamos, que está próximo de nós, é aquele que se tem passado mais distante, não é? Que tem mais impacto. Este só tem impacto mediático, mas tem menos impacto em termos de movimentos das cidades. Nós vemos, por exemplo, Paris, que foi há relativamente pouco tempo…

Em novembro, sim.

Houve aquele impacto inicial, mas a cidade retomou e está a receber novamente o mesmo número de turistas que recebia.

Acha?

Exatamente.

Há um assunto de grande atualidade, uma vez que está em discussão o programa nacional de reformas e as questões laborais neste setor são muito importantes, porque é um negócio, sabe-se, com grande impacto sazonal: no verão, muito mais trabalho do que nas épocas do outono e, sobretudo, no inverno. Por outro lado, há precariedade que é considerada excessiva no nosso país, por comparação com as médias europeias. Como é que se consegue aqui um equilíbrio em que o fator trabalho e o fator das empresas se possam considerar mais bem servidos e mais satisfeitos na sua relação laboral?

Olhe, isso é um importantíssimo tema…

E é muito atual, não é?

Muito atual. [Um tema] que tem que ver com a hotelaria e com o turismo. Eu julgo que alguns partidos de esquerda não compreendem bem esta situação. Existem muitas atividades sazonais, particularmente na hotelaria e na restauração, [atividades] que existem e que progridem porque existem em períodos limitados de tempo e é possível fazer contratos a termo para resolver essas atividades. Existe alguma tendência, hoje, exagerada no sentido de querer abranger todas as atividades da mesma maneira, mas, na realidade, não é igual. O turismo não funciona como a indústria nem funciona como o comércio.

Em vez de um pronto-a-vestir devia ser setorialmente, não é?

Setorialmente. E, portanto…

E mesmo, se me permite, no trabalho dos hotéis há seguramente um conjunto de postos de trabalho que têm de ser permanentes e há outros que têm de ser complementados nas épocas altas.

E há unidades hoteleiras que funcionam num determinado período do verão, seja nas praias, seja nas termas, por exemplo, que funcionam num período muito limitado e que não podem trabalhar de outra maneira, portanto, têm de fazer esse tipo de contratos. E isto tem de ser compreendido, porque se não for, isto é um reverso, é um problema grave para a nossa indústria que vai ter algum impacto no crescimento futuro. Porque um empresário não pode ter pessoas, durante uma parte importante do ano, sem trabalho e estar a ter prejuízo. Isso vai contra a economia do país.

Mas tenho a certeza de que este sistema está nos grupos de trabalho que estão, neste momento, em curso.

Está, mas também muito preocupados com isso, porque…

Porque acha que o governo não apresenta abertura para essa visão sua?

Não. Não estamos a encontrar flexibilidade, para lhe dizer com franqueza, não vemos flexibilidade para isso. Mas é preciso que compreendam que esta atividade não é igual às outras, não são todas iguais e, portanto, o turismo é um caso muito especial neste caso da precariedade.

Muito bem. Manuel Alvarez, a câmara está, seguramente, sempre muito interessada em potenciar investimentos cruzados.

M.A. – Exato.

O que é que me pode dizer que a câmara está disposta a fazer proximamente, neste setor, de investimento português em Espanha e espanhol em Portugal?

As grandes empresas, tanto portuguesas como espanholas, já estão cá e já estão em Espanha. A câmara dá apoio, muitas vezes, às médias empresas que querem começar a internacionalizar-se. E uma empresa espanhola entra em Portugal e não conhece nada, não tem contactos. Portanto, o que faz a câmara é facilitar, abrir portas, ajudar, orientar. Porque é muito importante, quando uma empresa decide internacionalizar-se, encontrar uma mão amiga que a vá orientando. E é aquilo que faz a câmara.

E, quem sabe, futuramente, nas chamadas eurorregiões fronteiriças, como por exemplo as Beiras e a Extremadura ou o Minho e a Galiza, não há mais possibilidade de intercâmbio a um outro nível não tão grande – um pouco mais baixo, neste setor.

Exato. Exatamente.

 

Fotos: Diana Qintela / Global Imagens