Gustavo Ramos: “Vamos investir 50 milhões e criar cem empregos”

A empresa brasileira Veracruz escolheu a região de Castelo Branco para investir cerca de 50 milhões de euros na plantação de amendoal e construção de três fábricas, para descasque, processamento da casca e da amêndoa. Gustavo Ramos, diretor-geral da empresa, refere que foram já adquiridas duas propriedades, uma no concelho do Fundão, outra no concelho de Idanha-a–Nova, onde pretende iniciar a plantação das primeiras árvores, já no mês de julho. O plano começa por dois mil hectares e, se correr conforme o previsto pela empresa, é um projeto que vai criar perto de uma centena de postos de trabalho, diretos e indiretos.

Como é que uma empresa do Brasil decide investir no interior do território português?
A ideia nasceu de dois sócios, David Carvalho, que é brasileiro, e Filipe Rosa, português, que, antes de se virarem para a agricultura, eram empreendedores da área da tecnologia. Mas viram na plantação de amêndoa uma oportunidade de negócio e cruzaram o oceano, a partir do Brasil, à procura de local para concretizar um projeto neste ramo na Europa. Acabaram por escolher Portugal e em particular a Beira Baixa, pelas condições favoráveis da região, ao nível do clima, dos solos e de regadio e também pelas condições de investimento em produtos, como o fruto, a amêndoa. Nesta altura, a empresa tem uma área de 1200 hectares, mas quer plantar em 2500 hectares, prevendo que, no período entre a implementação da cultura e a primeira colheita, construa três fábricas.
Mas a plantação e a construção das fábricas são planos para serem realizados em simultâneo, ou de forma faseada ?
São planos em simultâneo, mas cada um com o seu tempo, “primeiro, começa-se com a plantação, depois, e antes da amêndoa estar pronta para colheita, começamos com as obras para a construção das fábricas.
Qual é o valor de investimento total previsto para estes diferentes momentos?
Em termos de valor, temos um investimento total que vai rondar os 50 milhões, contando com a área de plantação e também as três fábricas.
Quais são os timings dessa estratégia?
Quando a produção atingir a sua velocidade de cruzeiro, a nossa ideia é que as fábricas já estejam prontas para processar a amêndoa que se vá produzindo e atinge-se essa velocidade de cruzeiro, cinco anos depois da plantação. Se começamos ainda durante este ano de 2018, a ideia é ter as fábricas construídas até 2022. Ou seja, ao fim de três primaveras contamos ter as primeiras amêndoas, até 2021.
Em termos de estratégia de comercialização, quais os principais mercados onde estão a pensar vender?
Os maiores consumidores de amêndoa são os EUA e também os principais produtores, com uma quota de 80% de produção mundial. Aqui na Europa os principais mercados consumidores são a Espanha e a Alemanha. Há outros mercados a crescer e aí o predomínio é da Ásia, pelos grandes índices de população e obviamente representa um potencial de expansão. Como seremos um grande produtor, o nosso objetivo é vender tanto para dentro como para fora de Portugal, incluindo para os mercados que acabei de referir.
Como é que vai ser a distribuição daquilo que é para o mercado interno e do que será canalizado para exportação?
Essas negociações ainda estão a fazer-se. Ainda não temos um cálculo da margem que vai ser exportada, nem da que vai ser vendida dentro do território português. A análise proporcional indi- ca que a maior parte será exportada, face à quantidade que será reservada para o mercado interno. Volto a dizer, as negociações ainda estão em curso e não temos ainda condições para ter nenhum número específico sobre vendas.
Quais as razões que vos levaram a escolher a Beira Baixa em detrimento de outras regiões do país?
Um dos principais fatores determinantes para o crescimento da amêndoa é a água. O país tem uma grande expansão no Alentejo por causa da grande obra do Alqueva, mas nós na região do Fundão e de Idanha-a-Nova também temos um bom perímetro de rega, capaz de abastecer a nossa plantação com a quantidade de água que precisamos. Aqui vimos grandes oportunidades e resolvemos abraçá-las, exatamente porque neste lugar nós temos o solo, o clima (com as quantidades de horas de frio e calor necessária) e temos quantidade de água disponível suficiente para a nossa produção, sem grandes problemas.
Quantos metros cúbicos de água precisam para alimentar a rega desta cultura?
Por hectare significa 6 a 7 mil metros cúbicos por ano. Se imaginarmos que um hectare é o mesmo em área do que um campo de futebol, então é fazer as contas.
Existiram alguns constrangimentos à vossa fixação na região?
Não, na verdade, por parte das autarquias locais, temos tido um grande apoio ao nível da nossa instalação e na facilitação do investimento na região. São dois municípios voltados para o desenvolvimento, com interesse em fixar empresas e em agilizar processos de instalação de projetos de investimento.
Quantos postos de trabalho prevê a Veracruz criar, entre as atividades ligadas à produção e à transformação?
Na parte da produção, quando chegarmos aos 2 mil hectares, temos a estimativa de criar 50 postos de trabalho, sem contar com as fábricas. Para cada unidade fabril estamos a calcular que vamos precisar de cerca 16 colaboradores, ou seja, um total de 48 pessoas. Se somarmos tudo, no geral teremos perto de uma centena de empregos. Estes são apenas os postos de trabalho diretos. Depois há ainda que contabilizar os indiretos. A economia que vamos ajudar a gerar vai permitir criar outros empregos de forma indireta, de fornecedores, prestadores de serviços, etc.
Quando é que esperam começar a ter o retorno do investimento realizado?
A Veracruz espera começar a ter retorno do investimento num prazo de dez anos.

Ana Maria Ramos