Interior já pode sonhar com programas à medida

Bruxelas dá alguns sinais de que vai finalmente criar programas multifundos destinados às regiões de baixa densidade, uma reclamação antiga dos autarcas do interior português.

Com pouco peso político, despovoamento acelerado e défice de investimento público e empresarial, as regiões do Alto Alentejo e da Beira Baixa reclamam programas integrados de desenvolvimento que tenham em conta estas especifici-dades. “O interior precisa de uma política global e mais forte”, resumiu o presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Luís Correia, no debate dedicado ao desenvolvimento do Interior Norte, Alentejo e Castelo Branco, na última terça–feira, integrado no ciclo Agricultura mais Forte, promovido pelo Banco Santander.
Também a Comissão Europeia parece estar a ganhar maior sensibilidade para as necessidades das regiões de baixa densidade no desenho da programação financeira para 2030. “Começa a haver indícios que apontam para a criação de programas para as regiões de baixa densidade e que tenham multifundos associados e abranjam todas as valências”, adiantou o autarca de Castelo Branco.
Uma expectativa que, a confirmar-se, responde a uma reivindicação dos autarcas do interior, muito críticos da ausência de políticas com uma visão de desenvolvimento integrado. Em perspetiva poderá estar a canalização de fundos comunitários para programas especificamente orientados para zonas de fronteira.
Porque, como lembrou José Maria Rasquilha, “é preciso sair do círculo vicioso da baixa população, que atrai menos empresas e que, por sua vez, conduz à fuga de pessoas para o litoral”. Mas para inverter o ciclo há que fazer apostas.
No que à agricultura diz respeito, “os projetos empresariais só são possíveis se tivermos água disponível e armazenada”, observa o administrador da Cersul e diretor da Associação de Regantes Beneficiários do Caia. Isso “para que não se repita a aflição que sentimos até quase final de fevereiro deste ano, em que acumulámos uma seca desde o inverno de 2014 e que, sem o “milagre das chuvas”, prometia ser a mais catastrófica de que há memória”, acrescenta José Maria Rasquilha.
O produtor defende, por exemplo, os transvases a partir das barragens existentes, que “são obras absolutamente necessárias e não muito caras, que permitem ultrapassar as secas sem surpresas”. Um caso apontado – “que já foi prometido por vários ministros” – é o transvase da Barragem de Lucefécit para a Vigia, que teria um impacto muito significativo e com um custo baixo da ordem dos dois a três milhões de euros, assinalou. “Temos de tomar medidas para enfrentar o fenómeno das alterações climáticas, que vão ser cada vez mais frequentes”, disse.
São investimentos que compensam , como observou o presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes, que lembrou que o regadio da Cova da Beira demorou 60 anos a chegar. “O discurso sobre o interior está na moda, mas ao mesmo tempo é pouco coerente, pois continuamos a ter, por exemplo, as autoestradas mais caras do país, o que retira capacidade para atrair investimento e para aumentar a rentabilidade do investimento”, disse.

Carla Aguiar