Javier Parladé: “Viemos para Portugal porque na Espanha já não era possível novo regadio”

As condições geradas por Alqueva convenceram o engenheiro agrónomo espanhol Javier Parladé a investir em olival. No Alentejo desde 2005, o Grupo Rabala, por si administrado, dedica-se à produção de azeite a granel que vende dentro e fora de portas. Parladé acredita no futuro do setor.

O que é este grupo e o que está a fazer em Portugal?
Chegámos em 2005 e comprámos uma série de propriedades, que transformámos com a plantação de 1700 hectares de olival, repartidos entre Évora, Aviz e Ferreira do Alentejo.
Desde então houve uma evolução grande. Qual foi a mais-valia da água de Alqueva para a vossa atividade?
Nós viemos para Portugal justamente por causa de Alqueva. Aqui havia a promessa de água, quando em Espanha já não havia, nessa altura, possibilidade de fazer novos regadios. Isso foi o que nos trouxe para cá. Por outro lado, ter a garantia de acesso à água por vários anos permite amortizar com tranquilidade o investimento, que foi muito grande.
Como caracteriza o vosso negócio, ao longo destes oito anos, antes e depois de Alqueva estar a funcionar?
Quando comprámos a nossa primeira propriedade já foi tendo em vista o acesso à água. Logo no ano seguinte, a barragem entrou em funcionamento.
Como tem evoluído o negócio com essa garantia de água de forma estrutural?
Tem sido uma evolução muito boa. Portugal, o Alentejo em concreto, é uma região muito apropriada para a cultura do olival. Temos uma produção muito alta que só é possível graças a Alqueva. De outro modo não seria de todo possível.
E qual é a produção média?
Estamos a produzir à volta de 1500 a 2000 quilos de azeite por hectare, ou mesmo mais.
A produção é canalizada para o mercado nacional ou também para Espanha?
A maioria da nossa produção vai para o mercado internacional, sobretudo para Itália. Também vendemos para Portugal, nomeadamente para grandes empresas como a Sovena, ou para Espanha. Temos um lagar e vendemos a granel, a um ritmo que vai dependendo da procura e da evolução dos preços.
Quanto é que as exportações para a Itália pesam nas vendas?
Dependendo do ano, a Itália pode representar 30%, 40% ou 50% da faturação global. Neste ano, por exemplo, havia muito pouca produção em Itália, razão pela qual vendemos muito.
Que fatia cabe ao mercado português?
Vendemos mais ou menos a mesma proporção para o mercado português e espanhol.
Há planos de investimento nas explorações para os próximos tempos?
Temos planos de investimento em propriedades que não tínhamos ainda transformado globalmente. Temos preferido ir um pouco por fases porque são investimentos avultados. Agora o objetivo é plantar 500 novos hectares de olival no espaço de dois a três anos.
Como está a ser este ano em volume de negócios?
Creio que vai ser muito bom, melhor do que o ano passado. Não só a colheita como os preços também estão melhores do que no ano passado.
E quanto é que isso representa?
Entre azeite e azeitona, o grupo está a vender cerca de oito a dez milhões de euros.
Contam crescer no próximo ano?
No próximo ano esperamos manter um nível de produção mais ou menos equivalente. Até agora não nos sobra azeite, vendemos tudo o que produzimos.
O Grupo Rabala tem uma meta de crescimento?
Queremos atingir um volume de negócios superior a dez milhões de euros.
Desde que se radicou no Alentejo tem sentido maior dinamismo económico na zona de Alqueva?
Sim, creio que tem melhorado. Vê–se uma mudança enorme desde 2005 tanto a nível de oferta de trabalho, de rendimento e de nível técnico. Vejo muito futuro.
Quer especificar?
Cada vez há mais gente preparada. Antes, os melhores técnicos de olival eram espanhóis. Agora são portugueses. Todas as plantações são muito modernas com as mais novas tecnologias. E seguramente que os melhores técnicos do mundo estão aqui.
Como se estrutura o vosso grupo empresarial?
Temos três sociedades e cada uma é propriedade da empresa mãe. Cada sócio é independente e de-senvolve o mesmo ramo de atividade. Cerca de 90% da terra é reservada para o olival. As sociedades agrícolas são portuguesas. A sociedade que detém as ações é espanhola. No grupo somos todos espanhóis, três famílias de amigos, engenheiros agrónomos, eu sou o administrador.
O investimento inicial foi avultado?
Sim. Investimos mais de 50 milhões de euros.
Já recuperaram esse investimento?
Ainda não, mas esperamos recuperar no futuro. É preciso lembrar que parte do investimento foi feito com recurso a crédito bancário.O facto de o preço do azeite estar em alta aumenta as vossas expectativas?
Sim, as expectativas são boas, mas também estamos a contar que provavelmente não se vai manter este nível de preços altos, mesmo que o consumo e as exportações continuem bem. O preço não deverá continuar nos atuais 3,80 euros, mas se ficar nos três euros já será muito bom para o setor e para os agricultores.
E novos mercados? Há apetência de outros países por este tipo de produtos?
Sim, estamos a enviar azeite direta ou indiretamente para os EUA ou para a Austrália. Mas são encomendas pontuais.
Porque vale a pena produzir azeite e azeitona em Portugal e Espanha?
Quando vinha um técnico a Portugal dizia que um hectare dava para produzir 300 a 400 quilos de azeite. Ou seja, há condições, consegue-se amortizar o investimento no espaço de um ano.
O que espera de Portugal? Querem crescer mais? Vê aqui futuro neste setor?
Sim, tem futuro. Creio que em muito pouco tempo Portugal estará a produzir umas cem mil toneladas de azeite, e em poucos anos estará em 150 mil. Acredito mesmo que vai chegar ao patamar das 200 mil toneladas de azeite, o que já será qualquer coisa bastante relevante, próximo dos valores de referência da Itália ou da Grécia.
Ponderam diversificar para os frutos secos tendo em conta o potencial de Alqueva, que tem levado muitos agricultores a optar por esta cultura?
Temos ponderado a possibilidade de começar a fazer amêndoas e nozes. Mas nós temos já toda uma estrutura, desde a a maquinaria aos técnicos muito focados no azeite. E até agora está a correr bem. Ainda subsistem algumas dúvidas sobre se teremos os melhores técnicos para os frutos secos. Seguir ou não por esse caminho é algo que ainda não está decidido.
No total quantas pessoas emprega o grupo nas suas propriedades em Portugal?
Se considerarmos apenas os trabalhadores fixos, estamos a falar de cerca de 40 a 50 pessoas. Na altura das colheitas chegamos a dar trabalho a cerca de 300 a 400 pessoas.