José Palha: “O girassol é uma cultura rentável e tem potencial para crescer”

José Palha

Produtor de cereais e oleaginosas, José Palha lidera a Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Protaginosas. Devido à quebra de preços nos cereais, muitos agricultores deste setor passaram a investir no girassol, que garante melhores rentabilidades.

O que produz e em que quantidades?
Temos uma exploração agrícola familiar divida em tres núcleos: um no Ribatejo (Samora Correia), um em Portel e outro em Redondo. São propriedades que estão na minha família  há varias gerações, quer do lado da mãe quer do pai. Fazemos essencialmente cereais e oleaginosas, principalmente girassol. Este ano temos trigo, milho, aveia  ervilhas e batatas. Devido à escassez de água, este ano temos uma área de girassol bastante superior  ao que temos normalmente porque o girassol é menos exigente em água do que, por exemplo, o milho. Portanto temos 250 hectares de girassol espalhados pelos 3 núcleos.
É um ano atípico. Tem a garantia de que essa produção é escoada?
Sim. Nesta exploração faço sempre um mínimo de 60 hectares de girassol e tenho um contrato plurianual com a Sovena, renovado este ano por mais três, que compra a um preço fixo e uma parte indexada a cotação do mercado. No Alentejo, em princípio, semearei uma área menor no próximo ano.
Só vende para a Sovena e não vende diretamente no mercado. É isso?
Sim, vendemos para a Sovena.
E é tudo para o mercado nacional?
Julgo que sim. Portugal não é, de todo, autosuficiente na produção de  óleo de girassol, nem sei se chega a 10%.
O que é que faz a ANPOC para dinamizar a atividade?
A ANPOC é a associação nacional dos produtores de cereais, oleaginosa e protaginosas. O nosso principla foco tem sido nos cereais, nos praganosos, trigos( mole, duro) cevadas, enfim cereais de qualidade. A grande maioria das organizações de produtores de cereais do sul  são nossos associadas. O girassol nos últimos três anos teve um aumento de área brutal, mais do que duplicou a área e tem vindo a afirmar-se como uma alternativa bastante interesante nomeadamente para regadios com pouca disponibilidade de água. Consegue fazer-se esta cultura com 4 a 5 mil metros cúbicos de água por hectare, enquanto o milho tem um consumo muito mais elevado, e com rentabilidade potencialmente superior aos cereais, que enfrentam já três anos de preços baixos. Como temos ótimas relações com a Sovena fizemos uma parceria e criámos um projeto pedagógico  em Campolide, a quinta de Zé Pinto, que tem sido visitada por centenas de crianças que podem ver cereais como trigo e cevada.
Quais os objetivos estratégicos definidos pela associação?
O nosso objetivo é apoiar as nossas associadas, que estão a focar-se  nas culturas mais rentáveis como é o caso do girassol . Apoiamos as organizações em tudo o que eles precisem, como seja ultrapassar obstáculos de vária ordem, políticos, burocráticos ou de mercado.
Mas há obstáculos nesta atividade?
Não me parece que haja. O nosso principal player  é a Sovena que apareceu com uma postura diferente da que tinha até agora. Para um produtor é muito complicado fazer investimento sem fazer ideia da possível rentabilidade. E estes contratos com a Sovena têm garantidoum preço de venda com qual o agriclultor fica confortável. Os agricultores pensam que vale a pena fazer girassol. Isto é o que gostariamos de ter para todas culturas, dá outra segurança trabalhar assim.
Tem ideia do volume de negócios total das organizações de produtores membros da ANPOC?
Não faço ideia porque nós não trabalhamos com números. A ANPOC representa quase todas as organizações de produtores de cereais do sul do país, senão todas nos cereais e também nas oleaginosas.
Perante este sucesso do girassol há a perspetiva de voltar a duplicar a área produzida?
Estamos numa altura em que as culturas anuais ( cereais e  milho) estão com tendência de baixa há tres anos e o girassol aparece como alternativa menos arriscada do que qualquer uma das outras neste momento. Tudo isto apesar de haver esforços noutras culturas, como nos trigos e cevadas , com as cervejeiras a fazerem contratos algo semelhantes aos da Sovena. Estamos a trabalhar nesse sentido, mas nestas culturas é complicado porque  temos a concorrência do resto do mundo, em alguns casos com condições muito diferentes, como a  Rússia e a Roménia, com custos muito mais baixos de produção, já para não falar do outro lado do mundo, onde a produção não está sujeita às mesmas regras ambientais exigidas na União Europeia.
Qual é o perfil médio do vosso associado por tipo de cultura e dimensão?
Normalmente é grande propriedade, latifúndio do Alentejo que produz cereais. Muitas das que fazem girassol  são regadios particulares, não ligadas ao Alqueva.
Qual é neste momento a área de produção de girassol ?
Andará à volta dos 40 mil hectares em Portugal.
Como se traduz a colheita deste  ano em volume de negócios?
Depende muito de agriclutor para agricultor. Em regadio podem ter-se  produções  de 4 toneladas por hectare, o que equivale  a 1600 euros em termos de girassol. A produção custa à volta de 800 euros. Se for de sequeiro, a produção baixa para metade mas os custos também descem substancialmente.  Em regadio tem uma rentabilidade interessante que pode andar por 800 euros hectare.
O que é mais rentável produzir?
Neste momento provavelmente a mais rentável será o girassol, sem contar com as hortícolas.  O milho tem uma grande volatilidade.
Como estão a evoluir os preços nas oleaginosas?
Têm estado estáveis nas oleaginosas devido sobretudo aos contratos com a Sovena. Nos cereais os preços têm estado em baixo.
E a colza?
A colza, que  é uma vagem com umas bolinhas pretas utilizada para fazer óleos e biodiesel, é uma cultura de outono/inverno que está a dar os primeiros passos, com poucos técnicos a dominarem bem a cultura. As perspetivas neste momento são boas. A área de colza nunca teve historicamente uma grande expressão em Portugal.Há  4 a 5 mil hectares.
A tendência é de crescimento?
A  área mais do que duplicou os últimos 3 anos. Não irá duplicar outra vez, mas ainda pode crescer.
Na sua herdade aposta na diversificação e na rotatividade? E a preocupação com a sustentabilidade?
A rotação é muito importante. Não convém fazer girassol dois anos seguidos na mesma parcela, até para evitar pragas. O caminho que temos de seguir é a intensificação sustentável, com utilização racional de herbicidas e pesticidas, porque a população vai continuar a aumentar. Em 1900 um agricultor alimentava 7 pessoas, em 1925 alimentava 30, em 1970  cerca de 50, em 2017 já 150 e em 2050 estima-se que tenha de alimentar 240pessoas . Há culturas que dificilmente conseguem ter produções que justifiquem o investimento em agriclultura biológica. E há dados da UE a dizer que a contamininação é mínima. Tenho imagens de satélite que medem o vigor vegetativo das plantas de 10 em 10 dias e se houver necessidade de intervenção só faço quando tiver a certeza absoluta disso. Tenho procedimentos para verificar pragas para ver se se ustifica o tratamento, porque os custos de produção aumentam tanto com os fitofármacos que só os usamos se forem  mesmo necessários. De outra forma não conseguimos ganhar dinheiro.