José Rasquilha: “Há mais Alentejo para além de Alqueva”

Enquanto administrador da CERSUL e diretor  da Associação de Regantes Beneficiários do Caia, José Rasquilha defende que o Alto Alentejo também faz parte do “celeiro” de Portugal, pois produz cerca de 30 mil do total de 200 a 300 mil toneladas de cereais praganosos do país. E reclama maior atenção para o aumento do perímetro de rega da região, que necessita de investimentos para a melhoria do seu sistema produtivo.

 Como retrata a vossa área de intervenção?
A Associação de Beneficiários do Caia fica no Alto Alentejo e o seu perímetro de rega abrange os concelhos de Elvas e Campo Maior, uma área que tem cerca de sete mil hectares ocupados com culturas, como os cereais praganosos (o trigo, a cevada, a aveia e o milho) e mais 4500 hectares, fora desse perímetro, na chamada zona de Regantes precários, que têm vindo a aumentar com culturas permanentes, como o olival, que já ocupa 50% dessa área precária, ou seja, cerca de dois mil hectares. Os restantes hectares são ocupados com culturas anuais, que são os cereais praganosos. Neste momento, desses sete mil hectares iniciais, pelo menos quatro mil são culturas permanentes, com predominância do olival e algumas centenas de hectares de amendoal. As culturas anuais fazem-se em função da disponibilidade de água, que este ano que passou, até ao final da primavera, não se sabia ainda se ia haver ou não. Por isso, alguns produtores mudaram para culturas de menor exigência de água, como é o caso dos cereais praganosos, dos triticais, e praticamente não houve a cultura de tomate, assim como o milho também diminuiu significativamente.
Quais são os vossos principais constrangimentos nesta altura?
Os principais constrangimentos estão ligados ao que gostávamos de ver desenvolvido aqui na nossa região, como o aumento do perímetro de rega. No Alto Alentejo temos várias associações, a Associação de Beneficiários do Caia, a Associação do Sevecite, a Associação da Vigia, Abrilongo e gostávamos de ter o Xevra. Não se chegou a fazer a barragem do Xevra, que é um rio que passa paralelamente ao Caia e vai meter todo o seu caudal no Guadiana, que depois leva água ao Alqueva. Não foi possível fazer essa barragem, por motivos de restrições ambientais. Há efetivamente muita coisa que se podia desenvolver no Alto Alentejo e ali perto de nós acreditamos que, num curto espaço de tempo, podíamos dobrar a área de regadio, levando obviamente essa duplicação de área a um grande desenvolvimento em todos os aspetos económicos e sociais da região.
Significa que há uma limitação real na disponibilidade de água?
Há uma limitação, porque o Caia tem uma disponibilidade de água bastante apetecível, tem uma capacidade útil de cerca de 190 milhões de metros cúbicos e uma capacidade morta ( entre caudal ambiental e água que tem de se guardar para abastecer populações regionais ) na ordem dos 20 a 25 milhões de metros cúbicos. Ou seja, sobra-nos cerca de 160 a 170 milhões de metros cúbicos de água para regar. Por isso, o que nós pretendemos é que existam investimentos em transvases, em possíveis soluções hidráulicas, para responder ao fenómeno de alteração climatérica que é inevitável.
 O que considera que está a travar esse processo?
O que está a travar esse processo são  problemas ambientais, nos quais o ICN – Instituto de Conservação da Natureza tem sempre uma palavra a dizer sobre qualquer projeto de nova barragem e tem sempre o poder de veto. Em muitos casos, tem de se fazer um estudo de impacto ambiental, que acarreta custos, desde logo, com a própria elaboração do estudo, além de outros problemas como muita burocracia para se aumentar o regadio ou construir novas barragens. Acreditamos que o Baixo Alentejo tem sido mais beneficiado, na medida em que, politicamente e em termos até nacionais, tem-se olhado mais para o Alqueva e apenas para a grande obra que é o Alqueva, mas existe mais Portugal, existe mais Alentejo. Não podemos ficar ilimitadamente a falar de Alqueva, temos de pensar no resto do país.
Quer dizer que Alqueva abafou, ou limitou, outras oportunidades no interior?
Penso que há espaço para todos. A obra do Alqueva é realmente grandiosa. É uma obra notável, porque as terras do Baixo Alentejo são, sem dúvida, as melhores terras de Portugal. A obra é louvável, incrível e tem todos os adjetivos positivos, mas não podemos ficar limitados a ela. Temos de olhar para outras zonas do país, nomeadamente a nossa região, que tem um potencial grande, terras de grande qualidade, e acreditamos que todo o Norte alentejano tem uma palavra a dizer sobre regadio e sobre as potencialidades que todas as culturas têm no nosso país.
 O que é preciso reabilitar para evitar desperdício de água e qual é a eficiência atual do perímetro de rega do Caia?
O perímetro de rega do Caia é de 1967, tem 51 anos e a água não chega às explorações com pressão, com bombagem, como é o caso do Alqueva. Neste momento, com todas as conjeturas a que está sujeita, teria de se mudar canalizações primárias, secundárias e uma série de situações que tornam extremamente difícil transformar todo um perímetro antigo num novo. Tinha de se deitar tudo abaixo e fazer de novo, o que seria uma obra de custos incalculáveis. Mas há situações a melhorar, há aproveitamentos de água, que se desperdiça no final do perímetro (que entra na linha de água do Guadiana e depois é armazenada no Alqueva ) que podia ter retorno. Só para termos uma comparação, com tudo o que choveu depois da seca,  mesmo assim, a albufeira do Caia está a 50%, o Sevecite encheu e a Vigia está longe de estar cheia. Isto mostra que há dificuldade de enchimento destes perímetros. Com estes transvases e estas canalizações de caudais que foram aproveitados para outros perímetros, podíamos estar mais confortados do  que estamos.
Representa uma região raiana, acha que a proximidade de Espanha limita ou é a solução para o vosso desenvolvimento ?
Há muitas vantagens de estar ao lado de Espanha e, nomeadamente, de uma cidade como Badajoz, que tem o tamanho de Coimbra com cerca de 200 mil habitantes e todo o interior tem a ganhar com a facilidade de compra de bens e serviços, nomeadamente peças de substituição, assistência técnica, pois há uma série de centros de logística de grandes marcas sediadas em Espanha.
Falou já de culturas novas e de qualidade de produtos. Em termos de investimento, o que é que isso significa?
Temos tentado abrir novos mercados e criar mais qualidade e maior valor acrescentado. Nomeadamente nos nossos trigos –  através da Anpoc – Associação Nacional de Produtores de Cereais –  criámos o “Pão do Alentejo”, que já podemos encontrar nas principais grandes superfícies. O nosso agrupamento de produtores foi o primeiro a ser criado em Portugal nos cereais e é um dos principais fornecedores de cereais para “Baby Food”, para as grandes cadeias de alimentação de bebés. São produtos que nos criam valor, que têm de ser feitos com controlo de qualidade apertado, com rastreabilidade e cadernos de especificações muito restritas e exigentes, uma vez que se trata de alimentação infantil. Estes são produtos diferenciadores, de alta qualidade, e é nesses produtos que o Alentejo pode apostar, na medida que eles trazem valor acrescentado.
Esse segmento de produtos quanto representa já no total da produção da região?
O valor específico em termos de PIB interno regional desse tipo de produtos não está bem especificado, mas é um produto que tende a ser cada vez mais a valorizado. Agora posso dizer que uma tonelada de trigo forrageiro simples pode valer 180 a 190 euros, e um produto que seja melhorador, tipo “Pão do Alentejo”, ou “Baby Food”, comparados a trigos importados de países como a Alemanha, ou a Polónia, pode chegar aos 240 euros a tonelada. Por isso, estamos a falar de um valor acrescentado por tonelada, que pode chegar a um terço do produto inicial e isso é, sem dúvida, uma mais-valia que podemos dar aos agricultores da região, visto que concorrer com o resto do mundo na qualidade de produtos standard é extremamente difícil.
 Nesta altura existe investimento direto estrangeiro na vossa região, nomeadamente dos vizinhos espanhóis?
Existe mais no Baixo Alentejo, visível nos milhares de hectares plantados, mas na nossa região também existe. Existem alguns olivais de grande dimensão de grupos espanhóis. Nas culturas consideradas não permanentes não se vê uma atração tão grande, há menos investimento de Espanha, mas temos alguns vizinhos, na nossa própria organização. No nosso agrupamento de produtores temos sócios espanhóis.
Quanto representa o inves-timento estrangeiro no volume de negócios da vossa região?
Não tem muita expressão, foram investimentos pontuais feitos quando transitámos do escudo para o euro, há cerca de 20 anos. Diria que representam menos de dez por cento do total da nossa produção.

Ana Maria Ramos