Portugal ainda é ilustre desconhecido em Espanha

Promoção. A imagem de Portugal, dos seus produtos e serviços ainda é negativa além-fronteiras. É preciso melhorar a imagem do país e mudar mentalidades, mesmo a dos governos

 

Existe um enorme desconhecimento de Portugal em Espanha, nomeadamente no que se refere à qualidade dos seus produtos e serviços. Por isso, aumentar a promoção do país e a sua competitividade para atrair mais investimento castelhano são dois dos passos mais importantes a dar na estratégia bilateral com os vizinhos espanhóis. Mas há outros igualmente essenciais. Quem o diz são os especialistas que ontem participaram no primeiro painel de debate da conferência Mercado Ibérico, que decorreu no CCB, em Lisboa.

O tema proposto para discussão foi “Reforçar os negócios de Portugal e Espanha num mundo global”.  E a este propósito, Pedro Madeira Rodrigues, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), diz que ainda há muito a fazer para que se intensifiquem as relações bilaterais. “Todas as empresas que responderam ao último inquérito da CCIP têm um enorme interesse em Espanha, mas muitas nem sequer deram o primeiro passo”, lamenta aquele responsável.

A boa disposição marcou as intervenções do primeiro painel de debate

A boa disposição marcou as intervenções do primeiro painel de debate. As palavras de Pedro Madeira Rodrigues (à esq.) fizeram rir Nuno Ribeiro da Silva.

Segundo Madeira Rodrigues, há “uma clara complementaridade de mercados” entre os dois países ibéricos, mas as aptidões e a qualidade do mercado português continuam desconhecidas em Espanha. “Eles devem olhar como nós olhamos para os produtos da Polónia e da Roménia, com uma certa desconfiança”, disse, pelo que é preciso investir na melhoria da nossa imagem além-fronteiras.

Já Luís Moura, diretor da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) em Madrid, salientou que Portugal não se pode dar ao luxo de descurar o mercado espanhol como seu principal parceiro. “Hoje em dia, Espanha é o destino de 3% do investimento estrangeiro mundial”, sublinhou.

Segundo este responsável, “o mercado espanhol é muito competitivo”, logo difícil. Pelo que, para as empresas e empresários, Luís Moura só tem um conselho: “Prepararem-se para isso, para a selva que existe do outro lado da fronteira. É  preciso estar preparado e ser agressivo.”

Anselmo Crespo, subdiretor da TSF moderou o 1º painel de debate, em que participou também Luís Moura, diretor da AICEP Madrid

Anselmo Crespo, subdiretor da TSF, moderou o 1º painel de debate, em que participou também Luís Moura, diretor da AICEP Madrid

Nuno Ribeiro da Silva, presidente em Portugal da energética espanhola Endesa e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, usando o exemplo do mercado do gás e da eletricidade nos dois países ibéricos, criticou a falta de eficiência e articulação entre os governos e organismos ibéricos. “Os problemas de constituição e operacionalização do MIBEL e do MIBGAS vêm essencialmente dos governos e não das empresas”, afirmou.

Segundo o presidente da Endesa, não é só na energia e nos combustíveis que se sente o facto de estarmos separados do resto da Europa pela cordilheira dos Pirenéus. É precisamente por esta situação periférica que Portugal e Espanha deveriam agir em conjunto em vários setores. “Podia haver um maior foco dos governos dos dois países em fazer sementeira. Quero dizer, no plano das universidades, dos centros tecnológicos, laboratórios do Estado, etc.” No entender de Ribeiro da Silva, isto permitiria que as equipas de profissionais se conhecessem e “estaríamos a fazer sementeira do conhecimento dessas gerações que serão os investidores futuros, mudança de mentalidades”.

 

Alta Competitividade
A aposta é em nichos de mercado

37981247Para mercados de grande competitividade e o elevado grau de exigência, como o espanhol, um dos segredos de penetração está na especialização e nos nichos de mercado, diz José Maria Rasquilha (na foto), administrador da Cersul (que reúne produtores de cereais portugueses). No caso da Cersul, a empresa tornou-se o principal de fornecedor de baby foods da Nestlé, feita à base dos seus cereais, e de cevadas de malte para as cervejeiras.

 

 

Testemunhos que ficaram

37979615“Agora, com o brexit, corremos o risco de ficarmos ainda mais periféricos, portanto, Portugal e Espanha têm de se unir. E os governos têm de agir nesse sentido.”
Pedro Madeira Rodrigues,
Secretário-geral da CCIP

lm“Na AICEP Madrid recebemos mais pedidos de empresas espanholas a quererem fornecedores em Portugal do que de empresas portuguesas a quererem implantar-se em Espanha.”
Luís Moura,
Diretor da AICEP Madrid

37979707“Os governos resolvem adotar medidas que vão no sentido de divergência de regras, o que leva a não se ter um tabuleiro comum para as empresas competirem em aberto.”
Nuno Ribeiro da Silva,
Presidente da Endesa Portugal e membro da CCILE

 

Texto: Adelaide Cabral
Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens