“Em Portugal temos um volume de negócios de 21 milhões de euros”

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola crê que o setor da segurança e da terciarização de serviços está a crescer tanto que deverá haver um aumento da sua intervenção para facilitar o intercâmbio ibérico nessa área. O Grupo Eulen conta como, nos próximos 5 anos, espera aumentar as suas vendas globais quase 50%, sendo a operação portuguesa uma das que está em crescimento.

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36449422Bem-vindos, Maria Medeiros, diretora-geral do Grupo Eulen em Portugal, e Alfonso Mateo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola. Maria, segurança, limpeza, serviços,  externacionalização de serviços das empresas. Fale-nos um pouco da história, que tem mais de 50 anos, desta grande empresa de serviços em Espanha e fale-nos de há quanto tempo está em Portugal e o que faz neste momento?

Maria Medeiros (M.M.) – O Grupo Eulen é uma empresa familiar que foi fundada…

Em Bilbau, não foi?

Em Bilbau, no dia 2 de janeiro de 1962 e que iniciou a sua atividade na área dos serviços de higiene e limpeza. Ao longo dos anos foi diversificando, de acordo com as necessidades das empresas, a prestação de serviços gerais.

E, quando se criou nesse setor das limpezas, foi uma grande novidade em Espanha, não é?

Sim, foi. Foi uma das empresas pioneiras na área dos serviços de higiene e limpeza.

Mas estava a dizer que, entretanto, se diversificou.

Sim, depois diversificou para a área dos serviços de segurança, serviços auxiliares, serviços de manutenção integral de edifícios, de meio ambiente – tudo o que é manutenção de espaços verdes, projetos paisagísticos -, serviços sociossanitários e trabalho temporário.

Só para os nossos leitores terem uma noção, é uma empresa que tem, neste momento, um volume de negócios, em 14 países, superior a 1400 milhões de euros.

Exatamente.

E continua a expandir-se de ano para ano.

O grupo quer continuar a crescer. Aliás, recentemente, a nossa presidente, Maria José Álvarez, apresentou o plano estratégico do grupo para os próximos cinco anos e pretendemos atingir, em 2021, um volume de negócios consolidado de 2250 milhões de euros, o que é praticamente um crescimento de 50%.

E, para situar, está basicamente na América Latina…

Sim, a América Latina vai representar 50%, praticamente.

E nos países do Golfo Arábico.

Sim, exatamente. Estamos em Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos.

Sendo que as nossas economias, a espanhola e a portuguesa, cada vez estão mais terciarizadas, seguramente que a especificidade destas empresas passa também pela Câmara de Comércio. Ou seja, têm pleno conhecimento e, porventura, peso crescente de operações destas empresas de um lado e do outro.

36449472Alfonso Mateo (A.M.) – O setor de serviços e, concretamente, o da segurança, é muito importante. E é-o por dois motivos fundamentais: a segurança nas nossas sociedades é cada vez mais importante, a função da segurança, em si…

E a perspetiva é que se torne cada vez mais importante.

E perspetiva, desgraçadamente ou de forma infeliz, talvez, é que isso venha a ser mais importante. A segunda questão é que são setores de emprego maciço. Isto é, não tenho números atualizados, mas em Portugal tenho a certeza de que a limpeza, a segurança, o trabalho temporário e outros serviços auxiliares empregam mais, bem mais de meio milhão de pessoas.

Mais de meio milhão.

Mais de meio milhão de pessoas, com certeza. Sem conseguir precisar [quantas]. O que faz que seja também um elemento importante de integração de pessoal extracomunitário. Isto é, dentro de Espanha e de Portugal, o Grupo Eulen que, do que conhecemos, é a grande empresa do setor da limpeza e vigilância, em Espanha faz uma tarefa social de integração extraordinária. À Câmara de Comércio cabe-lhe quase exclusivamente, como sabe, ser o facilitador, a pessoa que junta dos dois lados empresas para que se propicie o clima para se poderem fazer negócios e cada vez se integrarem mais as economias.

Claro, claro.

No setor dos serviços, entendo que há espaço para que as câmaras, cada vez mais, sejam intervenientes para facilitar esta intercomunicação. Portanto, para facilitar o intercâmbio de pessoal, para facilitar a equivalência de títulos – os títulos de segurança…

Porque há certificações internacionais, não é?

Há sim.

Aliás, a Eulen faz grande questão de apresentar o reconhecimento de qualidade do serviço prestado, não é?

M.M. – Sim, sim. Aliás, a Eulen, o Grupo Eulen é uma empresa que se pauta pela qualidade do serviço prestado ao cliente. Muito.

Eu queria dizer que nós dizemos Eulen, mas efetivamente o nome original – que, aliás, mostra um mocho no seu símbolo – é uma palavra alemã, não é? Eulen [dito oilan] quer dizer mochos.

Sim.

Mas nós dizemos Eulen, para facilitar. Maria, conte-nos um bocadinho da história da Eulen em Portugal? Como começou e como é que tem vindo a fazer o seu caminho?

A Eulen veio para Portugal no final do ano de 1997, através da aquisição de uma empresa, que era pequena, na área dos serviços de higiene e limpeza. Desde essa altura e até 2005, operou no mercado muito na área dos serviços de higiene e limpeza e com o nome da empresa comprada. Em 2005, o grupo resolve, à semelhança dos outros países e como [aconteceu] em Espanha, lançar o Grupo Eulen…

As suas marcas.

As suas marcas em Portugal. Então, é criada a Euelen, S.A., Sucursal, em Portugal, e nós iniciámo-nos a trabalhar no mercado português e focámo-nos na área dos serviços de higiene e limpeza. Isto, porque entrámos num mercado já muito maduro, com muita concorrência e, portanto, queríamos criar uma carteira de clientes de referência, por crescimento orgânico. Portanto,  aproveitando também a estrutura técnica da empresa que se tinha comprado – que era uma empresa muito pequenina -, começámos a trabalhar o mercado na área dos serviços de higiene e limpeza e começámos a conquistar os primeiros clientes. Como eu referi, o Grupo Eulen pauta-se muito pela qualidade do serviço prestado ao cliente, porque nós somos um grupo especializado de serviços gerais para empresas e se a empresa está a comprar um serviço, não tem de se preocupar com ele.

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Maria Medeiros, diretora-geral da Eulen, falou dos serviços prestados pela sua empresa e das suas perspetivas de crescimento. Alfonso Mateo, defendeu que na área dos serviços, em geral, e da segurança, em particular, há espaço para a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola ser mais interveniente e facilitar maior intercâmbio

Claro. Aliás, é essa a principalvantagem , não é?

Exatamente. E por isso, nós pautamo-nos muito pela qualidade e por essa proximidade com o cliente. É muito importante a proximidade ao cliente. Então, começámos a conquistar clientes, fomos crescendo, temos uma carteira de referência – trabalhamos com importantes grupos e empresas do setor privado e também com alguns clientes públicos. Em 2010, arrancámos com a área da segurança, portanto, começámos a trabalhar o mercado na área da segurança. Mais uma vez, um mercado muito competitivo. Portanto, a carteira que temos, tem tido um crescimento lento, porque há muita competitividade e nós somos uma empresa que cumpre com todas as suas obrigações legais. E, quando nos apresentamos a um projeto, também temos de ter a nossa margem de rentabilidade, não é?

Claro. Mas são basicamente grandes clientes?

Sim, sim. Nós somos a empresa que se dedica ao grande espaço. Por exemplo, centros comerciais, edifícios de escritórios, indústria, hospitais. Portanto, somos a empresa do grande espaço.

E oferecem serviços, digamos, há um pacote…

Sim, sim. Depois temos uma vantagem, em que o cliente pode adquirir-nos a limpeza, a segurança, trabalho temporário, manutenção de espaços verdes… Portanto, aquilo que são facility services, digamos assim. Tem um único interlocutor que é o elo de contacto com o cliente e, depois, nas diversas áreas, os técnicos especializados, que fazem a gestão do serviço no dia-a-dia.

Do ponto de vista da câmara, sem exagerar, não é só a segurança dos transportes de coisas valiosas, como transportes de bancos, etc.  [que está em causa]. O problema da segurança estende-se, cada vez mais, ao tecido empresarial como um todo: segurança das instalações, de transportes, etc. Quer falar-nos disso?

A.M. – A segurança, efetivamente, é a proteção de pessoas e bens. Mas, cada vez mais, inclui a tecnologia dentro das suas ferramentas: a segurança de pessoas, de bens, de transportes, de serviços informáticos, de instalações bancárias, de dados pessoais…

Exatamente. A segurança informática é também um setor com um enorme potencial de crescimento.

Não posso dizer os números, mas são monstruosos, com certeza. No momento em que vivemos, a segurança entrou nas nossas vidas para sempre, em todos os aspetos – segurança de dados pessoais, de… Enfim! São todos os aspetos. E é por isso, sendo um setor tão amplo, que eu entendo que as câmaras de comércio e as instituições oficiais deviam propiciar grandes eventos de encontro, para cada vez mais se interligarem. Porque a segurança não é algo isolado. Pois tudo o que acontece numa aldeia, na aldeia do lado também é relevante.

Dizia-me há pouco que acha que isso ainda era pouco feito. Quer dizer, que as câmaras deviam envolver-se mais para facilitar esse entendimento.

Na minha opinião, as câmaras, historicamente, estão ligadas às grandes transações bancárias, económicas, que é onde mais tiveram…

Foi assim que nasceram, não é?

Foi assim que nasceram, efetivamente. Mas atualmente há muitos outros setores: setores, agora, industriais, setores de segurança, setores que estão nascendo, onde eu penso que, sem dúvida, as câmaras hão de chegar, mais tarde ou mais cedo. Porque há tantos pedidos ou tanto espaço para fazer negócios que eu acredito que é um destino natural das câmaras.

Maria, dê-nos uma ordem de grandeza em termos de volume de negócios e de pessoas, número de colaboradores, da operação da Eulen em Portugal?

Em Portugal, neste momento, temos um volume de negócios da ordem dos 21 milhões de euros e cerca de 79% deste volume vem da área dos facility services, em que estamos a falar de serviços de higiene e limpeza, auxiliares, de manutenção e meio ambiente. Depois, a área da segurança representa cerca de 14% e o trabalho temporário 7%, que foi a área que arrancou mais tarde. Portanto, arrancámos com o trabalho temporário, mais ou menos, há cerca de dois anos e meio.

E qual é o volume de emprego?

Neste momento, temos cerca de 2300 colaboradores, em Portugal.

Nestes três segmentos que enunciou – e que eu suponho que são áreas de negócio bem definidas e separadas -, qual é a sua perspetiva para este ano e para os próximos? O que é que vai crescer mais? Como é que estão a ver a importância relativa de cada um destes subsetores?

A nível de futuro, estamos a apostar muito no que chamamos os facility services, ou seja, dar uma solução ao cliente, o cliente focar-se no seu core business e para tudo o que não está ligado diretamente ao seu core business, ser a Eulen, digamos assim, o seu parceiro de eleição.

Que, no fundo, são serviços transversais em que as mais diversas empresas precisam das mesmas coisas, não é verdade?

Exatamente. Portanto, nós apostamos muito nessa área de crescimento. Temos de nos reinventar, porque, como eu referi, é um mercado com muita concorrência e muito maduro. Estamos também a apostar muito no crescimento na área do trabalho temporário – é uma área em que estamos a crescer -, porque nós vivemos uma situação (que temos vindo a atravessar) de crise – não só nós, mas alguns países da Europa – e as empresas, se apostam na exportação, quando têm picos na produção recorrem ao trabalho temporário.

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Maria Medeiros, diretora-geral da Eulen em Portugal, e Alfonso Mateo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados de mais uma edição da Economia Ibérica, em que António Perez Metelo (à esquerda) foi anfitrião.

Portanto, a sazonalidade é importante nesse segmento do vosso negócio.

Sim. Aí, é uma área em que nós estamos a apostar e a crescer. Cá está, também não é uma área de fácil gestão, porque, com estes picos, os clientes de um dia para o outro pedem-nos: “Amanhã necessito de dez pessoas” ou “preciso de 20”. Portanto, temos de ter uma boa base de dados e apostamos muito, também, no implante, que depende do volume do cliente – se tem uma média de trabalhadores temporários elevada, considerada alta -, mas que é ter uma pessoa que está aí e que faz o recrutamento, a seleção e o acompanhamento com o cliente.

Eu fiz umas contas por alto, com este valor global do grupo, tão grande, e, sendo a Península Ibérica tão importante no conjunto – salvo erro, mais de três quartos -, isso quer dizer que o volume de negócios em Espanha é enormíssimo. É 800, 900 milhões?

Não, mais.

É mais?

É mais.

Portanto, este grupo, em Espanha, é importantíssimo.

Importantíssimo. Importantíssimo! Em Espanha, estamos a falar num volume de negócios na ordem dos (falo de 2015) 1300 milhões de euros e estamos a falar de quase 60 mil colaboradores. Portanto, é o principal grupo de serviços em Espanha.

Que arrancou em Bilbau e que se estendeu a todas as províncias de Espanha.

Sim. O seu primeiro presidente, David Álvarez…

É um basco, não é?

Sim, exatamente. Ele arrancou em Bilbau, ele e mais dois colaboradores. Portanto, em 2 de janeiro de 1962, arrancaram três pessoas e hoje é o grupo que é.

E ele morreu o ano passado e agora é a filha, como referiu…

Sim. É a filha que é a presidente.

É a presidente.

Sim, sim.

Em termos gerais, pergunto-lhe que perspetivas há da câmara, tem alguma coisa pensada dentro daquilo de que falou, de dar mais importância [ao intercâmbio nesta área] ou ainda não? Ou digamos que é uma coisa que poderá vir a crescer e a ser mais intermediada ainda pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola?

A. M. – A câmara, enfim, o seu presidente tem vindo a estar muito atento, sempre, a todos os setores. E tem vindo progressivamente a incluir nas palestras, nas conferências que se dão, temas e matérias cada vez mais alargados, para além dos que inicialmente deram origem à atividade das câmaras. E eu tenho a certeza, porque está bastante maduro o assunto, de que em todas as áreas de serviços, da agroindústria,  em todas aquelas áreas que são importantes entre os dois países vai haver um incremento forte de eventos, de feiras…

Que são apoiadas pela câmara.

Sim, que são apoiadas pela câmara. A câmara é um motor destas iniciativas, seguramente.

Maria, se me permite uma última questão. Nós vivemos numa época muito turbulenta e de grande incerteza – reconfigurações no espaço europeu, esses problemas da segurança, terrorismo, grande movimentos migratórios, etc. Como é que uma empresa, como o Grupo Eulen, se posiciona em relação a isto? Quer dizer, há possibilidade de se adaptar, há aqui uma oportunidade para, do ponto de vista de uma empresa privada, ter uma intervenção mais ativa? Como é que todas estas questões, que nos parecem tão fortes, se repercutem no seu trabalho?

M.M. – Realmente a segurança, como referimos aqui, infelizmente devido ao que estamos a viver na Europa, a todos estes ataques, é algo com que, cada vez mais, temos de nos preocupar. E posso dizer-lhe que o Grupo Eulen está a fazer investimentos nessa área e também posso dizer-lhe que, em Espanha, é a primeira empresa privada que tem já autorização para operar com drones.

Pois. Lá está!

Cá está! Portanto, a segurança, realmente, é algo em que nós vemos um futuro e em que é claro que é um serviço que tem custos elevados e onde, cada vez mais, as soluções são os sistemas integrados de segurança, que é um misto de humano com tecnologia.

Exatamente.

E, aí, a Eulen está a fazer investimentos, porque realmente temos de nos preparar para esse futuro.

Claro, porque, queiram ou não queiram as empresas, este investimento em segurança há de ser um custo necessário, internalizado nas empresas daqui para o futuro.

Sim. E, também, o Grupo Eulen criou uma empresa com a Dussmann, que é um grande grupo alemão de serviços, também familiar, que é a Idea Facility Services, que é 50% do Grupo Eulen, 50% Dussmann. Para quê? Por exemplo, nós cada vez temos mais clientes globais, que estão em vários países, e, como ao nível da Europa a Eulen tem presença em Portugal e em Espanha, com esta empresa, clientes que estejam em Portugal e noutros países, nós podemos dar um serviço através desta empresa. E vice-versa: nos países onde nós estamos e em que a Dussmann não está, fazemos aqui uma aliança para termos uma maior cobertura.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens