“Podíamos ser um Benelux ibérico”

Conferência Mercado Ibérico. A ideia de uma maior integração dos mercados de Portugal e Espanha foi defendida por vários especialistas

 

 

Portugal e Espanha só teriam a ganhar com uma maior integração dos dois mercados. E essa integração até poderia estender-se à investigação científica ou a projetos conjuntos em setores como o turismo e outros. Portugal e Espanha podiam mesmo funcionar como “um Benelux da Península Ibérica”, combatendo assim a condição periférica que os prejudica. Estas foram as conclusões mais marcantes que resultaram da conferência final da rubrica Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço, que ontem decorreu no CCB, em Lisboa, e reuniu especialistas do mercado ibérico e de vários setores da economia.

Nuno Ribeiro da Siva, presidente da Endesa Portugal e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola

Nuno Ribeiro da Siva, presidente da Endesa Portugal e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola

A ideia de um Benelux económico partiu de Nuno Ribeiro da Silva, membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola e presidente da Endesa Portugal, que falava acerca do mercado do gás e eletricidade. “Mas isto pode aplicar-se em diversas coisas”, garantiu durante a sua intervenção.

A competitividade do mercado português – ou a falta dela, em muitos setores -, uma legislação e políticas públicas de investimento hesitantes ou pouco claras e a carga fiscal em Portugal foram outros dos fatores apontados para melhorar pelos participantes convidados.

A conferência reuniu empresários do setor turístico, agrícola, da energia e de wellness (ginásios), além dos representantes das câmaras de comércio e indústria, tanto portuguesa como luso-espanhola, e do diretor do AICEP em Madrid.

Durante a sessão de abertura ,  Carlos Álvares, presidente do Banco Popular e entidade coorganizadora desta iniciativa juntamente com os jornais DN e JN e com a TSF, sublinhou dados que demonstram a importância mútua dos dois mercados. “Espanha é o principal destino das nossas exportações”, absorvendo um quarto do seu volume total, e é o seu principal fornecedor – um terço das importações portuguesas vêm de Espanha. Por sua vez, “Portugal é o quarto maior cliente de Espanha, com uma quota de 7,5%, e o seu 8.º fornecedor”, destacou Carlos Álvares. Tudo razões mais do que suficientes para manter uma aposta forte nas relações bilaterais com Espanha.

Mas há outra aposta que é preciso fazer: divulgar mais e melhor Portugal em Espanha. O muito que ainda há fazer neste campo foi o que salientou o presidente do conselho de administração do Global Media Group (GMG), detentor dos jornais DN e JN e da TSF. Daniel Proença e Carvalho, que em nome do GMG deu as boas-vindas aos participantes, afirmou: “Quanto ao turismo, penso que ainda há muitos espanhóis para descobrir Portugal. Ainda há um trabalho muito importante para promover o nosso país lá fora.”

A encerrar a conferência, esteve o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que fez uma exposição resumida dos resultados dos setores económicos com melhor performance em 2016.

A conferência de ontem, que foi o culminar de uma série de entrevistas que, desde março, debateram o mercado ibérico, as suas vantagens e oportunidades, encerrou a rubrica Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço.

 

Texto: Adelaide Cabral
Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Lisboa , 23/11/2016 - Realizou-se esta manhã no CCB em Lisboa a conferência Ecomomia Ibérica do Banco Popular. Luís Moura Director da AICEP Madrid; Pedro Madeira Rodrigues Sec. Geral C. Comércio e Industria Portuguesa; Nuno Ribeiro Silva Presidente da Endesa Portugal (Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)

O segundo painel da conferência sobre mercado ibérico que reuniu ontem vários especialistas no CCB para encerrar a série de entrevistas Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço, que desde março permitiu analisar o estado das relações económicas entre Portugal e Espanha, numa iniciativa que juntou o Banco Popular, o DN, o JN e a TSF Luís Moura Director da AICEP Madrid; Pedro Madeira Rodrigues Sec. Geral C. Comércio e Industria Portuguesa; Nuno Ribeiro Silva Presidente da Endesa Portugal
(Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)

“Em Portugal temos um volume de negócios de 21 milhões de euros”

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola crê que o setor da segurança e da terciarização de serviços está a crescer tanto que deverá haver um aumento da sua intervenção para facilitar o intercâmbio ibérico nessa área. O Grupo Eulen conta como, nos próximos 5 anos, espera aumentar as suas vendas globais quase 50%, sendo a operação portuguesa uma das que está em crescimento.

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36449422Bem-vindos, Maria Medeiros, diretora-geral do Grupo Eulen em Portugal, e Alfonso Mateo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola. Maria, segurança, limpeza, serviços,  externacionalização de serviços das empresas. Fale-nos um pouco da história, que tem mais de 50 anos, desta grande empresa de serviços em Espanha e fale-nos de há quanto tempo está em Portugal e o que faz neste momento?

Maria Medeiros (M.M.) – O Grupo Eulen é uma empresa familiar que foi fundada…

Em Bilbau, não foi?

Em Bilbau, no dia 2 de janeiro de 1962 e que iniciou a sua atividade na área dos serviços de higiene e limpeza. Ao longo dos anos foi diversificando, de acordo com as necessidades das empresas, a prestação de serviços gerais.

E, quando se criou nesse setor das limpezas, foi uma grande novidade em Espanha, não é?

Sim, foi. Foi uma das empresas pioneiras na área dos serviços de higiene e limpeza.

Mas estava a dizer que, entretanto, se diversificou.

Sim, depois diversificou para a área dos serviços de segurança, serviços auxiliares, serviços de manutenção integral de edifícios, de meio ambiente – tudo o que é manutenção de espaços verdes, projetos paisagísticos -, serviços sociossanitários e trabalho temporário.

Só para os nossos leitores terem uma noção, é uma empresa que tem, neste momento, um volume de negócios, em 14 países, superior a 1400 milhões de euros.

Exatamente.

E continua a expandir-se de ano para ano.

O grupo quer continuar a crescer. Aliás, recentemente, a nossa presidente, Maria José Álvarez, apresentou o plano estratégico do grupo para os próximos cinco anos e pretendemos atingir, em 2021, um volume de negócios consolidado de 2250 milhões de euros, o que é praticamente um crescimento de 50%.

E, para situar, está basicamente na América Latina…

Sim, a América Latina vai representar 50%, praticamente.

E nos países do Golfo Arábico.

Sim, exatamente. Estamos em Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos.

Sendo que as nossas economias, a espanhola e a portuguesa, cada vez estão mais terciarizadas, seguramente que a especificidade destas empresas passa também pela Câmara de Comércio. Ou seja, têm pleno conhecimento e, porventura, peso crescente de operações destas empresas de um lado e do outro.

36449472Alfonso Mateo (A.M.) – O setor de serviços e, concretamente, o da segurança, é muito importante. E é-o por dois motivos fundamentais: a segurança nas nossas sociedades é cada vez mais importante, a função da segurança, em si…

E a perspetiva é que se torne cada vez mais importante.

E perspetiva, desgraçadamente ou de forma infeliz, talvez, é que isso venha a ser mais importante. A segunda questão é que são setores de emprego maciço. Isto é, não tenho números atualizados, mas em Portugal tenho a certeza de que a limpeza, a segurança, o trabalho temporário e outros serviços auxiliares empregam mais, bem mais de meio milhão de pessoas.

Mais de meio milhão.

Mais de meio milhão de pessoas, com certeza. Sem conseguir precisar [quantas]. O que faz que seja também um elemento importante de integração de pessoal extracomunitário. Isto é, dentro de Espanha e de Portugal, o Grupo Eulen que, do que conhecemos, é a grande empresa do setor da limpeza e vigilância, em Espanha faz uma tarefa social de integração extraordinária. À Câmara de Comércio cabe-lhe quase exclusivamente, como sabe, ser o facilitador, a pessoa que junta dos dois lados empresas para que se propicie o clima para se poderem fazer negócios e cada vez se integrarem mais as economias.

Claro, claro.

No setor dos serviços, entendo que há espaço para que as câmaras, cada vez mais, sejam intervenientes para facilitar esta intercomunicação. Portanto, para facilitar o intercâmbio de pessoal, para facilitar a equivalência de títulos – os títulos de segurança…

Porque há certificações internacionais, não é?

Há sim.

Aliás, a Eulen faz grande questão de apresentar o reconhecimento de qualidade do serviço prestado, não é?

M.M. – Sim, sim. Aliás, a Eulen, o Grupo Eulen é uma empresa que se pauta pela qualidade do serviço prestado ao cliente. Muito.

Eu queria dizer que nós dizemos Eulen, mas efetivamente o nome original – que, aliás, mostra um mocho no seu símbolo – é uma palavra alemã, não é? Eulen [dito oilan] quer dizer mochos.

Sim.

Mas nós dizemos Eulen, para facilitar. Maria, conte-nos um bocadinho da história da Eulen em Portugal? Como começou e como é que tem vindo a fazer o seu caminho?

A Eulen veio para Portugal no final do ano de 1997, através da aquisição de uma empresa, que era pequena, na área dos serviços de higiene e limpeza. Desde essa altura e até 2005, operou no mercado muito na área dos serviços de higiene e limpeza e com o nome da empresa comprada. Em 2005, o grupo resolve, à semelhança dos outros países e como [aconteceu] em Espanha, lançar o Grupo Eulen…

As suas marcas.

As suas marcas em Portugal. Então, é criada a Euelen, S.A., Sucursal, em Portugal, e nós iniciámo-nos a trabalhar no mercado português e focámo-nos na área dos serviços de higiene e limpeza. Isto, porque entrámos num mercado já muito maduro, com muita concorrência e, portanto, queríamos criar uma carteira de clientes de referência, por crescimento orgânico. Portanto,  aproveitando também a estrutura técnica da empresa que se tinha comprado – que era uma empresa muito pequenina -, começámos a trabalhar o mercado na área dos serviços de higiene e limpeza e começámos a conquistar os primeiros clientes. Como eu referi, o Grupo Eulen pauta-se muito pela qualidade do serviço prestado ao cliente, porque nós somos um grupo especializado de serviços gerais para empresas e se a empresa está a comprar um serviço, não tem de se preocupar com ele.

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Maria Medeiros, diretora-geral da Eulen, falou dos serviços prestados pela sua empresa e das suas perspetivas de crescimento. Alfonso Mateo, defendeu que na área dos serviços, em geral, e da segurança, em particular, há espaço para a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola ser mais interveniente e facilitar maior intercâmbio

Claro. Aliás, é essa a principalvantagem , não é?

Exatamente. E por isso, nós pautamo-nos muito pela qualidade e por essa proximidade com o cliente. É muito importante a proximidade ao cliente. Então, começámos a conquistar clientes, fomos crescendo, temos uma carteira de referência – trabalhamos com importantes grupos e empresas do setor privado e também com alguns clientes públicos. Em 2010, arrancámos com a área da segurança, portanto, começámos a trabalhar o mercado na área da segurança. Mais uma vez, um mercado muito competitivo. Portanto, a carteira que temos, tem tido um crescimento lento, porque há muita competitividade e nós somos uma empresa que cumpre com todas as suas obrigações legais. E, quando nos apresentamos a um projeto, também temos de ter a nossa margem de rentabilidade, não é?

Claro. Mas são basicamente grandes clientes?

Sim, sim. Nós somos a empresa que se dedica ao grande espaço. Por exemplo, centros comerciais, edifícios de escritórios, indústria, hospitais. Portanto, somos a empresa do grande espaço.

E oferecem serviços, digamos, há um pacote…

Sim, sim. Depois temos uma vantagem, em que o cliente pode adquirir-nos a limpeza, a segurança, trabalho temporário, manutenção de espaços verdes… Portanto, aquilo que são facility services, digamos assim. Tem um único interlocutor que é o elo de contacto com o cliente e, depois, nas diversas áreas, os técnicos especializados, que fazem a gestão do serviço no dia-a-dia.

Do ponto de vista da câmara, sem exagerar, não é só a segurança dos transportes de coisas valiosas, como transportes de bancos, etc.  [que está em causa]. O problema da segurança estende-se, cada vez mais, ao tecido empresarial como um todo: segurança das instalações, de transportes, etc. Quer falar-nos disso?

A.M. – A segurança, efetivamente, é a proteção de pessoas e bens. Mas, cada vez mais, inclui a tecnologia dentro das suas ferramentas: a segurança de pessoas, de bens, de transportes, de serviços informáticos, de instalações bancárias, de dados pessoais…

Exatamente. A segurança informática é também um setor com um enorme potencial de crescimento.

Não posso dizer os números, mas são monstruosos, com certeza. No momento em que vivemos, a segurança entrou nas nossas vidas para sempre, em todos os aspetos – segurança de dados pessoais, de… Enfim! São todos os aspetos. E é por isso, sendo um setor tão amplo, que eu entendo que as câmaras de comércio e as instituições oficiais deviam propiciar grandes eventos de encontro, para cada vez mais se interligarem. Porque a segurança não é algo isolado. Pois tudo o que acontece numa aldeia, na aldeia do lado também é relevante.

Dizia-me há pouco que acha que isso ainda era pouco feito. Quer dizer, que as câmaras deviam envolver-se mais para facilitar esse entendimento.

Na minha opinião, as câmaras, historicamente, estão ligadas às grandes transações bancárias, económicas, que é onde mais tiveram…

Foi assim que nasceram, não é?

Foi assim que nasceram, efetivamente. Mas atualmente há muitos outros setores: setores, agora, industriais, setores de segurança, setores que estão nascendo, onde eu penso que, sem dúvida, as câmaras hão de chegar, mais tarde ou mais cedo. Porque há tantos pedidos ou tanto espaço para fazer negócios que eu acredito que é um destino natural das câmaras.

Maria, dê-nos uma ordem de grandeza em termos de volume de negócios e de pessoas, número de colaboradores, da operação da Eulen em Portugal?

Em Portugal, neste momento, temos um volume de negócios da ordem dos 21 milhões de euros e cerca de 79% deste volume vem da área dos facility services, em que estamos a falar de serviços de higiene e limpeza, auxiliares, de manutenção e meio ambiente. Depois, a área da segurança representa cerca de 14% e o trabalho temporário 7%, que foi a área que arrancou mais tarde. Portanto, arrancámos com o trabalho temporário, mais ou menos, há cerca de dois anos e meio.

E qual é o volume de emprego?

Neste momento, temos cerca de 2300 colaboradores, em Portugal.

Nestes três segmentos que enunciou – e que eu suponho que são áreas de negócio bem definidas e separadas -, qual é a sua perspetiva para este ano e para os próximos? O que é que vai crescer mais? Como é que estão a ver a importância relativa de cada um destes subsetores?

A nível de futuro, estamos a apostar muito no que chamamos os facility services, ou seja, dar uma solução ao cliente, o cliente focar-se no seu core business e para tudo o que não está ligado diretamente ao seu core business, ser a Eulen, digamos assim, o seu parceiro de eleição.

Que, no fundo, são serviços transversais em que as mais diversas empresas precisam das mesmas coisas, não é verdade?

Exatamente. Portanto, nós apostamos muito nessa área de crescimento. Temos de nos reinventar, porque, como eu referi, é um mercado com muita concorrência e muito maduro. Estamos também a apostar muito no crescimento na área do trabalho temporário – é uma área em que estamos a crescer -, porque nós vivemos uma situação (que temos vindo a atravessar) de crise – não só nós, mas alguns países da Europa – e as empresas, se apostam na exportação, quando têm picos na produção recorrem ao trabalho temporário.

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Maria Medeiros, diretora-geral da Eulen em Portugal, e Alfonso Mateo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados de mais uma edição da Economia Ibérica, em que António Perez Metelo (à esquerda) foi anfitrião.

Portanto, a sazonalidade é importante nesse segmento do vosso negócio.

Sim. Aí, é uma área em que nós estamos a apostar e a crescer. Cá está, também não é uma área de fácil gestão, porque, com estes picos, os clientes de um dia para o outro pedem-nos: “Amanhã necessito de dez pessoas” ou “preciso de 20”. Portanto, temos de ter uma boa base de dados e apostamos muito, também, no implante, que depende do volume do cliente – se tem uma média de trabalhadores temporários elevada, considerada alta -, mas que é ter uma pessoa que está aí e que faz o recrutamento, a seleção e o acompanhamento com o cliente.

Eu fiz umas contas por alto, com este valor global do grupo, tão grande, e, sendo a Península Ibérica tão importante no conjunto – salvo erro, mais de três quartos -, isso quer dizer que o volume de negócios em Espanha é enormíssimo. É 800, 900 milhões?

Não, mais.

É mais?

É mais.

Portanto, este grupo, em Espanha, é importantíssimo.

Importantíssimo. Importantíssimo! Em Espanha, estamos a falar num volume de negócios na ordem dos (falo de 2015) 1300 milhões de euros e estamos a falar de quase 60 mil colaboradores. Portanto, é o principal grupo de serviços em Espanha.

Que arrancou em Bilbau e que se estendeu a todas as províncias de Espanha.

Sim. O seu primeiro presidente, David Álvarez…

É um basco, não é?

Sim, exatamente. Ele arrancou em Bilbau, ele e mais dois colaboradores. Portanto, em 2 de janeiro de 1962, arrancaram três pessoas e hoje é o grupo que é.

E ele morreu o ano passado e agora é a filha, como referiu…

Sim. É a filha que é a presidente.

É a presidente.

Sim, sim.

Em termos gerais, pergunto-lhe que perspetivas há da câmara, tem alguma coisa pensada dentro daquilo de que falou, de dar mais importância [ao intercâmbio nesta área] ou ainda não? Ou digamos que é uma coisa que poderá vir a crescer e a ser mais intermediada ainda pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola?

A. M. – A câmara, enfim, o seu presidente tem vindo a estar muito atento, sempre, a todos os setores. E tem vindo progressivamente a incluir nas palestras, nas conferências que se dão, temas e matérias cada vez mais alargados, para além dos que inicialmente deram origem à atividade das câmaras. E eu tenho a certeza, porque está bastante maduro o assunto, de que em todas as áreas de serviços, da agroindústria,  em todas aquelas áreas que são importantes entre os dois países vai haver um incremento forte de eventos, de feiras…

Que são apoiadas pela câmara.

Sim, que são apoiadas pela câmara. A câmara é um motor destas iniciativas, seguramente.

Maria, se me permite uma última questão. Nós vivemos numa época muito turbulenta e de grande incerteza – reconfigurações no espaço europeu, esses problemas da segurança, terrorismo, grande movimentos migratórios, etc. Como é que uma empresa, como o Grupo Eulen, se posiciona em relação a isto? Quer dizer, há possibilidade de se adaptar, há aqui uma oportunidade para, do ponto de vista de uma empresa privada, ter uma intervenção mais ativa? Como é que todas estas questões, que nos parecem tão fortes, se repercutem no seu trabalho?

M.M. – Realmente a segurança, como referimos aqui, infelizmente devido ao que estamos a viver na Europa, a todos estes ataques, é algo com que, cada vez mais, temos de nos preocupar. E posso dizer-lhe que o Grupo Eulen está a fazer investimentos nessa área e também posso dizer-lhe que, em Espanha, é a primeira empresa privada que tem já autorização para operar com drones.

Pois. Lá está!

Cá está! Portanto, a segurança, realmente, é algo em que nós vemos um futuro e em que é claro que é um serviço que tem custos elevados e onde, cada vez mais, as soluções são os sistemas integrados de segurança, que é um misto de humano com tecnologia.

Exatamente.

E, aí, a Eulen está a fazer investimentos, porque realmente temos de nos preparar para esse futuro.

Claro, porque, queiram ou não queiram as empresas, este investimento em segurança há de ser um custo necessário, internalizado nas empresas daqui para o futuro.

Sim. E, também, o Grupo Eulen criou uma empresa com a Dussmann, que é um grande grupo alemão de serviços, também familiar, que é a Idea Facility Services, que é 50% do Grupo Eulen, 50% Dussmann. Para quê? Por exemplo, nós cada vez temos mais clientes globais, que estão em vários países, e, como ao nível da Europa a Eulen tem presença em Portugal e em Espanha, com esta empresa, clientes que estejam em Portugal e noutros países, nós podemos dar um serviço através desta empresa. E vice-versa: nos países onde nós estamos e em que a Dussmann não está, fazemos aqui uma aliança para termos uma maior cobertura.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

“A Endesa, na Península Ibérica, tem uma posição de liderança”

Para a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, o alívio fiscal sobre o setor da energia é essencial para aumentar a competitividade da Península Ibérica. A Endesa conta como, apesar da redução da procura e dos desafios e custos impostos pela proteção do ambiente, ainda há espaço para prestar serviços de qualidade e, pela diferença, assumir a dianteira face aos restantes operadores

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36195938Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal, e António Belo, membro da direção da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE), sejam muito bem-vindos a esta Economia Ibérica. Nuno, começo por si. Vi pelos números que a Endesa copiosamente publica, com grande atualidade de facto, que este negócio não está em expansão, está numa situação de cortes no produto final – embora no gás não, mas em termos gerais. Portanto, está, penso eu, numa grande recomposição. Para já, para começar, qual é a posição da Endesa na Península Ibérica?

Nuno Ribeiro da Silva (N.R.S.) – A Endesa, na Península Ibérica – e incluindo também as ilhas Canárias e as Baleares – tem uma posição de liderança, enquanto primeiro fornecedor em termos de energia elétrica e segundo no gás natural. Porque hoje, cada vez mais, há uma estreita associação na prestação de serviços, portanto, de venda a clientes, de eletricidade e de gás. Aí [a Endesa], tem uma posição de liderança. Em Portugal, é o segundo operador. Portanto, a seguir ao incumbente…

A EDP, claro.

A Endesa tem cerca de 20% do mercado elétrico em Portugal.

E vejo que está a crescer no segmento liberalizado, não é?

Sim, está a crescer no segmento liberalizado, nomeadamente junto do que nós chamamos grande público, ou seja, no fundo, nas nossas casas, clientes domésticos.

O que, em comércio, se diria o retalho, não é?

Exatamente. Onde, ainda, o mercado está muito centrado na incumbente, embora liberalizada já a maior parte da procura do consumo. No entanto, essa liberalização digamos que tem um “se”, que é o facto de o incumbente dispor de cerca de 85% do mercado no segmento doméstico. Já no segmento empresarial há uma repartição muito mais equilibrada de quotas e a Endesa, inclusivamente, lidera, à frente dos outros operadores, o segmento chamado de clientes industriais. Essencialmente, estamos a falar de grandes consumidores.

Claro. Já lá iremos, aos desafios que este setor está seguramente a pôr à Endesa e a todas as empresas desse setor. António, pergunto-lhe a si: Que ecos desta questão da energia elétrica – fala-se tanto, é tão discutido hoje, nas instâncias políticas e na praça pública, a importância vital da recomposição deste setor – se ouvem na Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola por empresas de um lado e de outro da fronteira que ainda existe entre nós?

36195956António Belo (A.B.) – A Câmara de Comércio tem excelentes representantes do setor energético, como é o caso do engenheiro Nuno Ribeiro da Silva, que, de alguma forma, transportam para o seio da organização, efetivamente, uma informação muito interessante acerca da evolução do setor cá em Portugal. Como o engenheiro Nuno Ribeiro da Silva terminou de comentar, efetivamente o setor tem apresentado uma evolução extremamente positiva e há uma abertura que se reflete especialmente no grande consumidor, como acabou de ser dito, por ganhos efetivos face à concorrência que se começou a verificar nos últimos anos. Hoje temos um conjunto de operadores com quotas bem distribuídas que beneficiam, de alguma forma, o consumidor final. E quando estamos a falar…

E a abertura dos mercados foi feita de forma, digamos…

Bastante natural.

Bastante natural, gradual, sem repelões.

Bastante natural. Pelo menos, é essa a sensação do consumidor. Mais na perspetiva do consumidor, é a isso que se assiste. Como foi referido, o setor produtivo tem sido bastante beneficiado com isso, mas também, na perspetiva do particular, penso que estão a ser dados passos bastante importantes nesse sentido. Apesar, julgo eu, de alguma especulação que gira sempre à volta do setor, dos custos que a energia tem em Portugal, aquilo que vai sendo bastante evidente é que nós, a esse nível, nos posicionamos até dentro de uma realidade comparativa com a Europa bastante razoável. Pelo menos é a sensação que vou tendo, não só como consumidor como dos ecos que beneficio dentro da Câmara do Comércio.

Nuno, nós conhecemo-nos há muito tempo e eu sempre o vi com grandes preocupações ecológicas. Suponho que muito antes de ter assumido as sucessivas responsabilidades maiores até chegar a esta posição. Para as empresas como a Endesa, esta nova visão do problema dos gases com efeito de estufa, da sustentabilidade energética do planeta, etc. representa um grande desafio de se repensar e de se restruturar, não é assim?

N.R.S. – É. É um desafio de primeira prioridade, de segunda prioridade e de terceira prioridade. Em particular o setor energético – não só o elétrico mas também a área dos derivados do petróleo, etc. -, digamos que é o inimigo público número um sob o ponto de vista ambiental. Não só em termos de emissões dos chamados gases de efeito de estufa mas também nas cadeias energéticas existe todo um conjunto de operações de grande risco e, muitas vezes, de agressividade para o ambiente.

Sim. Desde a extração até ao transporte em alta tensão, que provoca controvérsia sobre os campos que ela produz à volta, etc. Tudo isso.

Exatamente. Quer dizer, a extração dos combustíveis primários – o carvão, o petróleo, o gás -, depois o transporte… Não é raro haver acidentes no transporte: roturas de pipelines, navios que sofrem acidentes, derrames de todo o tipo. Depois, as transformações sucessivas até ao que nós chamamos a energia final, que é aquela que nós servimos ao cliente para utilização e que não é o carvão em bruto ou o petróleo ou o gás em bruto.

Claro.

A transformação para a eletricidade. Portanto, há toda uma cadeia, uma fieira de operações extremamente sensíveis, com quantidades colossais a serem manipuladas, manuseadas, transformadas e que estão associadas a riscos ambientais. [Estes riscos] têm sido mitigados. De qualquer forma, o problema hoje mais crítico, que é este repto que estamos a fazer à atmosfera e ao planeta com as emissões de gases com efeito de estufa, com impacto nas alterações climáticas, é, para as empresas elétricas em particular, um desafio definitivo, que condiciona enormemente toda a perspetiva e as decisões das tecnologias a que nós recorremos para produzir a eletricidade que é necessária. Uma variável absolutamente crítica, hoje, é saber, depois de toda a discussão que tem havido recentemente com Paris, com a chamada Conferência COP-21, o preço que o CO2 irá ter, digamos, no mundo, no mercado mundial.

Nuno Ribeiro da Silva, administrador da Endesa Portugal (à esquerda), explicou como é possível ser líder num mercado de grande maturidade como o da energia. António Belo (à direita) falou dos ecos que a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola recebe dos seus associados de ambos os lados da fronteira quanto ao setor energético

Nuno Ribeiro da Silva, administrador da Endesa Portugal (à esquerda), explicou como é possível ser líder num mercado de grande maturidade como o da energia. António Belo (à direita) falou dos ecos que a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola recebe dos seus associados de ambos os lados da fronteira quanto ao setor energético

Portanto, deixa de ser um problema difuso, fora dos preços, que alguém há de resolver, para se meter o problema dentro e pôr-lhe o preço certo, digamos assim.

Exatamente. O que, aliás, é fundamental. Ou seja, há sempre duas maneiras de atacar este tipo de problemas: ou é como um ato administrativo a proibir ou então é integrar na economia…

Fazer pagar.

… e fazer pagar, um pouco dentro do princípio generalizado do poluidor-pagador. Portanto, uma variável importantíssima para estabilizar as angústias com que as empresas elétricas hoje se confrontam quando têm de optar por fazer uma central a gás ou uma central a vento, ou a água, ou a sol, ou nuclear é quanto ela vai custar com a adoção das medidas que foram negociadas pela comunidade mundial, nomeadamente na COP-21 e quanto vai custar a emissão de uma tonelada de CO2.

E diga-me, muito precisamente, a Endesa Portugal – já percebi que tem isso na sua agenda – está a proceder a modificações internas para fazer face a estes novos desafios?

Sim. Fizemos, por exemplo, uma adaptação dos equipamentos de emissão de uma central a carvão…

Para diminuir as emissões, claro.

Para diminuir as emissões.

Qual é a central?

A do Pego, portanto, ao pé de Abrantes. Agora, esses equipamentos que instalámos diminuíram as emissões de NOx, ou seja, de óxidos de azoto, de produtos sulfurosos, de partículas, mas o CO2 não temos, hoje, maneira…

De o travar devidamente.

De evitar a sua emissão. Resulta de operações físicas e químicas.

Muito bem. Há uma polémica que não se cala, digamos assim, de rendas excessivas no setor elétrico em Portugal. Com o conhecimento que a câmara tem da situação em Espanha e em Portugal, qual é a ideia da CCILE em relação a isso, se é que entrou nessa discussão? É possível, a pouco e pouco, ir reduzindo os preços do Kilowatt para os cidadãos em geral, em primeiro lugar em Portugal e, porventura, também em Espanha?

A.B. – Vamos lá a ver, a ideia que tenho sobre essa questão – e volta à…

Porque esta questão está ligada à anterior, não é?

Exatamente, volta à questão anterior que me foi colocada. Eu julgo que, do ponto de vista da eficiência e do ponto de visto produtivo, o setor elétrico tem dado passos muito significativos em Portugal. Acho que é uma boa referência do ponto de vista europeu, se quisermos, e não me parece que seja por aí que, efetivamente, essa escala, que está a colocar, seja colocada ao mercado português. Penso que se algum fator há que otimizar, apesar dos tempos bastante difíceis que passamos a esse nível cá em Portugal, será a questão fiscal. Há espaço, do ponto de vista fiscal, para melhorar substancialmente a nossa competitividade a esse nível, comparativamente com…

Mas isso é baixar impostos, não é? Isso é baixar receitas do Estado. É isso que me está a dizer, não é? [Risos].

Exatamente.

Os tempos estão difíceis para isso, como também concederá.

Era o que eu terminava por dizer.  Efetivamente, o contexto não é nada favorável. Dificilmente o governo português conseguirá atingir os objetivos que persegue, com uma recuperação que era bastante necessária, nomeadamente para o fortalecimento da economia portuguesa do ponto de vista das medidas fiscais, da política fiscal, que o país tem. Portanto, julgo que também no setor energético, isso teria um impacto e um resultado bastante significativo. Julgo que este será o aspeto mais importante do ponto de vista dessa questão, das rendas, que está a colocar.

Nuno, quer dizer alguma coisa sobre isto?

N.R.S. – Só dois comentários na sequência dessa referência. Mesmo falando nos nossos dois países, Portugal e Espanha, por exemplo uma outra área que não tanto a eletricidade mas os combustíveis, em que frequentemente aparece a referência a que as gasolinas ou os gasóleos são mais baratos em Espanha ou em Portugal, etc. Isto coloca diretamente o dedo na ferida deste ponto da fiscalidade. E, nomeadamente, em dois países tão próximos, tão integrados como os nossos e as nossas economias.

É isso que explica os diferenciais de preço, não é?

É isso que explica. No caso, por exemplo, dos derivados do petróleo, o que acontece é que a Espanha tem uma fiscalidade na gasolina e no gasóleo, para facilitar, que é inferior à media europeia e nós temos uma fiscalidade superior à média europeia. E, portanto, o contraste é grande.

Pois. Isso é claro.

Depois, no caso em particular da eletricidade. Se formos ver os custos de produção e de serviço elétrico ao consumidor…

Ou seja, os custos económicos diretos.

Os custos económicos, exatamente. O sistema espanhol e o português compara muito bem como resto da Europa. O que acontece é que, efetivamente – desculpe a expressão, António -, se utiliza um bocado, nomeadamente o setor elétrico, como o saco onde cabem toda uma série de medidas de política que não têm nada que ver com o setor elétrico. Recentemente decidiu-se atribuir a um milhão de famílias…

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Nuno Ribeiro da Silva (à esquerda), da Endesa Portugal, e António Belo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e foram os convidados de António Perez Metelo em mais uma edição da Economia Ibérica

Uma taxa social.

Uma taxa social, uma tarifa social, portanto, eletricidade subsidiada. Bom! Quem paga – às vezes os reclames, da propaganda política, que aparecem na rua dão outra ideia – isso são as empresas elétricas, não é o Estado. Por exemplo, a União Europeia diz e aponta que, sim senhor, se um governo decide uma atribuição de um subsídio, por qualquer razão, de natureza de política social, de política de desenvolvimento regional, de solidariedade nacional, o que seja, isso deve ir ao bolso específico. Ou seja, seria algo a ser suportado pela Segurança Social, não o sistema elétrico.

Pois, mas não é?

Portanto, estamos realmente  – e só para se ter uma ideia e para terminar – com uma carga fiscal sobre a eletricidade em que quase dois terços, digo bem, quase 66% do que pagamos na fatura elétrica, não tem nada que ver com os custos económicos da eletricidade.

Nuno, peço-lhe agora respostas mais rápidas, mas queria-lhe perguntar: Do ponto de vista do emprego e do volume de negócios, que perspetivas há para o resto do ano de 2016 e 2017? Estabilização? Expansão moderada? O quê?

Eu diria expansão moderada. Expansão moderada até porque, como o António disse no princípio…

Tem havido uma retração.

Exatamente. Não tem havido um aumento da procura, que é uma situação também única na história, digamos. Não tem havido. Em parte por boas razões, porque há reflexões importantes de todas as medidas…

Pois, pois. É que a maior eficiência energética representa menos necessidade de oferta.

Exatamente. Mas isso é positivo, porque há menos emissões, há toda uma série de efeitos positivos.

Por isso é que eu dizia que todos estes movimentos são desafios para as empresas.

Exatamente, imensos, imensos. Não quero exagerar o adjetivo e não costumo inflacionar a minha verve, mas está-se, de facto, num momento histórico de um conjunto de desafios para o setor energético em geral e elétrico em particular como realmente nunca ocorreu. Mas dizendo que, apesar de a procura global estar praticamente estagnada – até porque as nossas sociedades já estão muito maduras em termos de eletrificação -, pode–se dar um salto com a mobilidade. Portanto, o consumo dos transportes e dos veículos que usamos, os particulares, pode começar a virar para a eletricidade. Mas a nossa perspetiva, enquanto Endesa, é de facto um crescimento moderado, com particular ênfase nas vendas de gás natural, também, na eletricidade, no segmento doméstico e no que nós hoje chamamos de serviços de valor acrescentado. Ou seja, hoje uma empresa elétrica não pode só pensar que vende unidades de eletricidade – kW/h – e unidades de gás – m3 de gás, tem de começar a prestar crescentemente serviços de valor acrescentado.

Dê-me um exemplo, muito rapidamente.

Por exemplo, aconselhamento a clientes, manutenção de equipamentos, no caso da indústria, ser parte ativa na otimização da gestão e da eficiência energética. E depois entrávamos em aspetos técnicos, como a diminuição de energias reativas, condensadores…

Não, claro, não. Não vamos a isso, porque ainda lhe quero fazer uma última pergunta para uma resposta telegráfica. Para a Endesa Portugal são importantes os esforços de conectividade com o resto da Europa, que se estão a fazer, na medida em que ainda se fala que a Península Ibérica é uma jangada de pedra, do ponto de vista da conectividade energética?

Exato. Espanha e Portugal estão muito bem interconectados. Isso vê-se. Vê-se que no mercado ibérico, no chamado Mibel, os preços, num e noutro país são praticamente sempre iguais.

Mas o problema é com a França, não é?

Mas o problema é com a França. No gás natural é que ainda há coisas a fazer. Porque a maturidade, digamos, do mercado ibérico da eletricidade é diferente da do mercado gasista na Península Ibérica. E depois há esse problema da barreira dos Pirenéus. Eu diria mais, da barreira da França…

Pois, é uma barreira política.

É uma barreira política, mais propriamente do que uma barreira física.

Mas espera desenvolvimentos proximamente?

Eles estão a correr, com alguma resistência, mas de qualquer forma com o empenho político muito grande da própria Comissão Europeia e da parte de Portugal e de Espanha. E é, de facto, muito importante, quer em termos de preços, quer em termos de segurança, quer em termos de uma integração normal de uma coisa tão importante para a nossa vida como é a energia, que se acelere, se acentue, se aumentem as ligações e as autoestradas de eletricidade e de gás entre a Península Ibérica e o resto da Europa.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

“Abrir departamentos comerciais novos é um objetivo muito grande”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola saúda a experiência empresarial transfronteiriça como alavanca de internacionalização das empresas. Com sede em Campo Maior, junto à fronteira espanhola, a Delta Cafés iniciou a expansão do seu negócio de torrefação e comercialização de café precisamente pela vizinha Espanha. Hoje tem 18 unidades neste país e está presente noutros 35 países

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

35909153aJoão Manuel Nabeiro (JMN), se há a noção de uma empresa ibérica, até pela localização, pelo epicentro dessa empresa – Campo Maior, a 19 km de Badajoz, mesmo junto à raia, junto à fronteira – é a Delta Cafés, com 55 anos de existência. De facto, esta empresa, pela sua própria história de vida, desfaz muitos preconceitos sobre o que é o interior, o que é o litoral, onde é que se deve situar, etc. Não é assim?

JMN – A sua conversa tem todo o sentido para mim, porque nasci ali. Nasci naquela bela vila de Campo Maior, uma vila raiana, a fronteira está mesmo ali ao lado. Nós, em Campo Maior, costumamos dizer que de dia falamos português e à noite falamos castelhano e aí está logo, efetivamente, feito todo um percurso de vida, que é a vida dos campo-maiorenses, a vida daquelas pessoas que nasceram naquela belíssima zona. E não há dúvida nenhuma de que a nossa constante, no dia-a-dia, foi acima de tudo pensar na Extremadura, pensar no nosso Alentejo e, obviamente, no nosso Portugal, porque a lusitanidade está muito arreigada, também, aos nossos princípios. Mas digamos que o nosso sentimento de pertença também ao outro lado, desde os primeiros dias, foi sempre muito forte.

Mas o que eu queria destacar é a visão do seu pai, que foi fundador há 55 anos desta empresa: ter essa visão, que hoje nos parece tão normal, das eurocidades, das cidades e regiões fronteiriças, no espaço aberto que é a União Europeia, muito antes de Portugal e Espanha terem entrado para a CEE… Estou a falar de 1960, 1961.

É antes! Antes. Inclusivamente, logo a seguir à Guerra de Espanha, um tio-avô do meu pai que estava com a sua situação muito complicada, na guerra – deixe-me dizer-lhe: estava preso em Madrid -, conseguiu sair de dentro daquelas revoluções sociais todas, nessa mesma época, e veio até à nossa região e trouxe, acima de tudo… O quê? Trouxe o estigma do café. Era um produto que era necessário do outro lado e nós começámos a nossa vida pela senda do café, devido, possivelmente, a essa viagem desse senhor, que foi um empreendedor. Obviamente que, depois, o meu pai foi um continuador do tio, muito próximo dele, e esses anos sucederam, esses 55 de que falou há bocado. E aqui estamos.

E 30 anos em Espanha, também.

Logo desde o primeiro dia. Muito antes, devido àquelas situações de fronteira que eram um bocado tabu, naquela altura, falar-se.

Claro. Saltava-se de um lado para o outro.

Hoje em dia, felizmente, o contrabando já não é uma palavra tabu. Porque era uma subsistência de todas as famílias daquela zona. Depois, obviamente que as empresas desenvolveram as suas competências. E daí até aos dias de hoje tem sido, graças a Deus, uma linha de continuidade, a desenvolver projetos novos. Por exemplo, hoje vim a Lisboa pensando no Delta Q.

35909155Jaime Regojo (JR), não há muitas empresas de raiz tão ibérica, entre aspas, como esta de que estamos a falar.

JR – Existem mas não, em Portugal, da importância que tem o Grupo Delta, nem toda a relação que tem não só de desenvolvimento rápido numa área agroalimentar que se expandiu não só para Espanha mas para os – acho que são – 35 países de exploração, atualmente.

JMN – Exatamente.

JR – Um desenvolvimento tão rápido que, ao estar numa zona transfronteiriça, ajudou à expansão através de Espanha e que, depois, levou a outros países.

A Novadelta Espanha e depois a criação, se não estou em erro, neste momento, de 18 unidades comerciais, em Espanha…

JMN – Departamentos comerciais.

18 departamentos em Espanha, versus 22 em Portugal.

Vinte e quatro. São mais dois.

Ou 24. Já são 24, pronto. Como dizia, 35 países, mais de 3000 empregos diretos; se não estou em erro, um volume de negócios na ordem dos 260 milhões o ano passado…

Um bocadinho mais. O ano passado foram cerca de 330 milhões de euros.

330 milhões. Portanto, estamos a falar de uma coisa que teve um desenvolvimento extraordinário e, sobretudo, com forte incorporação de inovação, novos produtos, diversificação. Fale-nos um bocadinho disso.

Acima de tudo o trabalho era formar esses tais departamentos comerciais e a nossa proximidade em relação ao cliente era a aposta.

Esses departamentos são redes comerciais?

São pequenos armazéns que estão localizados nas principais cidades do nosso país e da vizinha Espanha. Essa vertente tem a componente comercial, tem a assistência técnica e tem, sobretudo, a proximidade com o cliente, porque o que nós procurávamos e procuramos sempre é estar próximos dos nossos clientes.

E isso produz, se bem li nos materiais que consultei, dez milhões de bicas diárias de Delta Café.

É possível que seja esse o número, mas… [Ri-se]. Possivelmente ainda é um bocado mais.

Dez milhões de vezes por dia que as pessoas entram em contacto com os vossos produtos.

São cerca de 22 mil toneladas/ano. Quando começámos torrávamos quilos e, hoje em dia, chegar efetivamente a este número tão importante como conseguimos, que é quase, de alguma maneira, o volume de importação portuguesa… Nós, neste momento, conseguimos já ter 30% do nosso trabalho virado para a exportação, para esses 35 países de que há bocado falou. É esse o trabalho que tem sido feito até aos dias de hoje.

Não sei se sabem, eu nasci em Madrid, filho de espanhola e de português. Nasci em 1949, portanto, ainda eram tempos muito difíceis em Espanha. E havia uma falta tremenda de bom café. Daí que as pessoas pediam que eu levasse café, mesmo quando era miúdo. A Delta Cafés ajudou, digamos, a expandir a cultura do melhor café em relação àquela cevada, que era o que havia no pós-guerra em Espanha?

JR – Sim. Como sabe, o café em Espanha tem sido sempre muito mau, entre outras coisas, porque depois da guerra civil consumia-se somente a cevada. E, depois, o próprio tratamento que fazem ao café queima-o muito e o sabor é muito diferente.

JMN – Sim, é. É.

JR – Acho que a Delta ajudou a levar a marca Portugal a Espanha e a pô–la numa posição elevada. Agrade-cemos todo o trabalho desenvolvido porque foi feito ao longo de muitos anos. Os espanhóis agradeceram, porque o café é distintamente melhor. Vinham muitos espanhóis, durante muito tempo, com o turismo, tomar cá o café e, depois, ao chegarem ao seu país não o tinham.

Não tinham. E eu tenho uma boa experiência disso.

E isso foi uma porta para a boa aceitação da própria Delta em Espanha.

35909137

João Manuel Nabeiro (à esquerda) falou da história e da estratégia de expansão da Delta Cafés, pertencente ao Grupo Nabeiro. Jaime Regojo agradeceu em nome dos espanhóis o bom café e salientou o treino de internacionalização que a expansão em Espanha traz a empresas como a Delta

Para falarmos um bocadinho do que é hoje o Grupo Nabeiro, este conjunto de empresas: quando me diz que em Espanha há 18 departamentos, isso quer dizer que as principais idades e, porventura, as diversas autonomias e regiões estão já muito bem cobertas pelos produtos da Delta Cafés?

JMN – É verdade. A partir dos anos 1980, quando houve a nossa abertura à Comunidade Europeia. Nesse mesmo dia estávamos na nossa vizinha cidade de Badajoz. E seria, efetivamente, aquele que seria o ponto de arranque para passar, depois, para toda a outra geografia espanhola. Foi muito fácil chegar a Madrid. E obviamente que Barce-lona seria também um dos pontos fundamentais para pormos uma das nossas bandeiras.

Claro.

E assim foi feito. Neste momento, digamos que temos ainda uma zona que não é tão clara na geografia espanhola para nós, que é o Norte de Espanha. Mas esperamos rapidamente conseguir chegar lá, a esses mesmos pontos.

E pode dizer-se que este gostinho do bom café em Portugal, tão diferente de outros países – eu já nem vou falar daquela água chilra que se bebe na América nos cafés -, pode dizer-se que este gosto do bom café que está consagrado em Espanha (e sei que também estão presentes com redes próprias em França, no Luxemburgo e em 17 países europeus), vai-se estendendo? Bom café, feito à portuguesa?

Eu acredito que sim. Certamente, é aquela filosofia de “Pensa global e age local”, mas é também todas as maneiras de nos aproximarmos dos gostos tradicionais do mercado dos países onde vamos tentar influenciar o consumo. Mas obviamente que em Espanha a nossa perceção sobre o gosto dos espanhóis era já um tema do dia-a-dia, visto que já levávamos esse trabalho feito. Como eu referi há bocadinho, desde os anos 1950, em que interagíamos com eles neste mercado.

Pois.

Portanto, neste momento, é continuar a perceber – ainda hoje, quando estivemos aqui, em Lisboa -, é continuar a perceber o gosto dos consumidores e ir ao seu encontro. Ao fim e ao cabo, é essa a nossa vida e é esse o nosso destino.

Mas quando falamos em 35 países estamos a falar num conjunto de países com representantes locais ou, digamos, com parceiros, com parcerias locais. O que quer dizer que, indiretamente, o Grupo Nabeiro ajuda a criar e a manter muito mais do que estes 3000 postos de trabalhos diretos, não é?

Obviamente. É evidente que sim. Os nossos agentes, nos vários países onde estamos diretamente, serão sempre o nosso observatório e, acima de tudo, há o nosso carinho por essa mesma gente. No início, começámos sempre por aquele mercado que nós chamávamos, tradicionalmente, o mercado da saudade. Hoje em dia, é também o nosso foco, obviamente, ir ao consumidor do respetivo país. E creio que toda a parte de packaging que temos, nestes últimos anos, tentado inovar e apresentar uma cara atualizada…

Não só isso mas também as máquinas próprias, não é?

Exatamente.

Quer dizer, há uma panóplia de novos produtos.

A nossa fábrica, sediada ali a 4 km de Campo Maior, tem-se atualizado nestes últimos anos. Principalmente, nesta nova lógica, tem estado a puxar muito a conversa para as cápsulas, porque é realmente um mundo, este, que se abriu no retalho, abriu-se para este consumo mais fácil para o consumidor.

Mas tiveram a perceção que os hábitos do consumidor estão a mudar muito rapidamente e que tem de haver inovação e resposta a essas mudanças, não é?

Foi. Aquilo foi três dias em que esta nova era surgiu e, digamos, que o nosso processo inovativo, a começar nos dois Ruis Nabeiro – o mais velho, que tem a missão, acima de tudo, de zelar por nós; e o mais novo, que tem, neste momento, a função de pensar e repensar o nosso projeto das cápsulas -, tem sido uma constante. E tantos bons resultados nos traz.

E qual é a estratégia daqui para a frente? Vão tentar estender-se a outros países? Vão tentar consolidar os pontos onde estão? Porque têm presença no Brasil, têm presença também em África e na Ásia, mas muito mais pontual. Em Angola suponho que tenham uma posição importante. Mas qual é a estratégia de internacionalização daqui para a frente para o Grupo Nabeiro?

Essa estratégia será sempre pensada para dar um passo e esse mesmo passo ser consolidado. Depois de termos alguma consolidação dessa aventura a que nos propomos, então pensamos efetivamente noutra situação. Falo em Angola. Em Angola já estamos há cerca de 20 anos, portanto, já é uma experiência que temos há longo tempo.

E tem-se aguentado bem, nestes momentos tão difíceis?

Passámos épocas, como deve calcular, muito complicadas logo no início. Neste momento, não é tão complicado como nessa altura. Mas, enfim, sabe que temos uma situação em que não estamos muito contentes, mas, acima de tudo, a nossa vontade de continuar é total. Queremos continuar a apostar em Angola.

Porque quando entram nesses mercados suponho que criam uma fidelização de clientes, não é?

Obviamente que sim.

Não se pode entrar e sair só porque a conjuntura é negativa, não é?

E, ao fim e ao cabo, a continuidade do mercado angolano é um pouco a continuidade do mercado português. E, digamos, os hábitos de consumo neste aspeto são muito idênticos, tal como Moçambique também é muito idêntico e há, efetivamente, lotes em que temos tido tanto sucesso por essa via.

Mas deixe-me dizer, já agora – é um pormenor que se cruza também com a minha vida profissional -, largaram um pequenino país e um pequenino mercado, que era Timor-Leste… Num momento muito difícil, depois daquela violência, foram ajudar, foram comprar uns lotes, mas, porventura, a qualidade não justificava a continuação, não é?

Foi um pouco isso. Foi, acima de tudo, não pôr os nossos colaboradores em situações que podiam ser extremamente complicadas, ao nível da sua vida, e tivemos o máximo cuidado. Mas, na altura em que tínhamos de lá estar, o meu pai foi.

Pois, eu lembro-me muito bem. Eu também estava lá.

Foi, inclusivamente, acompanhado por familiares, nomeadamente o meu cunhado. E creio que o relacional que conseguiram, em termos humanos, foi extremamente positivo, porque ajudámos os agricultores a repensar todo o seu processo agrícola e isso, para nós, foi um motivo que nos encheu de orgulho porque foi uma ajuda de coração.

Ultima

João Manuel Nabeiro (à esquerda), administrador da Delta Cafés, e Jaime Regojo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados desta edição da Economia Ibérica. António Perez Metelo (de costas) moderou o debate

Se bem que, naquele país, aquilo se transformou num matagal. Enfim, não são cafezais estruturados e precisa, seguramente, de investimentos enormes para voltar a ter aquela qualidade única do café de Timor, que era conhecida. Jaime, pergunto-lhe: a Câmara de Comércio, perante a realidade crescente em vários pontos da nossa fronteira, destas regiões e cidades transfronteiriças, recebe alguma solicitação, tem alguma iniciativa do ponto de vista de aumentar as relações comerciais e, porventura, troca de investimentos entre empresas dos dois lados de uma fronteira que é cada vez mais ténue?

JR – Sim. A Câmara, a sua função principal é ajudar principalmente as empresas espanholas, no seu todo, a virem desenvolver negócios em Portugal. Tal como igualmente ajudamos empresas portuguesas a investir e a vender os seus produtos, a exportar, para Espanha. O assunto transfronteiriço: já, desde há muitos anos, que há regiões mais próximas de Portugal, como sejam a Galiza e a Extre-madura espanhola.

Pois. A região Elvas-Badajoz, por exemplo. E Campo Maior está englobado nessa ideia territorial.

De facto, digamos que há uma cultura, tanto no Norte, em que a língua também ajuda, nesse sentido, como mesmo na zona da Extremadura, em que os dois povos sempre se deram muito bem. Aí dá-se uma inter-relação muito importante em todo o tipo de produtos, que se traduz num comércio bilateral muito grande. A proporção que existe na Galiza e na Extremadura, por exemplo, é o dobro do que existe em relação a outras regiões. Por exemplo, em termos de turismo, quando uma pessoa da Extremadura ou da Galiza… isto é, 50% dessas populações, quando vão de férias, visitam Portugal ao invés de outras regiões de Espanha. E igualmente, as populações portuguesas visitam mais estas regiões espanholas também. No comércio tradicional, a Extre-madura tem uma população menor, mas a Galiza, por exemplo, é de longe o primeiro cliente das exportações nacionais portuguesas, apesar de só ter quatro milhões de habitantes, face aos oito milhões que tem a Catalunha.

João Manuel Nabeiro, a minha última questão. Qual é o seu objetivo empresarial próximo? Que nos possa dizer, enfim, que não seja segredo de negócio, o que é que pretendem fazer a seguir, perante a sua imensa rede de clientes?

Acima de tudo, a satisfação total do cliente é o nosso objetivo.

Está bem, mas isso é sempre, não é? [Risos].

Mas é muito forte, tentar isso todos os dias.

Pois é.

O que é que nós pretendemos mais, de coração?

Não tem nenhum projeto específico?

Há desenvolvimentos específicos do mercado e mercados que são, acima de tudo, muito competitivos. O mercado europeu é extremamente competitivo, extremamente maduro e, para nós, chegar efetivamente, digamos, ao coração da Europa… Há dois dias tivemos a abertura do nosso mercado na Suíça e isso, para nós, é uma chave que nos compromete bastante – embora já lá estivéssemos há bastantes anos. Mas o nosso querer de comunicação com esta nossa Europa, dominada pela nossa vizinha Espanha, que é o nosso mercado natural – e a conversa passa um bocado por aí: em Espanha, temos estes 18 departamentos comerciais, de que falei há bocadinho, mas a nossa ambição é ter mais, obviamente, do que os 24 que temos em Portugal. Portanto, abrir departamentos comerciais novos é um objetivo muito grande. E, acima de tudo, conseguirmos mais postos de trabalho e levar a nossa mensagem a pontos onde queremos, de todas as maneiras, estar agora.

 

Fotos: Orlando Almeida / Global Imagens

Veja a entrevista a João Galileu e Pedro Ruiz

A entrevista com João Galileu, diretor de operações em Portugal da Ingesport, e Pedro Ruiz, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola,realizou-se na sede em Lisboa do banco Popular que convidou, para debater a economia ibérica, para um pequeno almoço os empresários e o jornalista António Perez Metelo

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“A nossa intenção é ter em Portugal dez centros a funcionar”

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola está satisfeita com o êxito de mais um investimento espanhol em Portugal do Grupo Ingesport. Detentor dos ginásios GoFit, o grupo começou a internacionalização pelo nosso país, com a recuperação das piscinas dos Olivais, e tem em mãos o complexo do Campo Grande. Até 2022-2024, a marca  investirá em Portugal cerca de cem milhões de euros

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

35562450João Galileu, da GoFit, Pedro Ruiz, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aqui estamos para falar de uma presença empresarial de raiz espanhola num setor, por ventura, menos conhecido de atividades empresariais: o fitness, a saúde, os ginásios. Fale-nos da GoFit em Portugal e em geral como grupo.

João Galileu (J.G.) – É um grupo que se implementou em 2008 em Espanha e em 2010 tomou a decisão de se expandir internacionalmente pela primeira vez. Em 2015 conseguiu sair fora de portas e a primeira unidade criou-a em Portugal. Recuperámos as antigas piscinas dos Olivais.

Mas já antes saiu para outros países ou não?

Não. Esteve sempre sediada em Espanha.

Portanto, o salto é para Portugal.

O salto, primeiro, é para Portugal. Ou seja, fomos as cobaias, em Portugal, desta internacionalização e deste plano de expansão. Há projeto de irmos para a Polónia e Itália  ainda no decorrer deste ano ou em princípios do próximo, mas neste momento está a solidificar-se todo o investimento que foi feito em Portugal. Até ao final deste ano estamos a falar de um investimento em Portugal na ordem dos 16 a 18 milhões de euros: cada unidade do GoFit, do Grupo Ingesport, ronda  os sete milhões a 10 milhões de euros, depende das unidades.

Porque estamos a falar dos Olivais e  já do Campo Grande.

Do Campo Grande, sim.

Onde estão muito melhoradas aquelas instalações que havia. Recuperaram-nas, não foi?

São instalações que estiveram encerradas ao público durante dez anos. No caso dos Olivais, foi uma requalificação mantendo toda a traça arquitetónica.

Eram conhecidíssimas, as piscinas dos Olivais, não é?

Sim, porque, no fundo, eram conhecidas como a praia de Lisboa.

E eram muito populares.

É verdade. Tinham uma grande penetração não só junto dos cidadãos de Lisboa, mas em todo o distrito, de onde havia muita gente a deslocar-se. Porque estamos a falar de uma instalação de 1967 e que tinha uma interação com a comunidade local e uma presença muito fortes. E, no fundo, foi tentar devolver à comunidade essa instalação. Hoje, felizmente, contamos com 13 mil praticantes: passam lá, por dia, quatro mil pessoas.

E corresponde ao plano de negócios que tinham previsto para esse centro?

Diria que superámos as expectativas porque, na verdade, tínhamos um plano inicial de conseguir chegar [a um número] a dez mil, 11 mil pessoas. Neste momento, podemos orgulhar-nos de conseguir atingir 13 mil pessoas, quatro mil pessoas por dia, o que são números, dentro daquilo que é o nosso setor, extremamente surpreendentes. Além do mais, numa fase crítica que se atravessava dentro daquilo que era o momento económico a nível mundial e principalmente a nível da Península Ibérica, haver uma empresa que fizesse esse investimento numa época de crise e de alguma incerteza, houve aqui um querer muito forte por parte da administração e por parte da empresa em acreditar que, realmente, Portugal reunia as condições para o fazer.

35562421Agora queria ver também o ponto de vista da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, que é sempre um intermediário, um facilitador de negócios. Sendo o Pedro [Ruiz] também do setor, fale-nos da atividade da Câmara neste setor e em termos gerais.

Pedro Ruiz (P.R.) – Nós, na Câmara, estamos radiantes de ter mais uma empresa espanhola a investir em Portugal. Ainda por cima num setor que traz saúde. Mas saúde de verdade, não é como o setor chamado da saúde que é o setor da doença, não é? Eles têm 13 mil sócios que provavelmente não faziam exercício, a maior parte deles.

J.G. – A maior parte deles, 60%.

P.R. – Portanto, esses 60% desses 13 mil, talvez…

Cerca de oito mil.

P.R. – Mas talvez cinco mil tivessem diabetes. Provavelmente já estão curados – isto não é um milagre, é um facto. O exercício físico, seja ele qual for, cura a diabetes, entre outras coisas. Portanto, veio uma empresa espanhola investir em Portugal…

E é a primeira neste setor ou não?

P.R. – Não, já há uma outra empresa espanhola também a investir nesta área.

Muito bem.

P.R. – Portanto, também estão a criar empregos. Quantos empregos é que já criaram?

J.G. – Neste momento, diretos, 70 postos de trabalho.

Nos Olivais.

Nos Olivais.

Porque o Campo Grande ainda não abriu.

O Campo Grande vai abrir no final do trimestre deste ano e, portanto, vai contar com mais 70 postos de trabalho.

No último trimestre deste ano.

Deste ano.

P.R. – E isso são postos de trabalho diretos. [Depois] temos os postos de trabalho indiretos, que estão agora a criar nas empresas de construção portuguesas e todo o…

Depois todo o fornecimento, evidentemente.

Todo o fornecimento. É claro que vão criar algum desemprego nos centros de saúde [risos], nos centros médicos, nos hospitais.

Não, isso não é desemprego, é redução da pressão. Redução da pressão dos utentes.

Redução da despesa do Estado.

Da despesa do Estado, sim. Se for isso, toda a gente ganha.

Portanto, este é que é o nosso trabalho na Câmara de Comércio: é ajudar que as empresas espanholas invistam cá, mas também que as empresas portuguesas invistam e vendam em Espanha.

Mas em termos das empresas não financeiras não se sente qualquer pressão ou qualquer dificuldade de investimentos cruzados, pois não?

Eu acho que nunca houve. Portanto, no mundo empresarial nunca houve nenhuma resistência. Onde existe algum atrito é, digamos, do ponto de vista político, não é? Políticos que aproveitam os nacionalismos para ganhar votos e coisas dessas. Mas [entre] os empresários e os consumidores só queremos maximizar quer os lucros das empresas, de um lado e do outro, como o consumidor minimizar a sua despesa podendo aproveitar as sinergias de empresas de ambos os lados da raia.

João, fale-me do plano de expansão. O primeiro passo a seguir é o centro do Campo Grande.

J.G. – Sim.

Conta passarem de 13 mil sócios para…?

Neste caso, 25 mil.

São mais 12 mil?

São mais 12 mil.

E são zonas muito diferentes da cidade. Serão outros públicos ou será o mesmo estrato social?

Diria que o estrato social, à partida, será o mesmo, embora nós saibamos que geograficamente o Campo Grande está sediado numa zona mais nobre, com outro tipo de poder de compra, e é óbvio que a maioria das pessoas acaba por criar outro tipo de apetência para a prática.

Mas há uma preocupação em atingir estratos menos bem na vida com este conjunto de serviços.

Sim, é verdade.

Através de uma política de preços?

Diria que é através de uma política integrada não só de preço mas de serviço ao cliente.

35562452

Na entrevista com António Perez Metelo (à direita) João Galileu (à esquerda) falou do modelo de negócio e da estratégia de expansão do Grupo Ingesport, a que pertencem os ginásios GoFit. Pedro Ruiz saudou o efeito benéfico do emprego fomentado pela entrada de empresas espanholas em Portugal e garantiu que no setor de health & fitness o mercado português tem muito espaço para crescer

Explique-nos isso.

Na verdade, aquilo que é o nosso posicionamento é que nós, como dizia o Pedro e bem, somos uma empresa de saúde, não de infraestruturas, em que o nosso foco e a nossa missão é fazer com que o cliente viva mais e melhor. Portanto, a nossa filosofia, o nosso posicionamento, é  “desporto para todos”, independentemente do sexo, da idade ou do estrato social ou do poder de compra. E a um preço que é razoável, em que o foco é o agregado familiar, ou seja, não é a pessoa individual: 61% do nosso público advém de famílias.

Portanto, mais de uma pessoa.

Mais de uma pessoa. Conseguimos atingir cerca de 2,9 pessoas por agregado.

São quase três.

São quase três pessoas por agregado familiar.

E aí é que o preço se faz sentir, não é? Nesses pacotes.

Exatamente. É nesses pacotes porque a nossa intenção, o que queremos e desenvolvemos, é um programa adaptado e personalizado para todas as idades. Ou seja, não há nenhuma idade que fique de fora. Há sempre uma solução para essas pessoas dentro daquilo que é o nosso programa inovador de incentivar à prática e à atividade desportiva e de cruzarmos isso com os hábitos nutricionais. Tanto que nós temos a nossa Fórmula Laranja, que é “treine bem, coma saudável e descanse bem”. Porque hoje sabemos que uma parte importante da fórmula é descansar bem.

Sim, ainda não é muito conhecido, mas os problemas ligados à falta de sono e de descanso são problemas que se impõem cada vez mais.

Sem dúvida. Hoje a sociedade cada vez sofre mais com o stress , o dia–a-dia e, na verdade, nós servimos como complemento. Tanto que está presente em todas as nossas instalações no GoFit uma piscina de spa. Isto para que as pessoas possam relaxar, para que se sirvam e olhem para o GoFit como um centro em que possam ter mesmo o lazer, o descanso, o ócio e em que possam divertir-se, acima de tudo, em família também, já que muitas das vezes isso é esquecido.

Esse conceito empresarial é de origem, também está presente nos 14 centros em Espanha.

Sem dúvida.

Portanto, é replicar aquilo que é a razão de ser da formação da empresa, é isso?

Sim, é o nosso modelo de negócio que tem tido muito sucesso em Espanha e que está a tê-lo em Portugal – os números ditam isso. A nossa intenção neste momento é continuar o nosso plano de expansão. Temos previsto nos próximos seis, oito anos, um investimento de cem milhões de euros, dos quais 17 milhões já estão feitos ou praticamente feitos. E a nossa intenção é que em Portugal tenhamos a funcionar cerca de dez centros.

Suspeito que depois de Lisboa vem o Porto, não é verdade? Mas além do Porto estão a pensar espalhar–se pelo território continental, pelas regiões autónomas?

Vai ser difícil.

Porque vi que têm um centro nas Canárias, daí a pergunta.

Temos, mas o centro das Canárias, como tem uma densidade populacional muito forte, aí fazia sentido e justificava-se esse investimento. Aqui só se justifica o nosso investimento e modelo de negócio em centros com grande densidade populacional e vai estar centrado no Grande Porto e na Grande Lisboa.

Ai é?

É. Dificilmente vamos estar presentes noutra área.

Mas se são oito, quer dizer que vão abrir outros centros em Lisboa, além dos do Porto?

Provavelmente podemos abrir mais um em Lisboa e na área da Grande Lisboa. No fundo, vão estar concentrados cerca de sete centros em Lisboa e três no Grande Porto.

As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto é que podem atrair…

Exatamente. Porque o nosso modelo de negócio depende muito da massificação. Na verdade, nós queremos tocar toda a sociedade, independentemente do estrato social, mas para isso temos de estar localizados geograficamente em zonas de grande densidade populacional.

Quando esse plano estiver concretizado – enfim, há de levar anos…

Esperemos que não.

Bem, se fosse para o ano era ótimo. Mas [quando se concretizar isso], quantos postos de trabalho e que volume de negócios é que preveem para tudo isto?

No caso de Portugal [o objetivo] é chegar a uma realidade de 700 postos de trabalho diretos, com um investimento de cem milhões e, no fundo, com uma faturação que andará à volta dos 50 milhões. É desses números que estamos a falar e é essa a realidade que economicamente faz a diferença. No fundo, estamos a falar também de uma realidade que nos permite sonhar com 120 mil utilizadores dos nossos centros e contribuir para o aumento da atividade física e principalmente da vida ativa das pessoas.

Porque esses 120 mil, se forem divididos por oito, dá 15 mil utentes por cada centro.

Por cada centro.

Esse já é um ponto de equilíbrio bom para o GoFit?

Sim, esse é o nosso ponto de equilíbrio, em que os acionistas ficam muito satisfeitos.

Podem operar com menos, mas isso é útil.

Sim, é verdade. Mas aquilo que nos deixa mais satisfeitos e é mais gratificante é ver que, no fundo, mudamos a vida das pessoas. Portanto, a nossa missão diariamente é mudar a vida das pessoas e sermos um catalisador para que essas pessoas consigam ter uma vida mais ativa e melhor.

Pedro, sobre estas indústrias do lazer, digamos assim, da qualidade de vida – sobretudo num padrão de envelhecimento muito rápido da população portuguesa – tem sinais na Câmara de Comércio e Indústria de que este setor possa expandir-se em termos de investimento, no nosso país?

P.R. – Sim, este setor está a expandir-se. Há quatro anos tínhamos uma percentagem de penetração na sociedade portuguesa de 5%. Neste momento chegamos a 7%, em parte, graças à GoFit, que não entrou praticamente em concorrência com a oferta existente, porque vieram com uma oferta completamente diferente para famílias de classe menos alta e, portanto, estão a fazer crescer o mercado.

Estão a alargar, não é?

Estão a alargar o mercado. O mercado ainda está a precisar [destes centros]. E por isso é que está a crescer não só a cadeia deles mas outras cadeias, porque a oferta não estava a chegar a toda a população.

Seguramente, na Europa, o público-alvo é mais amplo do que este que ainda não existe em Portugal, não é?

Sim. Na Europa, a média é de 10%, em Portugal ainda estamos em 7%. Mas o nosso objetivo é chegar rapidamente – em cerca de dez anos – aos 20%. Há países, por exemplo  aqui ao lado, Espanha, que estão em 16%. É mais do dobro. Em parte  devido às empresas como a GoFit e outras concorrentes.

A indústria deve ser, portanto, muito forte em Espanha, não é?

P.R. – É muito forte.

J.G. – É fortíssima.

P.R. – É. Mas noutros países, como os Estados Unidos, ainda é superior, 18%. Isto é um nível, é uma medida muito, muito exata do nível de vida e sociocultural. Por exemplo, na Suécia, a penetração é de 30%, na Noruega é de 30 e tal por cento.

Devem ser as percentagens mais altas, não é?

São. Embora haja cidades com percentagens mais altas, como Barce-lona e Nova Iorque, com 40%. Ou seja, 40% das pessoas vão ao ginásio.

Pois, o que quer dizer que aqui há margem para mais investimento.

O mercado é enorme.

Há margem para mais investimento e para a expansão das empresas que cá operam.

E para novos conceitos. Por isso o que estamos a ver é que estamos todos a concorrer para um pequeno número de pessoas que têm dinheiro e disponibilidade para a oferta atual.

Pois. Perante isto, perante a oferta e o reconhecimento de que há a possibilidade de expansão, a questão dos preços é muito relevante. Não teme uma concorrência de preços em queda para, no fundo, roubar clientes aos outros?

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João Galileu (ao centro), diretor de operações da GoFit, cadeia de ginásios do grupo espanhol Ingesport, e Pedro Ruiz (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados de mais uma edição da Economia Ibérica, moderado por António Perez Metelo (à esquerda)

J.G. – Hoje assiste-se a uma penetração muito forte no mercado. De há cinco anos a esta parte – foi quando entraram as empresas de low cost em Portugal, tiveram forte implementação e continuam a ter. É um serviço que é destinado a um outro tipo de público-alvo, à pessoa mais individual, àquela pessoa que domina a disciplina do treino, tem algum conhecimento próprio, é automotivada para a atividade física. O nosso público-alvo é o agregado familiar, é um outro tipo de público, que procura outro tipo de vetor para aquilo que é a sua vida ativa, nomeadamente para aquilo que  é a melhoria do seu bem-estar, acima de tudo. Quando falamos na questão da penetração em que o Pedro falava há pouco, a verdade é que hoje ainda continuamos a assistir a uma sociedade, principalmente em Portugal, em que cerca de 80% da população continua a ser sedentária. E aqui claramente [isso] leva a que o sucesso da expansão também está pendente disso. Porque na verdade continuamos  a ter muita gente sedentária ainda, em que existe capacidade e probabilidade de sucesso daquilo que é o nosso negócio. A verdade é que nós assentamos claramente em programas de saúde; é a forma como tentamos conectar-nos com o cliente. Há pouco o Pedro colocou a tónica naquilo que são as patologias frequentes dos nossos clientes. Porque   as pessoas partem do princípio de que o nosso cliente está bem, saudavelmente, mas eu diria que 60% a 80% dos nossos clientes têm uma patologia qualquer.

Diabetes, por exemplo.

Por exemplo, hipertensão, doenças cardiovasculares, dores nas costas, stress… Ou seja, temos uma série de patologias frequentes que nós temos, digamos, capacidade também de tratar. Porque hoje está comprovado cientificamente que o exercício físico melhora ou cura realmente todas essas patologias.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens