“Podíamos ser um Benelux ibérico”

Conferência Mercado Ibérico. A ideia de uma maior integração dos mercados de Portugal e Espanha foi defendida por vários especialistas

 

 

Portugal e Espanha só teriam a ganhar com uma maior integração dos dois mercados. E essa integração até poderia estender-se à investigação científica ou a projetos conjuntos em setores como o turismo e outros. Portugal e Espanha podiam mesmo funcionar como “um Benelux da Península Ibérica”, combatendo assim a condição periférica que os prejudica. Estas foram as conclusões mais marcantes que resultaram da conferência final da rubrica Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço, que ontem decorreu no CCB, em Lisboa, e reuniu especialistas do mercado ibérico e de vários setores da economia.

Nuno Ribeiro da Siva, presidente da Endesa Portugal e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola

Nuno Ribeiro da Siva, presidente da Endesa Portugal e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola

A ideia de um Benelux económico partiu de Nuno Ribeiro da Silva, membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola e presidente da Endesa Portugal, que falava acerca do mercado do gás e eletricidade. “Mas isto pode aplicar-se em diversas coisas”, garantiu durante a sua intervenção.

A competitividade do mercado português – ou a falta dela, em muitos setores -, uma legislação e políticas públicas de investimento hesitantes ou pouco claras e a carga fiscal em Portugal foram outros dos fatores apontados para melhorar pelos participantes convidados.

A conferência reuniu empresários do setor turístico, agrícola, da energia e de wellness (ginásios), além dos representantes das câmaras de comércio e indústria, tanto portuguesa como luso-espanhola, e do diretor do AICEP em Madrid.

Durante a sessão de abertura ,  Carlos Álvares, presidente do Banco Popular e entidade coorganizadora desta iniciativa juntamente com os jornais DN e JN e com a TSF, sublinhou dados que demonstram a importância mútua dos dois mercados. “Espanha é o principal destino das nossas exportações”, absorvendo um quarto do seu volume total, e é o seu principal fornecedor – um terço das importações portuguesas vêm de Espanha. Por sua vez, “Portugal é o quarto maior cliente de Espanha, com uma quota de 7,5%, e o seu 8.º fornecedor”, destacou Carlos Álvares. Tudo razões mais do que suficientes para manter uma aposta forte nas relações bilaterais com Espanha.

Mas há outra aposta que é preciso fazer: divulgar mais e melhor Portugal em Espanha. O muito que ainda há fazer neste campo foi o que salientou o presidente do conselho de administração do Global Media Group (GMG), detentor dos jornais DN e JN e da TSF. Daniel Proença e Carvalho, que em nome do GMG deu as boas-vindas aos participantes, afirmou: “Quanto ao turismo, penso que ainda há muitos espanhóis para descobrir Portugal. Ainda há um trabalho muito importante para promover o nosso país lá fora.”

A encerrar a conferência, esteve o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que fez uma exposição resumida dos resultados dos setores económicos com melhor performance em 2016.

A conferência de ontem, que foi o culminar de uma série de entrevistas que, desde março, debateram o mercado ibérico, as suas vantagens e oportunidades, encerrou a rubrica Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço.

 

Texto: Adelaide Cabral
Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Lisboa , 23/11/2016 - Realizou-se esta manhã no CCB em Lisboa a conferência Ecomomia Ibérica do Banco Popular. Luís Moura Director da AICEP Madrid; Pedro Madeira Rodrigues Sec. Geral C. Comércio e Industria Portuguesa; Nuno Ribeiro Silva Presidente da Endesa Portugal (Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)

O segundo painel da conferência sobre mercado ibérico que reuniu ontem vários especialistas no CCB para encerrar a série de entrevistas Economia Ibérica ao Pequeno-Almoço, que desde março permitiu analisar o estado das relações económicas entre Portugal e Espanha, numa iniciativa que juntou o Banco Popular, o DN, o JN e a TSF Luís Moura Director da AICEP Madrid; Pedro Madeira Rodrigues Sec. Geral C. Comércio e Industria Portuguesa; Nuno Ribeiro Silva Presidente da Endesa Portugal
(Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens)

É preciso transações mais ágeis entre Portugal e Espanha

Estratégia. Presidente do Banco Popular deixa recados ao governo e partidos políticos sobre medidas urgentes a tomar

Carlos Álvares sintetizou três passos

Carlos Álvares defende que Portugal devia ter por meta figurar no Top-10 da competitividade mundial

 

O aumento da competitividade do mercado português e a necessidade de agilizar as transações entre os dois vizinhos ibéricos são a chave para um futuro de crescimento em Portugal. Pelo menos é esta a opinião do presidente do Banco Popular, que ontem falou na conferência Mercado Ibérico.

Carlos Álvares sublinhou que Portugal caiu neste ano três lugares no ranking da competitividade mundial, passando do 36.º posto para o 39.º, e que isso tem forte impacto na capacidade de o país atrair investimento estrangeiro, o que, por sua vez, tem repercussões no desenvolvimento da sua economia. “O nosso desígnio nacional deveria ser o de figurar no top 10 da competitividade e atratividade para o investimento”, considerou o presidente do Banco Popular.

Para que Portugal se torne mais atraente aos investidores, Carlos Álvares avançou três pontos que, enquanto presidente de um banco com forte presença em ambos os lados da fronteira e profundo conhecimento do mercado ibérico, considera imperativo melhorar. Desde logo, é preciso políticas públicas de investimento mais estáveis. Afirmando que “não se pode andar sempre para a frente e para trás”, como acontece com frequência, o presidente do Banco Popular defende que “era fundamental haver um acordo a dez ou 15 anos entre os principais atores políticos” no que respeita às políticas públicas de investimento.

Um outro passo importante que aconselha para Portugal é a simplificação das leis que nos regem. Porque a morosidade da justiça, dos processos de licenciamento e outras burocracias geram “entropias no desenvolvimento do país”.

Por fim, e também vital, na opinião de Carlos Álvares, é que Portugal tenha uma “política fiscal mais previsível e amiga dos investidores”. Se estes três pontos forem melhorados, “não tenho dúvidas de que terão grande impacto na melhoria da classificação de Portugal” em termos de competitividade, concluiu.

 

Testemunho que ficou

37979276“É fundamental que as autoridades promovam a simplificação da legislação para o investimento, assim como a melhoria da previsibilidade fiscal.”
Carlos Álvares,
Presidente do Banco Popular

 

Texto: Adelaide Cabral
Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Portugal ainda é ilustre desconhecido em Espanha

Promoção. A imagem de Portugal, dos seus produtos e serviços ainda é negativa além-fronteiras. É preciso melhorar a imagem do país e mudar mentalidades, mesmo a dos governos

 

Existe um enorme desconhecimento de Portugal em Espanha, nomeadamente no que se refere à qualidade dos seus produtos e serviços. Por isso, aumentar a promoção do país e a sua competitividade para atrair mais investimento castelhano são dois dos passos mais importantes a dar na estratégia bilateral com os vizinhos espanhóis. Mas há outros igualmente essenciais. Quem o diz são os especialistas que ontem participaram no primeiro painel de debate da conferência Mercado Ibérico, que decorreu no CCB, em Lisboa.

O tema proposto para discussão foi “Reforçar os negócios de Portugal e Espanha num mundo global”.  E a este propósito, Pedro Madeira Rodrigues, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), diz que ainda há muito a fazer para que se intensifiquem as relações bilaterais. “Todas as empresas que responderam ao último inquérito da CCIP têm um enorme interesse em Espanha, mas muitas nem sequer deram o primeiro passo”, lamenta aquele responsável.

A boa disposição marcou as intervenções do primeiro painel de debate

A boa disposição marcou as intervenções do primeiro painel de debate. As palavras de Pedro Madeira Rodrigues (à esq.) fizeram rir Nuno Ribeiro da Silva.

Segundo Madeira Rodrigues, há “uma clara complementaridade de mercados” entre os dois países ibéricos, mas as aptidões e a qualidade do mercado português continuam desconhecidas em Espanha. “Eles devem olhar como nós olhamos para os produtos da Polónia e da Roménia, com uma certa desconfiança”, disse, pelo que é preciso investir na melhoria da nossa imagem além-fronteiras.

Já Luís Moura, diretor da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) em Madrid, salientou que Portugal não se pode dar ao luxo de descurar o mercado espanhol como seu principal parceiro. “Hoje em dia, Espanha é o destino de 3% do investimento estrangeiro mundial”, sublinhou.

Segundo este responsável, “o mercado espanhol é muito competitivo”, logo difícil. Pelo que, para as empresas e empresários, Luís Moura só tem um conselho: “Prepararem-se para isso, para a selva que existe do outro lado da fronteira. É  preciso estar preparado e ser agressivo.”

Anselmo Crespo, subdiretor da TSF moderou o 1º painel de debate, em que participou também Luís Moura, diretor da AICEP Madrid

Anselmo Crespo, subdiretor da TSF, moderou o 1º painel de debate, em que participou também Luís Moura, diretor da AICEP Madrid

Nuno Ribeiro da Silva, presidente em Portugal da energética espanhola Endesa e membro da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, usando o exemplo do mercado do gás e da eletricidade nos dois países ibéricos, criticou a falta de eficiência e articulação entre os governos e organismos ibéricos. “Os problemas de constituição e operacionalização do MIBEL e do MIBGAS vêm essencialmente dos governos e não das empresas”, afirmou.

Segundo o presidente da Endesa, não é só na energia e nos combustíveis que se sente o facto de estarmos separados do resto da Europa pela cordilheira dos Pirenéus. É precisamente por esta situação periférica que Portugal e Espanha deveriam agir em conjunto em vários setores. “Podia haver um maior foco dos governos dos dois países em fazer sementeira. Quero dizer, no plano das universidades, dos centros tecnológicos, laboratórios do Estado, etc.” No entender de Ribeiro da Silva, isto permitiria que as equipas de profissionais se conhecessem e “estaríamos a fazer sementeira do conhecimento dessas gerações que serão os investidores futuros, mudança de mentalidades”.

 

Alta Competitividade
A aposta é em nichos de mercado

37981247Para mercados de grande competitividade e o elevado grau de exigência, como o espanhol, um dos segredos de penetração está na especialização e nos nichos de mercado, diz José Maria Rasquilha (na foto), administrador da Cersul (que reúne produtores de cereais portugueses). No caso da Cersul, a empresa tornou-se o principal de fornecedor de baby foods da Nestlé, feita à base dos seus cereais, e de cevadas de malte para as cervejeiras.

 

 

Testemunhos que ficaram

37979615“Agora, com o brexit, corremos o risco de ficarmos ainda mais periféricos, portanto, Portugal e Espanha têm de se unir. E os governos têm de agir nesse sentido.”
Pedro Madeira Rodrigues,
Secretário-geral da CCIP

lm“Na AICEP Madrid recebemos mais pedidos de empresas espanholas a quererem fornecedores em Portugal do que de empresas portuguesas a quererem implantar-se em Espanha.”
Luís Moura,
Diretor da AICEP Madrid

37979707“Os governos resolvem adotar medidas que vão no sentido de divergência de regras, o que leva a não se ter um tabuleiro comum para as empresas competirem em aberto.”
Nuno Ribeiro da Silva,
Presidente da Endesa Portugal e membro da CCILE

 

Texto: Adelaide Cabral
Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

“A Endesa, na Península Ibérica, tem uma posição de liderança”

Para a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, o alívio fiscal sobre o setor da energia é essencial para aumentar a competitividade da Península Ibérica. A Endesa conta como, apesar da redução da procura e dos desafios e custos impostos pela proteção do ambiente, ainda há espaço para prestar serviços de qualidade e, pela diferença, assumir a dianteira face aos restantes operadores

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36195938Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal, e António Belo, membro da direção da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE), sejam muito bem-vindos a esta Economia Ibérica. Nuno, começo por si. Vi pelos números que a Endesa copiosamente publica, com grande atualidade de facto, que este negócio não está em expansão, está numa situação de cortes no produto final – embora no gás não, mas em termos gerais. Portanto, está, penso eu, numa grande recomposição. Para já, para começar, qual é a posição da Endesa na Península Ibérica?

Nuno Ribeiro da Silva (N.R.S.) – A Endesa, na Península Ibérica – e incluindo também as ilhas Canárias e as Baleares – tem uma posição de liderança, enquanto primeiro fornecedor em termos de energia elétrica e segundo no gás natural. Porque hoje, cada vez mais, há uma estreita associação na prestação de serviços, portanto, de venda a clientes, de eletricidade e de gás. Aí [a Endesa], tem uma posição de liderança. Em Portugal, é o segundo operador. Portanto, a seguir ao incumbente…

A EDP, claro.

A Endesa tem cerca de 20% do mercado elétrico em Portugal.

E vejo que está a crescer no segmento liberalizado, não é?

Sim, está a crescer no segmento liberalizado, nomeadamente junto do que nós chamamos grande público, ou seja, no fundo, nas nossas casas, clientes domésticos.

O que, em comércio, se diria o retalho, não é?

Exatamente. Onde, ainda, o mercado está muito centrado na incumbente, embora liberalizada já a maior parte da procura do consumo. No entanto, essa liberalização digamos que tem um “se”, que é o facto de o incumbente dispor de cerca de 85% do mercado no segmento doméstico. Já no segmento empresarial há uma repartição muito mais equilibrada de quotas e a Endesa, inclusivamente, lidera, à frente dos outros operadores, o segmento chamado de clientes industriais. Essencialmente, estamos a falar de grandes consumidores.

Claro. Já lá iremos, aos desafios que este setor está seguramente a pôr à Endesa e a todas as empresas desse setor. António, pergunto-lhe a si: Que ecos desta questão da energia elétrica – fala-se tanto, é tão discutido hoje, nas instâncias políticas e na praça pública, a importância vital da recomposição deste setor – se ouvem na Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola por empresas de um lado e de outro da fronteira que ainda existe entre nós?

36195956António Belo (A.B.) – A Câmara de Comércio tem excelentes representantes do setor energético, como é o caso do engenheiro Nuno Ribeiro da Silva, que, de alguma forma, transportam para o seio da organização, efetivamente, uma informação muito interessante acerca da evolução do setor cá em Portugal. Como o engenheiro Nuno Ribeiro da Silva terminou de comentar, efetivamente o setor tem apresentado uma evolução extremamente positiva e há uma abertura que se reflete especialmente no grande consumidor, como acabou de ser dito, por ganhos efetivos face à concorrência que se começou a verificar nos últimos anos. Hoje temos um conjunto de operadores com quotas bem distribuídas que beneficiam, de alguma forma, o consumidor final. E quando estamos a falar…

E a abertura dos mercados foi feita de forma, digamos…

Bastante natural.

Bastante natural, gradual, sem repelões.

Bastante natural. Pelo menos, é essa a sensação do consumidor. Mais na perspetiva do consumidor, é a isso que se assiste. Como foi referido, o setor produtivo tem sido bastante beneficiado com isso, mas também, na perspetiva do particular, penso que estão a ser dados passos bastante importantes nesse sentido. Apesar, julgo eu, de alguma especulação que gira sempre à volta do setor, dos custos que a energia tem em Portugal, aquilo que vai sendo bastante evidente é que nós, a esse nível, nos posicionamos até dentro de uma realidade comparativa com a Europa bastante razoável. Pelo menos é a sensação que vou tendo, não só como consumidor como dos ecos que beneficio dentro da Câmara do Comércio.

Nuno, nós conhecemo-nos há muito tempo e eu sempre o vi com grandes preocupações ecológicas. Suponho que muito antes de ter assumido as sucessivas responsabilidades maiores até chegar a esta posição. Para as empresas como a Endesa, esta nova visão do problema dos gases com efeito de estufa, da sustentabilidade energética do planeta, etc. representa um grande desafio de se repensar e de se restruturar, não é assim?

N.R.S. – É. É um desafio de primeira prioridade, de segunda prioridade e de terceira prioridade. Em particular o setor energético – não só o elétrico mas também a área dos derivados do petróleo, etc. -, digamos que é o inimigo público número um sob o ponto de vista ambiental. Não só em termos de emissões dos chamados gases de efeito de estufa mas também nas cadeias energéticas existe todo um conjunto de operações de grande risco e, muitas vezes, de agressividade para o ambiente.

Sim. Desde a extração até ao transporte em alta tensão, que provoca controvérsia sobre os campos que ela produz à volta, etc. Tudo isso.

Exatamente. Quer dizer, a extração dos combustíveis primários – o carvão, o petróleo, o gás -, depois o transporte… Não é raro haver acidentes no transporte: roturas de pipelines, navios que sofrem acidentes, derrames de todo o tipo. Depois, as transformações sucessivas até ao que nós chamamos a energia final, que é aquela que nós servimos ao cliente para utilização e que não é o carvão em bruto ou o petróleo ou o gás em bruto.

Claro.

A transformação para a eletricidade. Portanto, há toda uma cadeia, uma fieira de operações extremamente sensíveis, com quantidades colossais a serem manipuladas, manuseadas, transformadas e que estão associadas a riscos ambientais. [Estes riscos] têm sido mitigados. De qualquer forma, o problema hoje mais crítico, que é este repto que estamos a fazer à atmosfera e ao planeta com as emissões de gases com efeito de estufa, com impacto nas alterações climáticas, é, para as empresas elétricas em particular, um desafio definitivo, que condiciona enormemente toda a perspetiva e as decisões das tecnologias a que nós recorremos para produzir a eletricidade que é necessária. Uma variável absolutamente crítica, hoje, é saber, depois de toda a discussão que tem havido recentemente com Paris, com a chamada Conferência COP-21, o preço que o CO2 irá ter, digamos, no mundo, no mercado mundial.

Nuno Ribeiro da Silva, administrador da Endesa Portugal (à esquerda), explicou como é possível ser líder num mercado de grande maturidade como o da energia. António Belo (à direita) falou dos ecos que a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola recebe dos seus associados de ambos os lados da fronteira quanto ao setor energético

Nuno Ribeiro da Silva, administrador da Endesa Portugal (à esquerda), explicou como é possível ser líder num mercado de grande maturidade como o da energia. António Belo (à direita) falou dos ecos que a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola recebe dos seus associados de ambos os lados da fronteira quanto ao setor energético

Portanto, deixa de ser um problema difuso, fora dos preços, que alguém há de resolver, para se meter o problema dentro e pôr-lhe o preço certo, digamos assim.

Exatamente. O que, aliás, é fundamental. Ou seja, há sempre duas maneiras de atacar este tipo de problemas: ou é como um ato administrativo a proibir ou então é integrar na economia…

Fazer pagar.

… e fazer pagar, um pouco dentro do princípio generalizado do poluidor-pagador. Portanto, uma variável importantíssima para estabilizar as angústias com que as empresas elétricas hoje se confrontam quando têm de optar por fazer uma central a gás ou uma central a vento, ou a água, ou a sol, ou nuclear é quanto ela vai custar com a adoção das medidas que foram negociadas pela comunidade mundial, nomeadamente na COP-21 e quanto vai custar a emissão de uma tonelada de CO2.

E diga-me, muito precisamente, a Endesa Portugal – já percebi que tem isso na sua agenda – está a proceder a modificações internas para fazer face a estes novos desafios?

Sim. Fizemos, por exemplo, uma adaptação dos equipamentos de emissão de uma central a carvão…

Para diminuir as emissões, claro.

Para diminuir as emissões.

Qual é a central?

A do Pego, portanto, ao pé de Abrantes. Agora, esses equipamentos que instalámos diminuíram as emissões de NOx, ou seja, de óxidos de azoto, de produtos sulfurosos, de partículas, mas o CO2 não temos, hoje, maneira…

De o travar devidamente.

De evitar a sua emissão. Resulta de operações físicas e químicas.

Muito bem. Há uma polémica que não se cala, digamos assim, de rendas excessivas no setor elétrico em Portugal. Com o conhecimento que a câmara tem da situação em Espanha e em Portugal, qual é a ideia da CCILE em relação a isso, se é que entrou nessa discussão? É possível, a pouco e pouco, ir reduzindo os preços do Kilowatt para os cidadãos em geral, em primeiro lugar em Portugal e, porventura, também em Espanha?

A.B. – Vamos lá a ver, a ideia que tenho sobre essa questão – e volta à…

Porque esta questão está ligada à anterior, não é?

Exatamente, volta à questão anterior que me foi colocada. Eu julgo que, do ponto de vista da eficiência e do ponto de visto produtivo, o setor elétrico tem dado passos muito significativos em Portugal. Acho que é uma boa referência do ponto de vista europeu, se quisermos, e não me parece que seja por aí que, efetivamente, essa escala, que está a colocar, seja colocada ao mercado português. Penso que se algum fator há que otimizar, apesar dos tempos bastante difíceis que passamos a esse nível cá em Portugal, será a questão fiscal. Há espaço, do ponto de vista fiscal, para melhorar substancialmente a nossa competitividade a esse nível, comparativamente com…

Mas isso é baixar impostos, não é? Isso é baixar receitas do Estado. É isso que me está a dizer, não é? [Risos].

Exatamente.

Os tempos estão difíceis para isso, como também concederá.

Era o que eu terminava por dizer.  Efetivamente, o contexto não é nada favorável. Dificilmente o governo português conseguirá atingir os objetivos que persegue, com uma recuperação que era bastante necessária, nomeadamente para o fortalecimento da economia portuguesa do ponto de vista das medidas fiscais, da política fiscal, que o país tem. Portanto, julgo que também no setor energético, isso teria um impacto e um resultado bastante significativo. Julgo que este será o aspeto mais importante do ponto de vista dessa questão, das rendas, que está a colocar.

Nuno, quer dizer alguma coisa sobre isto?

N.R.S. – Só dois comentários na sequência dessa referência. Mesmo falando nos nossos dois países, Portugal e Espanha, por exemplo uma outra área que não tanto a eletricidade mas os combustíveis, em que frequentemente aparece a referência a que as gasolinas ou os gasóleos são mais baratos em Espanha ou em Portugal, etc. Isto coloca diretamente o dedo na ferida deste ponto da fiscalidade. E, nomeadamente, em dois países tão próximos, tão integrados como os nossos e as nossas economias.

É isso que explica os diferenciais de preço, não é?

É isso que explica. No caso, por exemplo, dos derivados do petróleo, o que acontece é que a Espanha tem uma fiscalidade na gasolina e no gasóleo, para facilitar, que é inferior à media europeia e nós temos uma fiscalidade superior à média europeia. E, portanto, o contraste é grande.

Pois. Isso é claro.

Depois, no caso em particular da eletricidade. Se formos ver os custos de produção e de serviço elétrico ao consumidor…

Ou seja, os custos económicos diretos.

Os custos económicos, exatamente. O sistema espanhol e o português compara muito bem como resto da Europa. O que acontece é que, efetivamente – desculpe a expressão, António -, se utiliza um bocado, nomeadamente o setor elétrico, como o saco onde cabem toda uma série de medidas de política que não têm nada que ver com o setor elétrico. Recentemente decidiu-se atribuir a um milhão de famílias…

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Nuno Ribeiro da Silva (à esquerda), da Endesa Portugal, e António Belo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e foram os convidados de António Perez Metelo em mais uma edição da Economia Ibérica

Uma taxa social.

Uma taxa social, uma tarifa social, portanto, eletricidade subsidiada. Bom! Quem paga – às vezes os reclames, da propaganda política, que aparecem na rua dão outra ideia – isso são as empresas elétricas, não é o Estado. Por exemplo, a União Europeia diz e aponta que, sim senhor, se um governo decide uma atribuição de um subsídio, por qualquer razão, de natureza de política social, de política de desenvolvimento regional, de solidariedade nacional, o que seja, isso deve ir ao bolso específico. Ou seja, seria algo a ser suportado pela Segurança Social, não o sistema elétrico.

Pois, mas não é?

Portanto, estamos realmente  – e só para se ter uma ideia e para terminar – com uma carga fiscal sobre a eletricidade em que quase dois terços, digo bem, quase 66% do que pagamos na fatura elétrica, não tem nada que ver com os custos económicos da eletricidade.

Nuno, peço-lhe agora respostas mais rápidas, mas queria-lhe perguntar: Do ponto de vista do emprego e do volume de negócios, que perspetivas há para o resto do ano de 2016 e 2017? Estabilização? Expansão moderada? O quê?

Eu diria expansão moderada. Expansão moderada até porque, como o António disse no princípio…

Tem havido uma retração.

Exatamente. Não tem havido um aumento da procura, que é uma situação também única na história, digamos. Não tem havido. Em parte por boas razões, porque há reflexões importantes de todas as medidas…

Pois, pois. É que a maior eficiência energética representa menos necessidade de oferta.

Exatamente. Mas isso é positivo, porque há menos emissões, há toda uma série de efeitos positivos.

Por isso é que eu dizia que todos estes movimentos são desafios para as empresas.

Exatamente, imensos, imensos. Não quero exagerar o adjetivo e não costumo inflacionar a minha verve, mas está-se, de facto, num momento histórico de um conjunto de desafios para o setor energético em geral e elétrico em particular como realmente nunca ocorreu. Mas dizendo que, apesar de a procura global estar praticamente estagnada – até porque as nossas sociedades já estão muito maduras em termos de eletrificação -, pode–se dar um salto com a mobilidade. Portanto, o consumo dos transportes e dos veículos que usamos, os particulares, pode começar a virar para a eletricidade. Mas a nossa perspetiva, enquanto Endesa, é de facto um crescimento moderado, com particular ênfase nas vendas de gás natural, também, na eletricidade, no segmento doméstico e no que nós hoje chamamos de serviços de valor acrescentado. Ou seja, hoje uma empresa elétrica não pode só pensar que vende unidades de eletricidade – kW/h – e unidades de gás – m3 de gás, tem de começar a prestar crescentemente serviços de valor acrescentado.

Dê-me um exemplo, muito rapidamente.

Por exemplo, aconselhamento a clientes, manutenção de equipamentos, no caso da indústria, ser parte ativa na otimização da gestão e da eficiência energética. E depois entrávamos em aspetos técnicos, como a diminuição de energias reativas, condensadores…

Não, claro, não. Não vamos a isso, porque ainda lhe quero fazer uma última pergunta para uma resposta telegráfica. Para a Endesa Portugal são importantes os esforços de conectividade com o resto da Europa, que se estão a fazer, na medida em que ainda se fala que a Península Ibérica é uma jangada de pedra, do ponto de vista da conectividade energética?

Exato. Espanha e Portugal estão muito bem interconectados. Isso vê-se. Vê-se que no mercado ibérico, no chamado Mibel, os preços, num e noutro país são praticamente sempre iguais.

Mas o problema é com a França, não é?

Mas o problema é com a França. No gás natural é que ainda há coisas a fazer. Porque a maturidade, digamos, do mercado ibérico da eletricidade é diferente da do mercado gasista na Península Ibérica. E depois há esse problema da barreira dos Pirenéus. Eu diria mais, da barreira da França…

Pois, é uma barreira política.

É uma barreira política, mais propriamente do que uma barreira física.

Mas espera desenvolvimentos proximamente?

Eles estão a correr, com alguma resistência, mas de qualquer forma com o empenho político muito grande da própria Comissão Europeia e da parte de Portugal e de Espanha. E é, de facto, muito importante, quer em termos de preços, quer em termos de segurança, quer em termos de uma integração normal de uma coisa tão importante para a nossa vida como é a energia, que se acelere, se acentue, se aumentem as ligações e as autoestradas de eletricidade e de gás entre a Península Ibérica e o resto da Europa.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

“A Cepsa é a mais portuguesa das empresas espanholas”

No que toca à atuação das petrolíferas, o papel da Câmara de Comércio Luso-Espanhola é menos o de mediar e mais o de esclarecer os seus associados sobre o setor em Portugal. Isso mesmo confirmou a Cepsa, empresa espanhola que, há 53 anos, não precisou de mediações para entrar em Portugal: por aqui começou a sua expansão, aqui quer consolidar a sua presença e, entretanto, já chegou a 80 países

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

cRuth Breitenfeld, vice-presidente da Cepsa Portuguesa, Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE). Ruth, para a Cepsa, multinacional presente em 80 países, qual é a importância que tem Portugal?

Ruth Breitenfeld (R.B.) – Por um lado, Portugal foi o primeiro país pelo qual a Cepsa começou a sua internacionalização.

Foi em 63, não foi?

Foi em 1963. Eu já tinha 1 ano. [risos]. A Cepsa decidiu começar a sua internacionalização por aqui e eu considero a Cepsa a mais portuguesa das empresas espanholas, porque realmente tem uma vocação de futuro em Portugal. Estamos há mais de 50 anos em Portugal e queremos ficar, pelo menos, outros 50 ou muito mais. É nesse sentido que estamos a trabalhar e a definir as nossas estratégias de crescimento. Entretanto, a Cepsa foi mudando ao longo dos anos, foi evoluindo e foi crescendo. Nos anos 1980 começa a sua vertente na área da exploração. Começa também, em Portugal, a distribuição de lubrificantes, cria o seu primeiro posto de abastecimento, na altura em Macedo de Cavaleiros, no final dos anos 1980, creio. Espero não me enganar na data.

E depois compraram duas redes.

E depois cresceu, de forma bastante suportada, comprando duas redes – a da Elf e a da Total.

Pois. Têm uma presença visível.

Sim. Eu diria que estamos em mais de meio milhão de lares portugueses e não só através dos nossos combustíveis. É uma vertente interessante, mais internacional da Cepsa.

São os produtos químicos.

Exatamente.

Que é uma coisa muito pouco conhecida, curiosamente.

É verdade.

Fale-nos disso, porque é importantíssima essa produção da Cepsa, à escala mundial até.

À escala mundial e é um elemento de enorme orgulho, que nos faz sentir muito bem: pensar que a Cepsa é líder mundial na produção da matéria-prima LAB, que é o que é utilizado para detergentes biodegradáveis. E é realmente líder mundial, o que significa que uma em cada cinco lavagens de máquina é feita com produtos Cepsa. Sabias? [risos].

bLuisa Cinca (L.C.) – Por acaso, não sabia.

Eu não fazia a mínima ideia. À CCILE queria perguntar: empresas desta dimensão não passam por uma mediação ou facilitação de negócios da câmara, não é?

L.C. – É verdade. Não precisam tanto do apoio da câmara.

Mas o setor da energia é muito importante para a CCILE.

É. O setor energético tem sido muito importante para a câmara. A CCILE, nos últimos anos, tem feito vários seminários sobre o setor energético para esclarecer os sócios. Porque o sistema é complexo e o panorama é diferente nos dois países e os nossos sócios precisam de esclarecimentos. Neste sentido, o papel da câmara tem sido mais o de esclarecimento e de prestar informação quanto ao setor energético em Portugal.

Mas ultimamente há maior coordenação dos dois governos para coisas do interesse comum.

Efetivamente tem sido feito um esforço enorme por parte dos dois governos em unificar, um bocado, as políticas e os sistemas.

A nível do gás, da produção de eletricidade, das conexões com o Magrebe e com a França, não é?

Sim, o que nem sempre é fácil porque é um setor muito complexo.

E de grandes interesses. Estamos a falar, Ruth, de uma empresa cujo volume de negócios é de 17 mil milhões.

R.B. – Pois, é muito. Naturalmente.

Um décimo do PIB de Portugal, com mil milhões de volume de negócios em Portugal, certo?

Sim.

Fale-nos da situação do negócio em Portugal.

A nossa estratégia em Portugal é crescer de forma sustentada. Não queremos quantidade a todo o custo, queremos qualidade. E qualidade de serviço ao nosso cliente. Portanto, queremos apostar em produtos tecnológicos, que tragam um valor acrescido àquilo que o cliente procura. O nosso cliente procura qualidade, não procura só quantidade.

Portanto, está a valorizar a parte dos químicos, não é? Que são 30%.

E a parte dos combustíveis, em que fazemos investigação e temos produtos muito fortes, como o Optima, por exemplo, que é um combustível aditivado que tem benefícios para os motores que o utilizam. [Falo] dos nossos lubrificantes, em que também fazemos investigação de forma muito concentrada e em que temos produtos que saíram agora, produtos novos, por exemplo, para a área da Marinha e que são lubrificantes que são desenvolvidos e estudados pela Cepsa. Também na vertente de otimização e de busca de sinergias temos um princípio que eu acho essencial, que é o da melhoria contínua. Para além do princípio, obviamente, subjacente a tudo isto, que é o da segurança, que as petrolíferas têm sempre de forma muito clara e a Cepsa especialmente. Temos o princípio de melhoria contínua que leva a que não estejamos parados na forma como desenvolvemos o nosso negócio.

Está a falar da melhoria da qualidade dos produtos, é isso?

Dos produtos, do serviço que prestamos, da forma como trabalhamos, sempre à procura de melhores soluções no dia-a-dia e nos produtos.

Mas imagino que as outras petrolíferas procuram fazer o mesmo, no sentido de investir na inovação, etc.

Certamente.

Que ambição tem de aumentar a quota no nosso país e em Espanha?

O nosso objetivo é aumentar a quota e crescer sempre ligeiramente acima do mercado. Temos, neste momento, uma perspetiva de crescimento médio, a nível ibérico, na ordem dos 2% e queremos crescer ligeiramente acima disso. E quando eu digo que apostamos na qualidade e nos serviços, na inovação dos nossos produtos, efetivamente todas as outras companhias também o farão, mas nós consideramos que estamos na vanguarda dessa inovação por aquilo que oferecemos aos nossos clientes. E temos um elemento essencial, que há quem goste de referir como recursos (eu não gosto): temos as pessoas que trabalham connosco. A nossa equipa. Todos nós fazemos a diferença, entendo eu, na forma como lidamos com o cliente e como levamos os nossos produtos até às suas casas e aos seus negócios.

Tem algum desses centros de investigação em Portugal?

Temos a instalação de Matosinhos, que é certificada a vários níveis.

Que é a mais antiga, não é?

É a mais antiga – que nasce em 1966, creio – e que é, neste momento, uma instalação de ponta, em termos tecnológicos. Os nossos especialistas em Matosinhos já ganharam vários prémios a nível interno pelo aporte que dão nesta área. Há uma partilha de boas práticas num sentido e noutro. E também aí estamos orgulhosamente centrados na zona Norte.

Luisa, este setor é importante no cabaz de trocas entre os dois países. Quer fazer o ponto de situação possível dos primeiros quatro meses do ano?

L.C. – Claro. O ano passado, portanto 2015, já foi melhor do que 2014. Mas essa melhoria foi pouco expressiva.

Porque a crise teve grande repercussão negativa nas trocas, não é?

Exatamente, ficaram reduzidas. Mas já o ano passado foi um ano que inverteu a tendência da redução das trocas comerciais. Neste momento, temos dados dos quatro primeiros meses do ano: de janeiro a abril, vemos um aumento significativo das trocas comerciais. Não sabemos muito bem agora, com a situação…

Do brexit.

Do brexit e não só, das eleições em Espanha. [Não sabemos] o que é que vai acontecer no resto do ano, mas a tendência é claramente de aumento. Quer dizer que, pelo segundo ano consecutivo, estamos a verificar um aumento das trocas comerciais e esperamos que se mantenha durante o resto do ano.

Ruth Breitenfeld (à esquerda), vice-presidente da Cepsa Portuguesa, deu a conhecer o inovador modelo de gestão da sua empresa e os excelentes resultados dele provenientes. Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, falou do setor energético, do desemprego e da recuperação do mercado ibérico

Ruth Breitenfeld (à esquerda), vice-presidente da Cepsa Portuguesa, deu a conhecer o inovador modelo de gestão da sua empresa e os excelentes resultados dele provenientes. Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, falou do setor energético, do desemprego e da recuperação do mercado ibérico

Ruth, a Cepsa sente-se bem-vinda em Portugal?

R.B. – Sente-se muito bem-vinda. Aliás, há um episódio interessante que aconteceu há menos de um mês, numa conferência sobre negócios internacionais. Estava um empresário e advogado português que me disse: “Ah, sabe Ruth? Eu, quando vou a Portugal, só abasteço em empresas portuguesas.” E eu fiquei com um ar… fiquei calada, para variar, não disse nada. E ele disse: “Sim, sim. Eu só abasteço na Petrogal e na Cepsa. Porque, para mim, a Cepsa é uma empresa portuguesa, está em Portugal há mais de 50 anos e eu tenho muito orgulho em abastecer na Cepsa.” Ficou o meu cliente favorito, quase. [risos]. Mas sentimo-nos muito bem-vindos. Por várias razões. Repare, o nosso negócio, que não é só de combustíveis, mesmo em Portugal… Por exemplo, o negócio de betumes, em que investimos e inovamos também com o produto Elaster e com os betumes-borracha.

Pois, há uma percentagem enorme do pavimento das nossas autoestradas…

Um em cada três quilómetros é nosso, é produto Cepsa. E consideramos que tem características de segurança, de manutenção, de resiliência e de resistência muito superiores. E são uma referência. O Elaster, por exemplo, é procurado nas obras públicas, porque efetivamente tem uma qualidade e uma inovação tecnológica extraordinárias. E temos o betume-borracha, por exemplo, com o qual já reciclámos mais de dois milhões de pneus. Portanto, tudo isto faz que sejamos uma empresa bem-vinda.

Para si, estar na União Europeia é estar em casa.

Sim.

Como é que a Cepsa vê esta separação do Reino Unido? Que consequências poderá ter para a Cepsa?

Bem, eu não sei como é que a Cepsa vê esta vertente política, porque, no fundo, o que interessa às empresas é ter uma segurança no quadro jurídico em que operam, uma segurança no quadro fiscal, é poderem ter elementos que permitam que a sua estratégia seja previsível, não é?

Sim, porque a Cepsa está desde o Canadá até à China, não é?

Exatamente.

E para cada sítio tem de haver uma forma de relacionamento claro. É o que se espera no Reino Unido.

Obviamente. E temos também uma unidade no Reino Unido, que esperamos que continue a atuar dentro do quadro legal que for definido… Vamos ver o que é que resulta dali. Agora, uma empresa tem de ter a capacidade de se manter firme, com alguma independência daquilo que o poder político faz ou diz. Temos de nos adaptar.

É isso que acontece em Espanha, nos últimos meses, não é?

Efetivamente. Quer dizer, o negócio tem de prosseguir.

Mas eu sinto-a muito otimista.

É a minha natureza, também.

Mas os economistas dizem-nos que tudo isto pode levar, pelo menos, a um ligeiro abrandamento no espaço europeu. Isso não faz rever as projeções da Cepsa?

Estamos muito atentos a tudo e temos uma característica interessante para uma empresa da nossa dimensão – que não faz parte dos major -, que é: temos uma cadeia de valor totalmente integrada. Ou seja, estamos no negócio todo do petróleo e do gás, desde a exploração e produção até à comercialização. Estamos em toda a cadeia de valor do negócio.

Segundo vi, estão em 47 talhões, digamos assim, de exploração.

Isso é só a parte de exploração e produção. Depois estamos em 20 países na área da petroquímica. Na área da comercialização e refinação, estamos em Portugal e em Espanha e temos aí também a procura de expansão. Vamos ver como é que corre e para onde nos leva. Mas o facto de termos esta estrutura também nos permite ter a capacidade e resiliência para determinados embates. Sofremos isso com a quebra do preço do crude, por exemplo, em 2014, que foi histórica. E a Cepsa conseguiu passar por esses momentos fortalecida. Temos uma característica que também acho muito interessante, que é o facto de termos um acionista único, desde 2011.

Pois é. De Abu Dhabi.

Abu Dhabi, exatamente. É o IPIC, International Petroleum Investment Company, que é o fundo soberano de Abu Dhabi, que detém a 100% a Cepsa. Aliás, no portfólio do IPIC é a única empresa detida a 100% e é a única que tem toda a cadeia de valor.

O que garante uma grande estabilidade acionista, não é?

Eu acho que sim. E é um acionista que acredita na vertente tecnológica e comercial da Cepsa. E isso tem–se demonstrado pela transformação grande que houve, especialmente desde 2011. Transformação até ao nível dos nossos escritórios e da forma como trabalhamos. A Luisa, ontem, esteve connosco…

L.C. – Fui visitar o escritório.

R.B. – Viu a mudança que se operou.

e

Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e Ruth Breitenfeld, administradora da Cepsa Portuguesa, foram as convidadas de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Em que sentido?

A Cepsa está, há dois anos, em Madrid, na Torre Foster, agora Torre Cepsa, com um projeto que, na altura, se denominou Hadi, que significa o farol que nos guia. E esse projeto implicou uma nova forma de trabalhar, com a tecnologia mais avançada, com espaços absolutamente abertos, sem gabinetes. Há salas de reuniões, que são marcadas de forma escrupulosa e em que se tem de fazer o check-in e o check–out. É um espaço sem papel, sem mesas: há só uma percentagem muito pouca de mesas fixas. Portanto, as pessoas entram e sentam-se onde houver espaço, o que levou a uma mudança na forma de trabalhar extraordinária, uma interação entre as áreas muito construtiva e positiva.

E com grandes ganhos de produtividade.

Com grandes ganhos de produtividade, eu entendo que sim. E cá em Portugal tivemos oportunidade de fazer o mesmo. Desde dezembro que estamos num escritório que tem estas características e, realmente, a mudança de atitude das pessoas é extraordinária. De todos nós.

Mas há sempre o outro lado.

Sempre.

Um aumento de produtividade, evita aumentos de emprego. Que perspetiva de crescimento de emprego na Cepsa, em Portugal?

Nós testámos e otimizámos a nossa estrutura. Temos a estrutura que consideramos a adequada para desenvolver o nosso negócio.

São 620 pessoas, não é?

Somos 620 pessoas, distribuídas entre a Cepsa portuguesa e a Propel,  empresa que opera os postos de abastecimento de forma direta. E, neste momento, consideramos que temos um quadro estável e que nos permite fazer o nosso trabalho. Mas estamos atentos às necessidades que nos surjam e iremos ao mercado se for o caso. Neste momento, a perspetiva é de uma situação estável e que é aquela que nos permite otimizar os nossos recursos técnicos e às pessoas trabalharem de forma eficaz para o nosso negócio.

Na câmara, o que se fala do ponto de vista do crescimento de emprego nos dois países?

L.C. – O desemprego tem sido o maior problema que tem enfrentado a economia espanhola, porque as taxas de desemprego são muito complicadas. Em Portugal, a situação é diferente: temos uma taxa de desemprego muito mais reduzida.

Tudo é visto relativamente, não é?

Tudo é visto relativamente, sim. Mas, enfim, os números…

Em Portugal, em 2013, aquele pico de 17% era uma coisa nunca vista.

É verdade que a sociedade portuguesa não estava habituada a ter taxas de desemprego…

Enquanto, em Espanha, desde os anos 1980 que há mais de 20%.

É verdade. Efetivamente os últimos anos foram muito complicados para as empresas. Portanto, a maior parte delas teve de reduzir o número de pessoas, quando não reduzir mesmo de forma completa.

Porque o volume de negócios também se reduziu.

O volume de negócios baixou e as empresas tiveram de apertar o cinto de todas as formas. E os recursos humanos, às vezes, estavam sobredimensionados em relação às necessidades dessa empresa. Uma vez feito este trabalho, as empresas descobrem que, efetivamente, as suas estruturas estão equilibradas em relação às necessidades que têm. E, neste momento, também estamos a assistir a uma entrada de interessados na contratação de pessoal qualificado em Portugal. Até agora, víamos algumas empresas da consultoria internacional virem cá buscar recursos humanos para os levar para os centros europeus. Neste momento, estamos a verificar a entrada de determinadas empresas que recrutam um nível médio-alto de profissionais para ficarem cá. O país é visto como estável, está a crescer, já não tem intervenção estrangeira  em termos financeiros.

Ruth, há algum segmento do negócio, algum produto Cepsa no qual aposte para este ano de 2016?

R.B. – Nós apostamos muito na complementaridade dos nossos negócios e dos nossos produtos. Enten-demos que se os “levarmos”, como dizem os espanhóis, todos de uma determinada forma e dentro de uma estratégia acertada com a nossa casa-mãe, com a qual estamos absolutamente integrados, permite que uns produtos façam crescer os outros. Temos um enfoque grande na venda também, não só na nossa rede, em que, como lhe disse, apostamos muito nas parcerias que temos, na fidelização dos nossos clientes. Cerca de 50% dos nossos clientes já nos são fiéis e depois queremos que os outros também se tornem.

São os tais que acham que a Cepsa já é uma empresa portuguesa.

Já a sentem como uma empresa portuguesa. Temos parcerias, por exemplo, como o Deco Plus, o cartão Deco+, que tem tido um êxito fantástico e deu uma projeção muito interessante à Cepsa. Temos o  Porque EU Volto, que é o nosso programa de fidelização, que tem serviços muito interessantes para os nossos utilizadores. Agora, também noutras vertentes, como lhe disse: na vertente dos asfaltos e dos betumes, na vertente das vendas diretas, em que estamos disponíveis não só para os grandes distribuidores mas também para a pequena e média distribuição, na vertente dos cartões, todas as nossas áreas de negócio do gás e dos lubrificantes, em que também temos uma panóplia de produtos muito interessante, a Cepsa está disponível para dar o seu melhor, em cada momento, aos seus clientes.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens

“Vamos reforçar a nossa liderança incontestável em Portugal”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola defende a concertação das estratégias ibéricas, dando o exemplo de pacotes turísticos conjuntos. O Grupo Pestana iniciou a sua internacionalização nos anos 1990 mas só conseguiu entrar no difícil mercado espanhol em 2013. José Roquette falou das metas do grupo e das vantagens da estratégia hispânica, que devia cultivar-se também em Portugal

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36048836José Roquette (JR), administrador do Grupo Pestana, Eduardo Jorge, representante da Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola (CCILE), bem-vindos. Hoje vamos falar de turismo e, contrariamente a outros setores, podemos ostentar um sorriso, porque o turismo está em ascensão e, seguramente, com reflexos positivos no Grupo Pestana, não é?

JR – Sem dúvida. Vamos viver, em 2016 – já foi assim também em 2015 -, provavelmente o nosso melhor ano de sempre. Eu falo tanto do Grupo Pestana como do país. O Grupo Pestana acompanha este momento de muita vitalidade…

E com grande impulso, não é?

E com grande impulso. Julgo que é muito importante salientar – além de celebrar esse bom momento, como é óbvio, e de aproveitá-lo -, é muito importante termos a noção de que existem ventos muito favoráveis, tanto para Portugal como para Espanha. Ventos favoráveis esses que Portugal como Espanha têm sabido aproveitar muito bem. E parece-me que o desafio vai ser fidelizar estes novos clientes que agora nos visitam por força, como disse, de ventos favoráveis que afastaram muitos clientes do Norte da Europa dos destinos tradicionais, como o Egito, a Tunísia, a Turquia e mesmo a Grécia.

Este boom explica-se, infelizmente, pela situação de insegurança que se vive no Norte de África, no Médio Oriente e na Turquia. Aliás, achei impressionante como um jovem com uma Kalashnikov, na Tunísia, numa praia – e com um custo, para essa organização, mínimo -, conseguiu ter um efeito devastador no turismo da Tunísia.

Sim, sim, devastador. Julgo que todos o vimos. Os alemães, os clientes visados nunca mais vão esquecer. O mercado alemão, que é um mercado fortíssimo em Espanha, vai demorar muitos anos a…

É esse o carácter assimétrico desta luta e deste confronto.

Sem dúvida. E isso significa que o desafio da segurança, tanto em Portugal como em Espanha, é real. É essencial sabermo-nos manter como destinos seguros e também termos a humildade de perceber que algum deste sucesso e deste bom momento não se deve exclusivamente a mérito nosso. Com certeza que Espanha e Portugal são países muito competitivos no turismo, há muitas décadas, mas é bom ter a noção de que há ventos favoráveis.

Eduardo (EJ), aproveitar esta oportunidade quer dizer fidelizar novos clientes. Que ecos é que isso tem na CCILE?

N2EJ – A CCILE é uma instituição de carácter associativo sem fins lucrativos, diga-se, e que tem por objetivo fazer a ponte e a ligação entre as duas economias, a espanhola e a portuguesa, ajudar empresários e empresas a conhecerem melhor os respetivos mercados. E isso, ao longo dos últimos 46 anos – aliás, a Câmara foi fundada em 1970, faz este ano 46 anos, em maio; já fez, aliás -, tem sido a tónica e o grande esforço feito no sentido de criar  esta dinâmica, ajudar a sedimentar. São várias as áreas de atividade em que a Câmara está envolvida. A CCILE é, talvez, a maior câmara de comércio e indústria fora de Espanha, isto a nível global, mundial. Quando digo maior quero dizer em termos operacionais, financeiros e em número de sócios. Para vos dar nota, a CCILE é reconhecida pelo governo espanhol – aliás, está na sua génese – como uma câmara de comércio e indústria oficial. E, em Portugal, temos o estatuto de utilidade pública. Portanto, de facto, somos um parceiro bem próximo em tudo o que é definição de estratégia ibérica e nisso nos temos empenhado desde a fundação. Aliás, para dar nota, sem ser muito extenso quanto a esta nota introdutória…

Pois, eu queria que se concentrasse no setor do turismo.

Só para dar nota que, na verdade, englobamos os maiores parceiros empresariais dos dois lados da fronteira. Aliás, o Grupo Pestana é sócio da Câmara e com muito gosto.

JR – E tem pago a cota. [Risos].

EJ – E tem pago a cota, exatamente. Portanto, a área do turismo também, para nós, é muito importante. Espanha tem feito um esforço e um investimento muito grande na promoção, é um país de grande destino turístico…

Aliás, com um boom anterior ao português e com uma expressão internacional fantástica.

Exatamente. Aliás, é dos principais players mundiais, em termos de income turístico.

JR – Sem dúvida.

EJ – E o facto é que a Espanha, por vezes, até tem servido de âncora para estrangeiros que não sabem que Portugal existe no mapa. Lamentavelmente, por desconhecimento dos próprios, não por falta de dignidade de Portugal.

Claro. E descobrem?

Acabam por vir a Portugal, aproveitando a sua deslocação ao país vizinho e fazem alguns dias de visita ao nosso país. Quanto a Portugal, diria que estamos sempre preocupados, porque o turismo começa a ser um fator principal no desenvolvimento económico do país. Cada vez mais.

Sim.

Portugal, como foi dito pelo dr. José Roquette, está a atravessar um excelente momento. Eu diria que só tínhamos a ganhar se aproveitássemos a dinâmica conjunta, fazendo, eventualmente, até pacotes que pudessem envolver os dois países. No que diz respeito ao papel da Câmara, obviamente que temos uma proximidade muito grande, junto às entidades que promovem o turismo de ambos os países, e o nosso papel é sempre de coadjuvar.

José, dê-nos em números os dados essenciais para termos uma ideia do que é hoje o Grupo Pestana e, também, a nível Ibérico.

JR – O Grupo Pestana é, hoje, o líder em Portugal e, em termos ibéricos, está entre os dez maiores grupos na área do turismo. Temos um volume de negócios próximo dos 400 milhões de euros, um EBITDA já um pouco acima dos 100 milhões. Estamos hoje presentes em 15 países…

Na América do Norte e do Sul.

Sim, América do Norte e do Sul, África e Europa. Três continentes, 15 países e temos cerca de 10 mil quartos espalhados aí pelo mundo.

Quer dizer que tem havido, ultimamente, uma grande expansão.

Sim. Mesmo nos últimos cinco anos  fizemos cerca de dez novos projetos e temos, neste momento, 20 novos projetos em carteira, o que vai dar um salto muito grande: são 3000 quartos espalhados por vários países do mundo, o que significa investimentos muito próximos dos 200 milhões de euros, que vão acontecer nos próximos cinco anos.

Em novos países ou naqueles em que já estão?

Alguns em novos países. É o caso de Amesterdão, Holanda.

Quantas pessoas empregam diretamente?

Um bocadinho mais de 7000. É uma equipa já bastante grande, também espalhada pelo mundo, por esses 15 países, o que faz que o Grupo Pestana, hoje, seja uma referência grande no setor do turismo, com uma particularidade: é um grupo de capital fechado – portanto, não está cotado em bolsa, logo diferente de todas as outras cadeias, sobretudo espanholas e internacionais -, tem um modelo de negócio tradicional, ou seja, é proprietário da maioria das suas unidades hoteleiras e tem um único acionista. Logo, isso dá uma enorme estabilidade ao nosso desenvolvimento e um ritmo próprio, também, de desenvolvimento.

Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e José Roquette, administrador do Grupo Pestana, responsável pela área do desenvolvimento, foram os convidados de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e José Roquette, administrador do Grupo Pestana, responsável pela área do desenvolvimento, foram os convidados de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Efetivamente, há grupos e empresas turísticas muito fortes em Espanha e não seria de esperar outra coisa.

Fortíssimas. Fortíssimas.

Qual é a história do Grupo Pestana, na sua implantação ibérica, e até que ponto é que ela poderá ter ajudado à internacionalização para a América Latina e outras paragens?

O Grupo Pestana nasceu numa ilha, nasceu na Madeira, não é?

Sim, sim, claro. Aliás, já lhe vou falar de outro famoso ilhéu que se está a juntar também ao grupo.

Nasceu na Madeira, veio para o Continente e depois foi para o mundo. A entrada em Espanha aconteceu relativamente tarde na nossa estratégia de desenvolvimento, não por falta de vontade mas por dificuldade. Ou seja, o mercado espanhol não é um mercado no qual as cadeias internacionais conseguem entrar facilmente. É um mercado bastante fechado, tem grupos muito fortes e muito competentes e que têm uma solidez muito grande…

Isso é um desafio para a CCILE e para a sua congénere em Espanha, porque eu ouço os seus representantes dizerem que, às vezes, há dificuldades de implantação.

Foi bastante difícil. O nosso primeiro passo foi dado em Barcelona, porque é realmente um destino turístico ímpar, um dos melhores destinos da Europa: trabalha os vários segmentos de mercado, tem uma política de turismo e, sobretudo, política aérea muito, muito inteligentes.

E é muito cosmopolita, muito centro-europeia já, não é?

Muito cosmopolita. Só para lhe dar uma ideia, é um dos maiores destinos turísticos de cruzeiros e de grandes congressos da Europa. Estamos a falar, realmente, de um destino fortíssimo e com uma dinâmica enorme. Certo é que sempre quisemos estar em Madrid e o ano passado concretizámos essa entrada com dois projetos: um num concurso que vencemos na Plaza Mayor, que foi uma coisa relativamente extraordinária – nunca esperámos conseguir conquistar aquele lugar de excelência no coração da cidade…

Claro, claro. E um lugar, também, emblemático da cidade.

Um lugar emblemático, um edifício histórico. Realmente foi um passo espetacular. A obra deve estar a começar em breve. O segundo projeto vai ser em parceria com o nosso Cristiano Ronaldo, vai ser um dos primeiros projetos desta parceria.

Era disso que eu lhe queria falar. O Pestana CR7, não é?

Pestana CR7, exatamente.

Que é um projeto para um segmento mais jovem.

É uma marca nova que o Grupo Pestana criou para o segmento, tão falado, dos millennials, esta nova geração que tem, realmente, um padrão de consumo e um comportamento, mesmo no setor do turismo, muito diferente e muito próprio. E que também exige, às cadeias hoteleiras que se querem renovar, uma abordagem diferente. Não podemos continuar a fazer hotéis iguais aos que fazíamos há 10 ou 20 anos se a procura também está a mudar completamente de perfil. Então, no fundo, usámos a força dessa marca e, sobretudo, a visibilidade global que a marca CR7 tem – que tem 200 milhões de seguidores no mundo inteiro nas redes sociais, que é uma coisa impressionante…

Pois é.

E com isto juntámos também os esforços de dois empreendedores, quer o Cristiano Ronaldo quer o Dionísio Pestana, e conseguimos criar esta marca que vai fazer a sua abertura em quatro cidades: Lisboa, Funchal, Madrid e Nova Iorque. A nossa parceria com Cristiano Ronaldo vale para estas quatro cidades. Obviamente que Madrid, [cujo hotel] será na Gran Vía, será um emblema fundamental desta parceria.

Claro, lá ele está em casa.

É a base. Está em casa.

São as diversas casas dele. [Risos].

Está a jogar em casa.

Exatamente. Eduardo, a Câmara tem outras solicitações na área do turismo, há coisas a mexer? O que nos pode dizer sobre isso no nosso país, vindo de Espanha ou de outras paragens?

EJ – Bom, as economias estão muito abertas e a Câmara de Comércio, embora seja um parceiro muito interessante, não é incontornável. Na verdade, já há muita informação sobre o setor e, eu diria, que quer em Portugal quer em Espanha o setor está muito maduro. É fácil qualquer empresa ou empresário espanhol vir a Portugal fazendo o seu trabalho de casa e vice-versa. Há pouco registei que referiu que a tendência é encontrar, em Espanha, dificuldade de implantação.

José Roquette (à esquerda), administrador responsável pelo desenvolvimento do Grupo Pestana, falou da estratégia de expansão deste aglomerado turístico para os próximos 3 anos. Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, crê que a Espanha ainda é um mercado desconhecido para os empresários portugueses

José Roquette falou da estratégia de expansão do Grupo Pestana para os próximos 3 anos. Eduardo Jorge, da CCILE, crê que a Espanha ainda é um mercado desconhecido para os empresários portugueses

Noutros setores. Já foi referido.

Noutros setores. Mas eu diria que isso é um desafio também. Diria que, do ponto de vista institucional, não há nenhuma falta de recetividade. Pelo contrário, há uma abertura total, porque se investe na reciprocidade. E essa questão da reciprocidade é crítica para podermos acreditar que existe uma convergência no âmbito das duas economias. Aliás, a ambição espanhola é que, de facto, haja uma integração económica… Enfim, eu diria política. Ainda não estamos por aí, mas, se calhar, até seria uma ambição de largo prazo. Eu diria que era mais um desafio para os grandes grupos poderem investir num país que, se calhar, é muito próximo mas conhecem mal…

Com o fluxo crescente de espanhóis que nos vêm visitar e que começam a querer visitar-nos pelas mais diversas razões – há cada vez mais [a virem] para concertos, para eventos, para coisas de empresas; dos mais diversos segmentos -, Portugal já não é aquele país de costas viradas e desconhecido. Quer dizer, as empresas de turismo de Espanha sabem que há esta apetência, que há esta deslocação de espanhóis ao nosso país, já não é um mistério, não é?

As grandes cadeias internacionais espanholas, de alguma maneira, estão representadas em Portugal. E, portanto, não somos, de facto, desconhecidos. Estou a dizer é exatamente o oposto: Espanha ainda é desconhecida para os portugueses. No turismo, enfim, não conheço com detalhe mas, pelos vistos, vai ser feito o segundo investimento daquele que, provavelmente, será o maior grupo de turismo português. (E vai-me desculpar se não estou a ser correto nessa afirmação. Pelo menos é essa a perceção que eu tenho).

JR – Sim, sim. É.

EJ – Só vai fazer agora o seu segundo investimento, aproveitando uma âncora muito grande, que é o Cristiano Ronaldo. Portanto, diria que Espanha continua ainda a ser um mistério grande para Portugal. Será falta de escala das empresas portuguesas? Será o facto de as empresas estarem tradicionalmente mais viradas para mercados tradicionais como a África ou a América, principalmente o Brasil? De facto não há grande investimento.

Ou será, José, o desconhecimento, porventura ainda prevalecente, de que Espanha não é uma unidade, mas que são realidades culturais muito fortes, diferenciadas em todo o espaço ibérico?

Sim, será um pouco de tudo isso, mas também julgo que é bom não esquecer outra coisa. O Grupo Pestana esteve durante 10 anos a estudar várias oportunidades em Espanha. Vamos ter, neste momento, três unidades – uma em Barcelona, já, e duas em Madrid. O que é que sentimos nos últimos anos, sobretudo nos anos de crise, em que sentimos que podia haver oportunidades mais interessantes? É que houve uma solidariedade enorme entre o setor financeiro, o imobiliário e o hoteleiro, coisa que em Portugal nem sempre aconteceu nos anos mais difíceis. Isso fez que conseguissem atravessar a crise de uma forma…

Jogam em equipa.

Claro. Muito mais. Essa é uma grande diferença.

Isso é curioso, porque estamos numa altura de globalização, cosmopolitismo, de fluxos abertos de capitais, mas há países que preservam sempre… Tradicionalmente, é sabido que os japoneses também funcionam assim.

Claro. É um saber ver mais a longo prazo, não é? Eu julgo que é isso.

Não é fechar-se, mas é saber potenciar o seu próprio poder. Não será isso?

Exatamente.

Isso é uma grande diferença que se sente em Espanha, não é?

Uma grande diferença. É muito diferente. E depois também existe uma tenacidade, por parte do espanhol, para preservar o património ao longo das gerações, coisa que aqui não é tanto assim – aqui vende-se, compra-se e… Logo, nesse aspeto, o português é um bocadinho mais comerciante e, talvez, o espanhol um bocadinho mais industrial. Talvez assim, essa diferença faz que tenha, muitas vezes, uma visão de mais longo prazo e [se] é preciso aguentar a crise, aguenta-se e faz–se das tripas coração…

E eu não estou a falar só nas nacionalidades históricas. Há um grande amor por tudo o que está edificado e pela história de cada um.

Exato. Nesse aspeto, eu diria que há um sentimento muito nacionalista, muito forte – às vezes mais regional, até, do que nacionalista; é o caso da Catalunha, talvez, não é? -, mas que, depois, se traduz em decisões práticas de negócio que são de defender a todo o custo o que é deles. Eu acho que isso explica muito.

José, queria perguntar-lhe que metas gerais, para além das que já enunciou, o grupo traçou para este ano e perspetivas para 2017?

Este ano, sem dúvida, como disse, vai ser talvez o nosso melhor ano de sempre. As metas são de ter um crescimento certamente acima dos 5% tanto das receitas como dos resultados.

E prevê, também, que seja o melhor ano de sempre para o turismo em geral?

Sim, acreditamos que sim. Vai ser também um ano, está a ser um ano no qual estamos a dar grandes passos adicionais na internacionalização do grupo e, portanto, vamos chegar rapidamente à presença em 20 países – hoje estamos em 15 – e vai ser um ano, também, de muito investimento. Portanto, é um ano de muitos resultados mas, sem dúvida, é um ano de muito esforço de investimento.

De sementeira.

Sem dúvida. É a altura, também, de o fazer. E, por isso mesmo, é um ano em que vamos reforçar não só esta liderança incontestável em Portugal como, certamente, vamos progredir na penetração neste mercado espanhol.

Com uma perspetiva de que 2017 seja melhor do que este ano?

Sim, eu acredito que sim.

O impulso vai manter-se.

Sim, eu acredito que sim, porque estes ventos favoráveis também se vão manter, acreditamos.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

“Abrir departamentos comerciais novos é um objetivo muito grande”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola saúda a experiência empresarial transfronteiriça como alavanca de internacionalização das empresas. Com sede em Campo Maior, junto à fronteira espanhola, a Delta Cafés iniciou a expansão do seu negócio de torrefação e comercialização de café precisamente pela vizinha Espanha. Hoje tem 18 unidades neste país e está presente noutros 35 países

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

35909153aJoão Manuel Nabeiro (JMN), se há a noção de uma empresa ibérica, até pela localização, pelo epicentro dessa empresa – Campo Maior, a 19 km de Badajoz, mesmo junto à raia, junto à fronteira – é a Delta Cafés, com 55 anos de existência. De facto, esta empresa, pela sua própria história de vida, desfaz muitos preconceitos sobre o que é o interior, o que é o litoral, onde é que se deve situar, etc. Não é assim?

JMN – A sua conversa tem todo o sentido para mim, porque nasci ali. Nasci naquela bela vila de Campo Maior, uma vila raiana, a fronteira está mesmo ali ao lado. Nós, em Campo Maior, costumamos dizer que de dia falamos português e à noite falamos castelhano e aí está logo, efetivamente, feito todo um percurso de vida, que é a vida dos campo-maiorenses, a vida daquelas pessoas que nasceram naquela belíssima zona. E não há dúvida nenhuma de que a nossa constante, no dia-a-dia, foi acima de tudo pensar na Extremadura, pensar no nosso Alentejo e, obviamente, no nosso Portugal, porque a lusitanidade está muito arreigada, também, aos nossos princípios. Mas digamos que o nosso sentimento de pertença também ao outro lado, desde os primeiros dias, foi sempre muito forte.

Mas o que eu queria destacar é a visão do seu pai, que foi fundador há 55 anos desta empresa: ter essa visão, que hoje nos parece tão normal, das eurocidades, das cidades e regiões fronteiriças, no espaço aberto que é a União Europeia, muito antes de Portugal e Espanha terem entrado para a CEE… Estou a falar de 1960, 1961.

É antes! Antes. Inclusivamente, logo a seguir à Guerra de Espanha, um tio-avô do meu pai que estava com a sua situação muito complicada, na guerra – deixe-me dizer-lhe: estava preso em Madrid -, conseguiu sair de dentro daquelas revoluções sociais todas, nessa mesma época, e veio até à nossa região e trouxe, acima de tudo… O quê? Trouxe o estigma do café. Era um produto que era necessário do outro lado e nós começámos a nossa vida pela senda do café, devido, possivelmente, a essa viagem desse senhor, que foi um empreendedor. Obviamente que, depois, o meu pai foi um continuador do tio, muito próximo dele, e esses anos sucederam, esses 55 de que falou há bocado. E aqui estamos.

E 30 anos em Espanha, também.

Logo desde o primeiro dia. Muito antes, devido àquelas situações de fronteira que eram um bocado tabu, naquela altura, falar-se.

Claro. Saltava-se de um lado para o outro.

Hoje em dia, felizmente, o contrabando já não é uma palavra tabu. Porque era uma subsistência de todas as famílias daquela zona. Depois, obviamente que as empresas desenvolveram as suas competências. E daí até aos dias de hoje tem sido, graças a Deus, uma linha de continuidade, a desenvolver projetos novos. Por exemplo, hoje vim a Lisboa pensando no Delta Q.

35909155Jaime Regojo (JR), não há muitas empresas de raiz tão ibérica, entre aspas, como esta de que estamos a falar.

JR – Existem mas não, em Portugal, da importância que tem o Grupo Delta, nem toda a relação que tem não só de desenvolvimento rápido numa área agroalimentar que se expandiu não só para Espanha mas para os – acho que são – 35 países de exploração, atualmente.

JMN – Exatamente.

JR – Um desenvolvimento tão rápido que, ao estar numa zona transfronteiriça, ajudou à expansão através de Espanha e que, depois, levou a outros países.

A Novadelta Espanha e depois a criação, se não estou em erro, neste momento, de 18 unidades comerciais, em Espanha…

JMN – Departamentos comerciais.

18 departamentos em Espanha, versus 22 em Portugal.

Vinte e quatro. São mais dois.

Ou 24. Já são 24, pronto. Como dizia, 35 países, mais de 3000 empregos diretos; se não estou em erro, um volume de negócios na ordem dos 260 milhões o ano passado…

Um bocadinho mais. O ano passado foram cerca de 330 milhões de euros.

330 milhões. Portanto, estamos a falar de uma coisa que teve um desenvolvimento extraordinário e, sobretudo, com forte incorporação de inovação, novos produtos, diversificação. Fale-nos um bocadinho disso.

Acima de tudo o trabalho era formar esses tais departamentos comerciais e a nossa proximidade em relação ao cliente era a aposta.

Esses departamentos são redes comerciais?

São pequenos armazéns que estão localizados nas principais cidades do nosso país e da vizinha Espanha. Essa vertente tem a componente comercial, tem a assistência técnica e tem, sobretudo, a proximidade com o cliente, porque o que nós procurávamos e procuramos sempre é estar próximos dos nossos clientes.

E isso produz, se bem li nos materiais que consultei, dez milhões de bicas diárias de Delta Café.

É possível que seja esse o número, mas… [Ri-se]. Possivelmente ainda é um bocado mais.

Dez milhões de vezes por dia que as pessoas entram em contacto com os vossos produtos.

São cerca de 22 mil toneladas/ano. Quando começámos torrávamos quilos e, hoje em dia, chegar efetivamente a este número tão importante como conseguimos, que é quase, de alguma maneira, o volume de importação portuguesa… Nós, neste momento, conseguimos já ter 30% do nosso trabalho virado para a exportação, para esses 35 países de que há bocado falou. É esse o trabalho que tem sido feito até aos dias de hoje.

Não sei se sabem, eu nasci em Madrid, filho de espanhola e de português. Nasci em 1949, portanto, ainda eram tempos muito difíceis em Espanha. E havia uma falta tremenda de bom café. Daí que as pessoas pediam que eu levasse café, mesmo quando era miúdo. A Delta Cafés ajudou, digamos, a expandir a cultura do melhor café em relação àquela cevada, que era o que havia no pós-guerra em Espanha?

JR – Sim. Como sabe, o café em Espanha tem sido sempre muito mau, entre outras coisas, porque depois da guerra civil consumia-se somente a cevada. E, depois, o próprio tratamento que fazem ao café queima-o muito e o sabor é muito diferente.

JMN – Sim, é. É.

JR – Acho que a Delta ajudou a levar a marca Portugal a Espanha e a pô–la numa posição elevada. Agrade-cemos todo o trabalho desenvolvido porque foi feito ao longo de muitos anos. Os espanhóis agradeceram, porque o café é distintamente melhor. Vinham muitos espanhóis, durante muito tempo, com o turismo, tomar cá o café e, depois, ao chegarem ao seu país não o tinham.

Não tinham. E eu tenho uma boa experiência disso.

E isso foi uma porta para a boa aceitação da própria Delta em Espanha.

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João Manuel Nabeiro (à esquerda) falou da história e da estratégia de expansão da Delta Cafés, pertencente ao Grupo Nabeiro. Jaime Regojo agradeceu em nome dos espanhóis o bom café e salientou o treino de internacionalização que a expansão em Espanha traz a empresas como a Delta

Para falarmos um bocadinho do que é hoje o Grupo Nabeiro, este conjunto de empresas: quando me diz que em Espanha há 18 departamentos, isso quer dizer que as principais idades e, porventura, as diversas autonomias e regiões estão já muito bem cobertas pelos produtos da Delta Cafés?

JMN – É verdade. A partir dos anos 1980, quando houve a nossa abertura à Comunidade Europeia. Nesse mesmo dia estávamos na nossa vizinha cidade de Badajoz. E seria, efetivamente, aquele que seria o ponto de arranque para passar, depois, para toda a outra geografia espanhola. Foi muito fácil chegar a Madrid. E obviamente que Barce-lona seria também um dos pontos fundamentais para pormos uma das nossas bandeiras.

Claro.

E assim foi feito. Neste momento, digamos que temos ainda uma zona que não é tão clara na geografia espanhola para nós, que é o Norte de Espanha. Mas esperamos rapidamente conseguir chegar lá, a esses mesmos pontos.

E pode dizer-se que este gostinho do bom café em Portugal, tão diferente de outros países – eu já nem vou falar daquela água chilra que se bebe na América nos cafés -, pode dizer-se que este gosto do bom café que está consagrado em Espanha (e sei que também estão presentes com redes próprias em França, no Luxemburgo e em 17 países europeus), vai-se estendendo? Bom café, feito à portuguesa?

Eu acredito que sim. Certamente, é aquela filosofia de “Pensa global e age local”, mas é também todas as maneiras de nos aproximarmos dos gostos tradicionais do mercado dos países onde vamos tentar influenciar o consumo. Mas obviamente que em Espanha a nossa perceção sobre o gosto dos espanhóis era já um tema do dia-a-dia, visto que já levávamos esse trabalho feito. Como eu referi há bocadinho, desde os anos 1950, em que interagíamos com eles neste mercado.

Pois.

Portanto, neste momento, é continuar a perceber – ainda hoje, quando estivemos aqui, em Lisboa -, é continuar a perceber o gosto dos consumidores e ir ao seu encontro. Ao fim e ao cabo, é essa a nossa vida e é esse o nosso destino.

Mas quando falamos em 35 países estamos a falar num conjunto de países com representantes locais ou, digamos, com parceiros, com parcerias locais. O que quer dizer que, indiretamente, o Grupo Nabeiro ajuda a criar e a manter muito mais do que estes 3000 postos de trabalhos diretos, não é?

Obviamente. É evidente que sim. Os nossos agentes, nos vários países onde estamos diretamente, serão sempre o nosso observatório e, acima de tudo, há o nosso carinho por essa mesma gente. No início, começámos sempre por aquele mercado que nós chamávamos, tradicionalmente, o mercado da saudade. Hoje em dia, é também o nosso foco, obviamente, ir ao consumidor do respetivo país. E creio que toda a parte de packaging que temos, nestes últimos anos, tentado inovar e apresentar uma cara atualizada…

Não só isso mas também as máquinas próprias, não é?

Exatamente.

Quer dizer, há uma panóplia de novos produtos.

A nossa fábrica, sediada ali a 4 km de Campo Maior, tem-se atualizado nestes últimos anos. Principalmente, nesta nova lógica, tem estado a puxar muito a conversa para as cápsulas, porque é realmente um mundo, este, que se abriu no retalho, abriu-se para este consumo mais fácil para o consumidor.

Mas tiveram a perceção que os hábitos do consumidor estão a mudar muito rapidamente e que tem de haver inovação e resposta a essas mudanças, não é?

Foi. Aquilo foi três dias em que esta nova era surgiu e, digamos, que o nosso processo inovativo, a começar nos dois Ruis Nabeiro – o mais velho, que tem a missão, acima de tudo, de zelar por nós; e o mais novo, que tem, neste momento, a função de pensar e repensar o nosso projeto das cápsulas -, tem sido uma constante. E tantos bons resultados nos traz.

E qual é a estratégia daqui para a frente? Vão tentar estender-se a outros países? Vão tentar consolidar os pontos onde estão? Porque têm presença no Brasil, têm presença também em África e na Ásia, mas muito mais pontual. Em Angola suponho que tenham uma posição importante. Mas qual é a estratégia de internacionalização daqui para a frente para o Grupo Nabeiro?

Essa estratégia será sempre pensada para dar um passo e esse mesmo passo ser consolidado. Depois de termos alguma consolidação dessa aventura a que nos propomos, então pensamos efetivamente noutra situação. Falo em Angola. Em Angola já estamos há cerca de 20 anos, portanto, já é uma experiência que temos há longo tempo.

E tem-se aguentado bem, nestes momentos tão difíceis?

Passámos épocas, como deve calcular, muito complicadas logo no início. Neste momento, não é tão complicado como nessa altura. Mas, enfim, sabe que temos uma situação em que não estamos muito contentes, mas, acima de tudo, a nossa vontade de continuar é total. Queremos continuar a apostar em Angola.

Porque quando entram nesses mercados suponho que criam uma fidelização de clientes, não é?

Obviamente que sim.

Não se pode entrar e sair só porque a conjuntura é negativa, não é?

E, ao fim e ao cabo, a continuidade do mercado angolano é um pouco a continuidade do mercado português. E, digamos, os hábitos de consumo neste aspeto são muito idênticos, tal como Moçambique também é muito idêntico e há, efetivamente, lotes em que temos tido tanto sucesso por essa via.

Mas deixe-me dizer, já agora – é um pormenor que se cruza também com a minha vida profissional -, largaram um pequenino país e um pequenino mercado, que era Timor-Leste… Num momento muito difícil, depois daquela violência, foram ajudar, foram comprar uns lotes, mas, porventura, a qualidade não justificava a continuação, não é?

Foi um pouco isso. Foi, acima de tudo, não pôr os nossos colaboradores em situações que podiam ser extremamente complicadas, ao nível da sua vida, e tivemos o máximo cuidado. Mas, na altura em que tínhamos de lá estar, o meu pai foi.

Pois, eu lembro-me muito bem. Eu também estava lá.

Foi, inclusivamente, acompanhado por familiares, nomeadamente o meu cunhado. E creio que o relacional que conseguiram, em termos humanos, foi extremamente positivo, porque ajudámos os agricultores a repensar todo o seu processo agrícola e isso, para nós, foi um motivo que nos encheu de orgulho porque foi uma ajuda de coração.

Ultima

João Manuel Nabeiro (à esquerda), administrador da Delta Cafés, e Jaime Regojo, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados desta edição da Economia Ibérica. António Perez Metelo (de costas) moderou o debate

Se bem que, naquele país, aquilo se transformou num matagal. Enfim, não são cafezais estruturados e precisa, seguramente, de investimentos enormes para voltar a ter aquela qualidade única do café de Timor, que era conhecida. Jaime, pergunto-lhe: a Câmara de Comércio, perante a realidade crescente em vários pontos da nossa fronteira, destas regiões e cidades transfronteiriças, recebe alguma solicitação, tem alguma iniciativa do ponto de vista de aumentar as relações comerciais e, porventura, troca de investimentos entre empresas dos dois lados de uma fronteira que é cada vez mais ténue?

JR – Sim. A Câmara, a sua função principal é ajudar principalmente as empresas espanholas, no seu todo, a virem desenvolver negócios em Portugal. Tal como igualmente ajudamos empresas portuguesas a investir e a vender os seus produtos, a exportar, para Espanha. O assunto transfronteiriço: já, desde há muitos anos, que há regiões mais próximas de Portugal, como sejam a Galiza e a Extre-madura espanhola.

Pois. A região Elvas-Badajoz, por exemplo. E Campo Maior está englobado nessa ideia territorial.

De facto, digamos que há uma cultura, tanto no Norte, em que a língua também ajuda, nesse sentido, como mesmo na zona da Extremadura, em que os dois povos sempre se deram muito bem. Aí dá-se uma inter-relação muito importante em todo o tipo de produtos, que se traduz num comércio bilateral muito grande. A proporção que existe na Galiza e na Extremadura, por exemplo, é o dobro do que existe em relação a outras regiões. Por exemplo, em termos de turismo, quando uma pessoa da Extremadura ou da Galiza… isto é, 50% dessas populações, quando vão de férias, visitam Portugal ao invés de outras regiões de Espanha. E igualmente, as populações portuguesas visitam mais estas regiões espanholas também. No comércio tradicional, a Extre-madura tem uma população menor, mas a Galiza, por exemplo, é de longe o primeiro cliente das exportações nacionais portuguesas, apesar de só ter quatro milhões de habitantes, face aos oito milhões que tem a Catalunha.

João Manuel Nabeiro, a minha última questão. Qual é o seu objetivo empresarial próximo? Que nos possa dizer, enfim, que não seja segredo de negócio, o que é que pretendem fazer a seguir, perante a sua imensa rede de clientes?

Acima de tudo, a satisfação total do cliente é o nosso objetivo.

Está bem, mas isso é sempre, não é? [Risos].

Mas é muito forte, tentar isso todos os dias.

Pois é.

O que é que nós pretendemos mais, de coração?

Não tem nenhum projeto específico?

Há desenvolvimentos específicos do mercado e mercados que são, acima de tudo, muito competitivos. O mercado europeu é extremamente competitivo, extremamente maduro e, para nós, chegar efetivamente, digamos, ao coração da Europa… Há dois dias tivemos a abertura do nosso mercado na Suíça e isso, para nós, é uma chave que nos compromete bastante – embora já lá estivéssemos há bastantes anos. Mas o nosso querer de comunicação com esta nossa Europa, dominada pela nossa vizinha Espanha, que é o nosso mercado natural – e a conversa passa um bocado por aí: em Espanha, temos estes 18 departamentos comerciais, de que falei há bocadinho, mas a nossa ambição é ter mais, obviamente, do que os 24 que temos em Portugal. Portanto, abrir departamentos comerciais novos é um objetivo muito grande. E, acima de tudo, conseguirmos mais postos de trabalho e levar a nossa mensagem a pontos onde queremos, de todas as maneiras, estar agora.

 

Fotos: Orlando Almeida / Global Imagens

“Espanha continua a ser a nossa principal operação no estrangeiro”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola não tem dúvidas de que Portugal tem tudo para ter sucesso no mercado global e explica porquê. A Endutex, empresa dedicada à arquitetura têxtil e impressão digital, é líder de mercado no seu segmento, começou a sua expansão em Espanha e hoje está em mais de 50 países. O seu CEO conta como uma empresa familiar atingiu uma dimensão internacional

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

34523095Vítor Abreu, dirigente da Endutex, Francisco Dezcallar, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, muito bem-vindos. Vítor, faça-nos uma ficha rápida desta empresa, que é uma empresa de têxteis técnicos. O novo têxtil de que se fala, que se transformou e que se reinventou em Portugal, está bem encarnado nesta sua empresa, não é verdade?

Vítor Abreu (V.A.) – Exatamente. Começando do fim para o princípio, para situar um bocado quem não tenha perfeita consciência, porque a Endutex é um grupo, é uma empresa pouco conhecida, o nosso core business são os têxteis técnicos, tendo, hoje em dia, já diversificado também para a área hoteleira, imobiliária e de energia, bem como para os acabamentos têxteis. Dito isto, e no que respeita ao intercâmbio comercial e à nossa presença no mercado ibérico, concretamente – em Portugal, na produção, e em Espanha, na distribuição – iremos  focar-nos na parte da Endutex revestimentos, que é efetivamente a empresa que tem esta participação e este conhecimento no mercado ibérico. A Endutex nasceu em 1970, desde o princípio com uma gente familiar e integrada no grupo têxtil.

Quase cinquentenária, portanto.

V.A. – Quase cinquentenária. O tempo passa. Eu não estava na fundação [risos], mas, de qualquer maneira, é quase cinquentenária.

Mas reinventou-se muito.

Exatamente. Eu acho que se reinventou, [tal] como o nosso espaço económico, que é a Europa. A Endutex tem de acompanhar a evolução dos tempos, na Europa e no mundo, de uma maneira geral, e por isso, sabendo nós que estamos aqui em Portugal e na Europa, com tudo o que isso representa, a Endutex tenta tirar vantagens de estar em Portugal, mas não numa perspetiva de sobrevivência, antes numa perspetiva de competitividade. E com isso, de o tempo passar, derivou de uma parte têxtil mais tradicional (mesmo a parte dos têxteis revestidos também tinha uma parte mais tradicional) para uma parte têxtil técnica, mais evoluída, com mais inovação e desenvolvimento.

E no setor automóvel, na arquitetura têxtil…

E na impressão digital. Tudo isso sempre com uma grande diversificação.

E são coisas, tecnologicamente, bastante…

Exatamente. São coisas com uma maior incorporação de know-how, de capacidade técnica e é aí que a Endutex tenta apostar.

Eu sei que tem duas fábricas, uma cá e outra no Rio Grande do Sul, salvo erro.

Exatamente, no Rio Grande do Sul.

E tem sete filiais.

Exatamente.

Isto significa o quê, em termos de volume de negócios, volume de emprego, para termos uma ideia.

Referindo só à nossa área de têxteis técnicos, que é a que mencionou, isto representa um volume de negócios consolidado na ordem dos 73 milhões de euros e cerca de 500 pessoas abrangidas por estas duas fábricas e sete filiais.

E, nesta conjuntura difícil, nomeadamente no Brasil, como é que se está a aguentar? Continua a crescer ou está com problemas, neste momento?

Eu diria que nem uma coisa nem outra. [Risos]. Focando a parte do Brasil, efetivamente o ano de 2015 foi muito tumultuoso, principalmente no que diz respeito à volatilidade cambial. A nossa empresa do Brasil importa muitas matérias–primas em moedas fortes – em dólares, euros e tudo isso – e depois vende em reais. E esta ginástica, esta adaptação dos custos de importação para a venda é complicada. Felizmente, temos uma excelente equipa de gestão na nossa unidade brasileira e também é verdade que alguma da nossa concorrência tem ficado pelo caminho, o que ajuda a negociar.

Pois, [ajuda] à implantação e expansão.

E à implantação e expansão da nossa unidade.

Portanto, continua a crescer?

Continuamos a crescer.

E a perspetiva de 2016 é para crescer.

É para crescer, um bocado em contraciclo. Não é que seja essa, basicamente, a nossa estratégia, mas efetivamente o mercado tem apostado na nossa empresa no Brasil. E nós temos crescido, mas com os pés bem assentes na Terra, porque sabemos que 2016 também vai ser um ano complicado, por isso, a política é de consolidação.

34523087Agora queria dar a palavra ao Francisco (F.D.). Há bocadinho ouvi-o dizer que, às vezes, há falta de confiança no nosso país para projetar a atividade económica. Parece que não acreditamos muito. Há essa sensação na Câmara de Comércio e Indústria, de que a atividade económica em Portugal poderia ser mais dinâmica do que aquilo que é, a partir do conhecimento que tem do setor empresarial?

F.D. – É evidente. Nós pensamos que aqui em Portugal há muitas hipóteses. Eu sempre digo – e, de facto, ouvimos falar na Câmara muitas vezes – que isto podia ser a Califórnia da Europa. Se aqui acreditassem em Portugal. Porque tem tudo. Tem tudo! Tem um clima bom, uma localização ótima, estamos no euro, tem uma estabilidade política incomparável… Quer dizer, tem todas as características… Tem gente muito bem preparada, falam-se línguas [estrangeiras], coisa que em Espanha não se fala [risos]. Tem tudo para poder ter [sucesso]. Agora, temos de querer e acreditar em Portugal. Só que, às vezes, falta isso.

A sua visão – que arranca de Espanha mas que tem já 20 anos de experiência deste país – acaba por ser mais otimista do que a de muita gente cá, não é verdade?

Às vezes, sim. Lamentavelmente, acho que sim.

E como é que explica isso?

Bom, eu não quero falar do fado. Quiçá seja um pouco um tema sentimental, um pouco português, de terem pouca confiança em si próprios. Portugal é um grande país. E sempre que eu oiço falar aos portugueses, eles falam mal dele e eu acho que isso é um erro.

Claro.

Porque os franceses vendem França, têm essa capacidade. Mas, em contrapartida, Portugal tem coisas boas e não as sabe vender ou então, não sei, parece que tem medo. Acho que  é uma pena, realmente é uma lástima, porque o país tem muito para dar e poderia desempenhar um papel mais importante do que está a desempenhar neste momento.

Quer dizer que a Câmara, que sente isso, poderia ter uma intervenção mais dinâmica.

A Câmara está sempre disposta a ajudar. O principal papel da Câmara é ajudar a atrair investimentos para cá; e o segundo é ajudar os portugueses a sair para Espanha. E, nesse sentido, nós estamos abertos a todos. Mas o nosso papel é ajudar, é acomodar, não gerar iniciativa. A iniciativa depende dos empresários. E, nesse sentido, quero dizer que a Câmara, com a ajuda da Câmara hispano-portuguesa – que quem a dirige é o senhor Calçada de Sá e com a qual temos uma ótima relação -, fará tudo o que seja aumentar, favorecer e ajudar os empresários.

E este ano de 2016 há dinamismo de investimento e aumento de trocas comerciais vindas de Espanha para Portugal ou não há?

Sim, aumento de trocas há.

Os investimentos estão mais parados.

Estão mais parados. Eu não sei se isso também pode ser por estarmos na área em que estamos. O mercado sul-europeu, o mercado que era um destino nosso, isso – o tema das nações – já passou à história. Cada vez mais, as relações são mais fáceis. Por um lado, é isto. Por outro, dado que, hoje em dia, há uma crise económica importante, neste momento a nossa relação [entre Portugal e Espanha] é mais comercial do que de investimento. Neste momento, por parte de Espanha. Isso não quer dizer que não possa ser revisto.

Eu sei, por exemplo, que o ano passado aumentou o comércio entre os dois países.

Aumentou. No ano passado, houve, mais ou menos, trocas que rondaram os 26 mil milhões de euros nos dois sentidos. E foi um aumento pequeno, relativamente ao ano de 2014. Tenho esperança de que este ano também aumente, mas vais ser [um crescimento] pequeno. Estamos a deslocar-nos em níveis que não são de grande expansão, digamos assim.

Vítor, vi que a empresa criou sete filiais, nomeadamente no centro da República Checa…

V.A. – Hungria, Polónia.

Vou-lhe fazer esta pergunta porque não sei, mas vou avançar uma hipótese: será que isso tem que ver com os têxteis automóveis e há indústria automóvel nesses países, que estão a fornecer?

Não. Não.

Mas é um dos segmentos, não é?

É um dos segmentos, certamente.

34523037Mas é aqui para o mercado interno, para a produção no país?

Não, é em termos gerais. A Endutex exporta cerca de 80% da sua produção e, por isso, o mercado interno – também depende da linha de produtos de que estamos a falar, do segmento de que estamos a falar; em algumas áreas [o mercado interno] ainda tem alguma importância, noutras áreas é mais residual -, mas, no cômputo global, a Endutex exporta 80% da sua produção e isso mostra a importância que têm os outros países na nossa estratégia comercial. Repare, a Endutex tenta, como certamente todas as empresas, fazer diferente. E fazer diferente é desde a produção à comercialização. A primeira experiência de internacionalização da Endutex foi Espanha, em 1988. E porquê? Porque além de parecer natural, na altura e na minha leitura, foi o grande presente da nossa entrada na Comunidade Europeia. Portugal estava na EFTA, na altura, e por isso já tinha comércio livre com muitos países, mas a Espanha era uma economia muito fechada. E, por isso, nós fomos para Espanha, em 88, faz quase 30 anos agora, porque foi uma grande abertura.

Com a abertura de 1986, dos dois países?

Exatamente. E em boa hora fomos, porque, hoje em dia, continua a ser – à parte a unidade no Brasil, que tem umas características diferentes -, a nossa principal operação no estrangeiro em termos de volume de negócios. Estamos muito satisfeitos com a nossa operação em Espa-nha, que tem a sede em Barcelona, mas também tem distribuição em Madrid. Nós fomos para o centro da Europa também, mais uma vez, depois da abertura desses países.

Nos anos 1990.

Nos anos 1990, exatamente, porque achámos também, mais uma vez, que era um espaço económico [atrativo]. Os outros países estavam mais ou menos consolidados, batidos.

Sim, eram os emergentes da Europa, não era?

Eram os emergentes e países com características diferentes. Mas, por exemplo, a Polónia é uma grande economia e nós estamos extremamente satisfeitos com essa operação. Por isso, a estratégia foi sempre um bocado esta: ir para sítios diferentes, fazer diferente, porque mais do mesmo, penso que já há muita coisa.

Sim, não leve a mal a minha pergunta, mas é que não há muitas empresas portuguesas que tenham apostado nesses países.

Mas não leve a mal a minha resposta [risos], eu fico contente com isso.

Mas viram ali uma oportunidade.

Vimos, vimos uma oportunidade.

E continuam a ver? Estão a dar-se bem nesses três países?

Estamos a dar-nos bem nesses três países, com características diferentes. Eu acho a Polónia, por exemplo, especificamente um mercado muito apetecível, com características quase iguais às nossas.

E que está a crescer muito bem.

E que está a crescer muito bem e que atravessou muito bem estes períodos conturbados que nós tivemos. Mas, hoje em dia, já estamos numa fase diferente da nossa estratégia. A última experiência de internacionalização que temos é na Alemanha e já é uma economia completamente diferente. Aí, é mais uma questão de implantação num país de última tecnologia, para ter outro tipo de informações do mercado.

Mas isso tem a vantagem de puxar, seguramente, pela inovação da própria empresa, não é verdade?

Certamente.

E, nesses mercados, estão com a palete generalizada de produtos, com produtos muito diversificados?

O objetivo é esse, mas mentiria se não dissesse que há setores em que esses mercados têm mais recetividade, em que a Endutex é mais competitiva. Por isso, eu diria que, dentro desses mercados todos, a parte de impressão digital – onde a Endutex, presentemente, é líder – é comum a todos e depois, a reboque, vem outro tipo de setores. Mas tentamos estar com uma palete generalizada, efetivamente.

Pergunta complementar: [qual] o investimento que fazem na inovação, em novos produtos, em novas tecnologias?

Repare, a inovação e desenvolvimento, para nós, é absolutamente crucial. É um chavão, mas, para nós, é absolutamente crucial.

Chegam a gastar 1% do volume [de negócios] nisso ou não?

Sim, andará muito próximo. Temos pessoas exclusivamente afetas à parte de inovação e desenvolvimento, temos um laboratório muito bem apetrechado e, todos os anos, desenvolvemos dezenas de novos produtos – não estou a dizer que são todos bem conseguidos, mas, pelo menos, o nosso objetivo é esse: é inovar e apresentar soluções diferentes aos nossos clientes, o que certamente, também, outras empresas tentarão fazer. Mas nós fazemo-lo, de facto, e [isso] faz parte do nosso DNA.

Francisco, este aspeto da transformação qualitativa do tecido empresarial, de algum modo, perpassa pela Câmara de Comércio Luso–Espanhola? São sentidos indiretamente ou não? Porque têm que ver mais com o investimento, não é?

F.D. – É, têm que ver mais com investimento. Fala-se do assunto e trocamos impressões, mas não é um tema que os serviços da Câmara abranjam diretamente, digamos. É evidente que o investimento, hoje em dia, é fulcral, porque as empresas, a sua vida está na evolução que existe. Mas é um tema que ultrapassa o trabalho da Câmara.

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António Perez Metelo (à esquerda) moderou mais uma conversa sobre Economia Ibérica. Vítor Abreu (ao centro) revelou que a estratégia de sucesso da Endutex reside na expansão e em tudo “fazer diferente”, desde a produção à comercialização. Francisco Dezcallar (à direita) lamentou que Portugal não saiba vender o muito que tem de bom

A Câmara sente mais interesse nas trocas comerciais e/ou investimento [por parte] de regiões particulares de Espanha, que nós sabemos que são muito diferenciadas, ou é um pouco por todo o lado distribuído?

A Câmara é completamente transparente quanto ao investimento, pelo que este é sempre bem-vindo e é favorecido, venha de onde vier, porque cria riqueza. É evidente que há interesses distintos em diferentes partes de Espanha. Há umas [regiões] que, para o seu desenvolvimento, podem ter interesses na expansão [para outros mercados], como por exemplo, quiçá, a Cata-lunha, que já tem um [grande] desenvolvimento, é uma das regiões de Espanha mais desenvolvidas. Mas há outras que, devido à proximidade, têm muita força. De facto, nós vamos, hoje em dia, ao Norte de Portugal e o Norte de Portugal e o Sul da Galiza é uma região [só]. É completamente transparente.

Sim, é uma eurorregião, vá.

É uma eurorregião.

E também se está a fazer [o mesmo], com a Extremadura, as Beiras e o Alto Alentejo.

Exato, está a começar a haver algo que as está a aproximar mais. Há espaço, muito espaço a desenvolver aí, inclusivamente, o turismo. Sobretudo na parte da Andaluzia e do Algarve. É um tema que acho que as diferentes regiões, por distintos interesses, estão a fomentar. Mas a Câmara é completamente transparente face a qualquer uma delas e apoia todas ao mesmo nível, de acordo com os seus interesses.

Uma última questão, Vítor. O que é que projeta para este ano de 2016 para o grupo Endutex?

V.A. – Deixe-me só fazer aqui um comentário ao Francisco, quando falou em relação a Portugal e aos portugueses. É verdade, eu acho que nós somos melhores do que o que projetamos, mas acho que a nova geração, hoje em dia, já não cultiva tanto o fado e prefere outras músicas. [Risos]. Eu acho que já está menos complexada.

F.D. – Concordo, concordo. [Risos].

E têm uma visão muito mais cosmopolita, não é?

Certamente que sim e bem-vinda. O que é que nós [na Endutex] projetamos. Eu como CEO do grupo e empresário, às vezes, fico um bocado triste, porque parece que o ambiente fica um bocado adverso ao empreendedorismo, mas, isto à parte… Eu não digo que a estratégia do grupo e as decisões de investimento são independentes de tudo o que se passa à nossa volta, mas nós temos a nossa estratégia: em algumas áreas, de consolidação; noutras áreas, de expansão. Como disse,  estamos, hoje em dia, também na área hoteleira e temos três novos projetos a arrancar aqui em Portugal, temos dois projetos no Brasil, também, em fase de montagem. E na parte industrial, queremos seguir nesta senda da internacionalização. Falta-nos o pé nos Estados Unidos. Gostaríamos de ter uma unidade de comercialização no mercado americano, que acho que é muito importante para nós.

Esse é o objetivo, portanto.

Em termos comerciais, é o objetivo. Em termos industriais, estamos a estudar uma série de novos investimentos, porque logicamente parar é morrer, na nossa área.

Fora do país.

Não. Fora do país, só em termos comerciais e é, como digo, nos Estados Unidos. Em termos da nossa unidade industrial cá, estamos a projetar novos investimentos, com equipamentos diferentes, etc., para poder permitir uma maior competitividade e uma maior capacidade de inovação industrial.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens

“Estamos em quatro continentes e em vários mercados, mais de 15”

 

O intercâmbio ibérico continua forte porque os empresários sabem adaptar-se e vencer as condições adversas do mercado, diz a Câmara de Comércio Luso-Espanhola. A Logoplaste é a 3.ª maior transformadora de plástico rígido da Europa e está no top 10 mundial do setor de embalagens. A expansão começou em Espanha e hoje 80% da sua faturação vem do exterior. O CEO da empresa falou da sua estratégia

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

34731833Filipe de Botton, ainda recentemente falámos sobre a experiência da expansão para aquilo que hoje é a Logoplaste, uma das dez maiores do mundo na produção de embalagens de plástico rígido. Desde a última vez em que falámos havia já no horizonte alguns problemas, algum arrefecimento em termos internacionais que, entretanto, vieram a acentuar-se. Sei que abriram duas fábricas, uma na Escócia, outra nos Estados Unidos. Fale-me das novidades da Logoplaste neste contexto geral.

Filipe de Botton (F.B.) – Em termos dos 16 países onde estamos – e hoje  estamos em quatro continentes, portanto começamos a ter uma ideia bastante alargada de como vai o consumo, como vão as economias do mundo real -, talvez os dois onde  sintamos um notório abrandamento sejam, infelizmente, Portugal e o Brasil, o que é sobejamente conhecido. Os outros estão com uma expansão significativa, quer na América do Norte quer na Europa, de uma forma geral. A Espanha é um bom exemplo de que, independentemente de uma situação política diferente…

Sim. E ainda não resolvida, não é?

… e inconclusiva do ponto de vista do consumo, temos sentido um crescimento relativamente acentuado, muito perto dos dois dígitos nos primeiros três meses de 2016. Portanto, claramente, Portugal e o Brasil são os patinhos feios neste momento em termos de crescimento.

Via como muito interessante e desejável a expansão e a consolidação da presença da Logoplaste na zona NAFTA, ou seja, no Canadá, EUA e México. Efetivamente, apostou em mais uma fábrica nos Estados Unidos e vai continuar.

Apostámos e continua a ser a nossa grande aposta.

Lembra-se de que falava de dez fábricas e faria mais sentido, para si, passar para 20 nesse espaço do que ir, por exemplo, para a China.

Mais do que mais sentido, é a estratégia clara. Penso que [isto] é verdade em termos empresariais para qualquer organização ou empresa: o importante é a previsibilidade, é a estabilidade. Por exemplo, em Portugal temos tido alguns problemas em manter essa estabilidade e em conseguir prever um quadro de referências que seja inequívoco para os próximos quatro, cinco anos, que é algo que falta aos empresários, que é eles poderem prever. Temos de gerir dentro de um ambiente de previsibilidade, que é o que temos na América do Norte.

Pois.

Ali, é um mercado maduro, estável,  onde as coisas são perfeitamente previsíveis, onde as regras são claras – não há surpresas, não há alterações fiscais, legislativas, laborais ao longo do tempo – e isso é que faz a grande diferença e que permite investir num mercado de mais de 300 milhões de consumidores – e não de habitantes, porque às vezes fala–se de habitantes dos países mas que, no entanto…

Não têm poder de compra, claro.

… não têm poder aquisitivo -, e é um mercado em franca expansão. A economia americana pode crescer mais ou menos, mas tem vindo a crescer nos últimos anos de forma sempre positiva e assim se prevê que se mantenha nos próximos anos.

Ter havido uma produção ligeiramente inferior, no ano passado, da Logoplaste em Portugal teve já que ver com riscos de imprevisibilidade de qual era o futuro político?

Acho que há uma situação notória em Portugal que é um aumento da carga fiscal brutal do ponto de vista indireto. Talvez a nível de impostos diretos não tenha havido esse crescimento e até, enfim, se tenta mostrar alguma…

Algum alívio, sim.

…evolução, mas o que é brutal é o crescimento da carga fiscal indireta, que está claramente a ter um impacto no consumo. E quem achar que não vai ser [esse] o facto basta ver o que se passa. Recentemente, com o tema dos camionistas, este tema do gasóleo, que o senhor ministro da Economia pede para os camionistas se abastecerem em Portugal e que se vê que as grandes empresas abastecem mais de 80% dos seus camiões em Espanha. Ao fim e ao cabo, não só estamos a aumentar brutalmente a imposição indireta como estamos a desviar receitas fiscais portuguesas para Espanha neste caso concreto.

34523068Gabriel Chimeno, da Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola (CCILE), vê com preocupação também ou como um problema que poderá ser ultrapassado estas dificuldades, este abrandamento que se sente nos últimos meses e que ainda não dá sinais de estar em viragem positiva na economia portuguesa?

Gabriel Chimeno (G.C.) – Efetiva-mente, o abrandamento está aí e essa preocupação penso que existe, e os empresários estão muito atentos não só sobre isto mas também sobre o abrandamento internacional.

Em Espanha também se faz sentir?

Ainda não se sente nos números que mostram as estatísticas e os dados que se apresentam ainda são muito positivos. O crescimento é forte nos últimos 12 meses consecutivos, no sentido em que, inclusivamente, nos números de janeiro ainda continua a ser significativo.

Se me permite, mesmo com uma crise política que não se resolve há três meses em Espanha.

Eu penso que quando estas crises políticas acontecem os empresários seguem com a vida deles. Eles jogam com as regras que existem agora, que há governo ou não há governo. Bom! Pois teremos de atuar nesse ambiente. Penso que as empresas, que são empresas dinâmicas, se adaptam a esta situação e ao fim do dia continuam a funcionar.

E como é que esta conjuntura se reflete no trabalho da CCILE aqui entre nós?

Basicamente, assim que se deu este ambiente menos claro, as empresas tomaram atitudes menos agressivas, logicamente.

Mais defensivas.

Mais defensivas, exatamente. A internacionalização é uma estratégia mais agressiva, menos defensiva e, nestes casos, as empresas tendem a manter uma atitude menos expansionista e, como é lógico, possivelmente adiam alguns dos planos de internacionalização. Isso acontece. Ainda, diria eu, não se nota de uma forma muito significativa, mas se isto continuasse, se esta dinâmica continuasse nos próximos meses, claro que seria muito mau para as [empresas].

Filipe, o que é que está na sua agenda perante esta situação no nosso país? E na sua estratégia como é que quer assegurar a continuidade da expansão da Logoplaste e o seu papel como uma das dez maiores na produção de embalagens de plástico duro?

F.B. – Cada vez mais focando-nos… Quando falava há pouco na China, nós não vamos para a China. E porquê? Porque estamos em quatro continentes, em vários mercados, mais de 15, mas estamos em dois grandes mercados, que é o  americano – a América como um todo: a América do Norte, Canadá, Estados Unidos, México e Brasil; portanto, cobrimos o grosso da América -, e estamos na Europa, de Portugal até à Rússia. Na brincadeira, costumamos dizer que estamos do cabo da Roca até Vladivostok, ou seja, cobrimos de facto os fusos horários de…

Lembra-se daquela ideia de – não sei se era de De Gaulle – da Europa, justamente, do cabo da Roca até aos Urais?

Exatamente. Neste momento, passamos os Urais [risos], vamos ali até Vladivostok. Enfim, não a Rússia como um todo. E é aí que nos deveremos focar. Vemos que do ponto de vista do negócio – e cada caso é um caso e cada empresa terá a sua estratégia – as empresas portuguesas, de uma forma geral, são cada vez mais empresas de valor acrescentado. O setor dos têxteis é um bom exemplo em Portugal de um setor que há… desde que eu me lembro, desde [que eu andava] na universidade, que estava a morrer, e que continua pesar de forma muito significativa no PIB e nas exportações do PIB português, porque soube reinventar-se ao longo dos anos.

Recorda-se que o Relatório Porter dizia justamente isso, que tinha toda a margem para se reinventar.

E reinventou-se. Não vou falar do calçado, que é o mais conhecido, mas do próprio setor dos têxteis.

Dos têxteis, sim.

Hoje, grande parte dos nossos têxteis são técnicos, ou seja, têxteis que  conseguimos reinventar. E se nós conseguimos ter em Espanha, se a memória não me falha, cerca de 25% das nossas exportações são destinadas a Espanha, que é um mercado que, pelo facto de estar em crescimento, nos ajuda e puxa pelo nosso setor exportador; se nós conseguimos exportar para a Alemanha, se conseguimos exportar para a França, o que demonstramos é que as nossas empresas têm capacidade, têm competências, têm produto para vender para os mercados mais exigentes.

Claro.

E daí ser fácil de entender que nós estamos muito pouco presentes, por exemplo, no mercado norte-americano, que é um mercado sedento de produtos como os portugueses. Eu diria que as empresas portuguesas teriam alguma facilidade de penetração no mercado americano, quer pelas suas competências quer pela qualidade dos recursos portugueses. De facto, os portugueses são muito bons e têm grandes possibilidades e facilidades de interagir – nós temos uma comunidade nos Estados Unidos, a comunidade portuguesa, a diáspora é muito alargada. Em alguns estados, como a Califórnia, temos cerca de 500 mil portugueses que vivem na Califórnia. Portanto, existe, ainda por cima, uma grande facilidade de interação e é um mercado que eu diria que espera por Portugal.

E tem uma grande capacidade de absorção, evidentemente.

Claro que sim.

E está, de facto, muito pouco batido. O nosso comércio internacional tem um peso ainda…

Insignificante, quer na exportação quer na internacionalização. Que são dois temas diferentes e ambos deveriam ser abordados. Portanto, vale a pena olhar para esses mercados.

 

Filipe de Botton (à esquerda) revelou que, ao contrário de Portugal, em Espanha o consumo e os resultados da Logoplaste continuam a crescer. Gabriel Chimeno (ao centro) defendeu que não há resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha. António Perez Metelo (à direita) moderou a conversa sobre a Economia Ibérica

Filipe de Botton (à esquerda) revelou que, ao contrário de Portugal, em Espanha o consumo e os resultados da Logoplaste continuam a crescer. Gabriel Chimeno (à direita) defendeu que não há resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha.

Mas falando noutra geografia, na União Europeia, neste momento sente-se como que uma fratura entre os países do Leste numa série de temas em que seguem a sua própria via e uma visão diferente daqueles 12, 15 países que constituíam “a velha Europa”. No seu ramo, há diferenciação ou, do ponto de vista das fábricas e do relacionamento com os clientes, não há diferença entre uma parte e outra da Europa?

Eu faço uma grande distinção entre o que é o mundo político, o mundo cultural, do mundo dos negócios.

E isso é uma chave de leitura muito importante, não é? Distinguir uma coisa e outra.

Ou seja, existem leis para serem respeitadas, existem culturas que têm de ser respeitadas – “em Roma, sê romano” – e que obrigam a que, quando vamos para um novo país, temos de nos adaptar ao que são as leis locais ou ao que é a cultura local. Eu não quero mudar, enfim, não posso ter aqui um espírito missionário, em que vou para a República Checa ou para a Ucrânia querer que eles falem português. Temos de ter  um entendimento claro, que é: se queremos estar noutros países, temos de nos adaptar às regras dos outros países. Mas eu distingo claramente o que é o mundo dos negócios, que tem as suas regras e que se continua a desenvolver e que tem uma proximidade e uma similitude entre os vários mercados que é enorme, e aquilo que é o mundo da política, com o maior respeito, e o mundo da cultura, em que tem de se ter um enorme respeito por ela, que é outro tema. São dois temas completamente diferentes. E nós, empresários, quando estamos no nosso papel de empresários, é a este segundo vetor que  temos de nos adequar e não ao primeiro.

Notei que insiste muito nas economias amadurecidas como tendo uma grande capacidade de expansão para a sua empresa. Eu pergunto-me: porque é que se restringe ao Brasil, sendo certo que há esforços – vejo o AICEP a esforçar-se em relação ao México, à Colômbia,  ao Chile, etc. -, porquê, justamente, sua presença no Brasil e não uma presença mais forte na América Latina?

Bom, primeiro, o Brasil representa 70% da economia da América Latina, portanto, quando se está no Brasil, está-se praticamente na América Latina, com respeito pelos outros países. Segundo, é uma questão histórica: em 1992, quando começámos a internacionalizar-nos, o Brasil surgiu pouco depois, até por questões de afinidades familiares, porque o meu pai é brasileiro. Por isso facilitou o contacto e o desenvolvimento no Brasil.

No Rio Grande do Sul, não é?

Não, é em São Paulo. Agora, se eu  em 1994, quando investimos no Brasil, soubesse o que sei hoje, em 2016, provavelmente, com o maior respeito pelo pai, que é brasileiro, e por todos os brasileiros, que eu adoro, não teria investido no Brasil. É um país que é o oposto de tudo aquilo que eu definia como previsibilidade, como estabilidade…

É volatilidade completa, não é?

Sempre foi. É aquele lado sambístico, [que] tem um reflexo, de facto, nos negócios também. Agora, isto é como tudo na vida: à segunda-feira toda a gente acerta na lotaria; o difícil é acertar à sexta-feira, quando se compra o bilhete.

E, portanto, as suas apostas são nestes dois campos. Já nem lhe pergunto por África, porque suponho que em África é muito mais difícil de entrar.

Repare, nós somos uma empresa portuguesa, uma PME internacional. Uma empresa que vende 500 milhões de euros. É uma PME no mercado internacional. Portanto, temos de nos focar. E temos de nos focar em dois grandes mercados, que representam cerca de 800 milhões de consumidores, entre a Europa e a América do Norte…

Com poder de compra.

Com grande poder de compra.

Muito importantes, do ponto de vista global, não é?

Sem dúvida. No caso do Brasil, estamos lá e mantemo-nos lá – portanto, reduzimos e concentrámo–nos, focámo-nos em termos dos custos, pusemos a empresa claramente o mais ajustada possível ao mercado. Mas, se me pergunta se proativamente vou continuar a investir no Brasil, dir-lhe-ei que não.

Pois estão a aguentar, digamos assim.

Mais do que aguentar, é importante estrategicamente para acompanhar os nossos parceiros. É um mercado onde se aprende também bastante face, depois, a outras geografias. As dificuldades, de facto, têm esse lado de aprender o que não se deve fazer. Tem pessoas, recursos humanos extremamente válidos que nós temos estado a convidar para virem para outras geografias. Enfim! Acho que temos de olhar sempre para o lado meio cheio do copo e não para o lado meio vazio.

Claro. Do ponto de vista empresarial, só se pode fazer isso, senão não faz sentido.

Claro.

Filipe de Botton (ao centro), CEO da Logoplaste, e Gabriel Chimeno (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aceitaram partilhar o seu know-how na terceira ronda da Economia Ibérica.

Filipe de Botton (ao centro), CEO da Logoplaste, e Gabriel Chimeno (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aceitaram partilhar o seu know-how na terceira ronda da Economia Ibérica. António Perez Metelo (à esquerda) moderou a conversa.

Gabriel, nestas entrevistas torna-se claro que há sempre uma relação muito particular entre um país mais pequeno e uma economia seis vezes maior ao lado. Houve um grande impulso de investimentos espanhóis cá que abrandou, não é? O que é que a Câmara sente dessa interpenetração das duas economias?

G.C. – Eu sinto que a interpenetração das economias continua. Nunca houve tanto intercâmbio como no ano passado. Os valores, os montantes crescem de ano para ano.

É muito conhecida a questão a nível financeiro. Mas eu pergunto, na economia não financeira, na economia real, o que é que nos pode dizer sobre isso?

Na economia real, [a interpenetração] continua a crescer a cada ano [que passa]. As exportações portuguesas para Espanha, no ano passado, cresceram 5%, o que para uma relação já consolidada e madura é um crescimento importante.

Puxadas pela procura, que se reanimou em Espanha.

Claramente. Puxadas pela procura e puxadas também pela postura das empresas portuguesas, muito mais dedicadas à exportação, como temos visto nos últimos anos. Eu antevejo que isso vai continuar, os mercados cada vez vão estar mais próximos e continua a haver muita relação económica entre a Espanha e Portugal. Se calhar, as empresas maiores já deram esse passo no passado mas em relação às empresas pequenas ou médias do mercado [português], estão a dar esse passo. E logicamente o mercado mais próximo, como é Espanha para Portugal, ou vice-versa, é o primeiro passo na internacionalização.

Embora aqui se tenha feito eco de que há alguma resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha.

Sou da opinião de que isso não existe. Haverá resistência perante qualquer novo player. Se uma empresa da Galiza também quiser entrar num mercado já estabelecido da Andaluzia, vai ter alguma dificuldade porque logicamente os operadores daquele mercado estarão fortes para se defender.

E não falemos na Catalunha, não é? [risos].

Ou na Catalunha, é igual. Afinal, entrar num novo mercado é muito difícil. O Filipe sabe isso, tem de procurar o seu espaço nos mercados novos e, portanto, [tem de] concorrer [com outros]. E, hoje em dia, nos mercados maduros, a concorrência é forte. Portanto, eu não penso que exista uma postura contra as empresas portuguesas.

Especificamente.

Penso que é uma postura de mercado e, aí, o mercado é difícil.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens