“Vamos reforçar a nossa liderança incontestável em Portugal”

A Câmara de Comércio Luso-Espanhola defende a concertação das estratégias ibéricas, dando o exemplo de pacotes turísticos conjuntos. O Grupo Pestana iniciou a sua internacionalização nos anos 1990 mas só conseguiu entrar no difícil mercado espanhol em 2013. José Roquette falou das metas do grupo e das vantagens da estratégia hispânica, que devia cultivar-se também em Portugal

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

36048836José Roquette (JR), administrador do Grupo Pestana, Eduardo Jorge, representante da Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola (CCILE), bem-vindos. Hoje vamos falar de turismo e, contrariamente a outros setores, podemos ostentar um sorriso, porque o turismo está em ascensão e, seguramente, com reflexos positivos no Grupo Pestana, não é?

JR – Sem dúvida. Vamos viver, em 2016 – já foi assim também em 2015 -, provavelmente o nosso melhor ano de sempre. Eu falo tanto do Grupo Pestana como do país. O Grupo Pestana acompanha este momento de muita vitalidade…

E com grande impulso, não é?

E com grande impulso. Julgo que é muito importante salientar – além de celebrar esse bom momento, como é óbvio, e de aproveitá-lo -, é muito importante termos a noção de que existem ventos muito favoráveis, tanto para Portugal como para Espanha. Ventos favoráveis esses que Portugal como Espanha têm sabido aproveitar muito bem. E parece-me que o desafio vai ser fidelizar estes novos clientes que agora nos visitam por força, como disse, de ventos favoráveis que afastaram muitos clientes do Norte da Europa dos destinos tradicionais, como o Egito, a Tunísia, a Turquia e mesmo a Grécia.

Este boom explica-se, infelizmente, pela situação de insegurança que se vive no Norte de África, no Médio Oriente e na Turquia. Aliás, achei impressionante como um jovem com uma Kalashnikov, na Tunísia, numa praia – e com um custo, para essa organização, mínimo -, conseguiu ter um efeito devastador no turismo da Tunísia.

Sim, sim, devastador. Julgo que todos o vimos. Os alemães, os clientes visados nunca mais vão esquecer. O mercado alemão, que é um mercado fortíssimo em Espanha, vai demorar muitos anos a…

É esse o carácter assimétrico desta luta e deste confronto.

Sem dúvida. E isso significa que o desafio da segurança, tanto em Portugal como em Espanha, é real. É essencial sabermo-nos manter como destinos seguros e também termos a humildade de perceber que algum deste sucesso e deste bom momento não se deve exclusivamente a mérito nosso. Com certeza que Espanha e Portugal são países muito competitivos no turismo, há muitas décadas, mas é bom ter a noção de que há ventos favoráveis.

Eduardo (EJ), aproveitar esta oportunidade quer dizer fidelizar novos clientes. Que ecos é que isso tem na CCILE?

N2EJ – A CCILE é uma instituição de carácter associativo sem fins lucrativos, diga-se, e que tem por objetivo fazer a ponte e a ligação entre as duas economias, a espanhola e a portuguesa, ajudar empresários e empresas a conhecerem melhor os respetivos mercados. E isso, ao longo dos últimos 46 anos – aliás, a Câmara foi fundada em 1970, faz este ano 46 anos, em maio; já fez, aliás -, tem sido a tónica e o grande esforço feito no sentido de criar  esta dinâmica, ajudar a sedimentar. São várias as áreas de atividade em que a Câmara está envolvida. A CCILE é, talvez, a maior câmara de comércio e indústria fora de Espanha, isto a nível global, mundial. Quando digo maior quero dizer em termos operacionais, financeiros e em número de sócios. Para vos dar nota, a CCILE é reconhecida pelo governo espanhol – aliás, está na sua génese – como uma câmara de comércio e indústria oficial. E, em Portugal, temos o estatuto de utilidade pública. Portanto, de facto, somos um parceiro bem próximo em tudo o que é definição de estratégia ibérica e nisso nos temos empenhado desde a fundação. Aliás, para dar nota, sem ser muito extenso quanto a esta nota introdutória…

Pois, eu queria que se concentrasse no setor do turismo.

Só para dar nota que, na verdade, englobamos os maiores parceiros empresariais dos dois lados da fronteira. Aliás, o Grupo Pestana é sócio da Câmara e com muito gosto.

JR – E tem pago a cota. [Risos].

EJ – E tem pago a cota, exatamente. Portanto, a área do turismo também, para nós, é muito importante. Espanha tem feito um esforço e um investimento muito grande na promoção, é um país de grande destino turístico…

Aliás, com um boom anterior ao português e com uma expressão internacional fantástica.

Exatamente. Aliás, é dos principais players mundiais, em termos de income turístico.

JR – Sem dúvida.

EJ – E o facto é que a Espanha, por vezes, até tem servido de âncora para estrangeiros que não sabem que Portugal existe no mapa. Lamentavelmente, por desconhecimento dos próprios, não por falta de dignidade de Portugal.

Claro. E descobrem?

Acabam por vir a Portugal, aproveitando a sua deslocação ao país vizinho e fazem alguns dias de visita ao nosso país. Quanto a Portugal, diria que estamos sempre preocupados, porque o turismo começa a ser um fator principal no desenvolvimento económico do país. Cada vez mais.

Sim.

Portugal, como foi dito pelo dr. José Roquette, está a atravessar um excelente momento. Eu diria que só tínhamos a ganhar se aproveitássemos a dinâmica conjunta, fazendo, eventualmente, até pacotes que pudessem envolver os dois países. No que diz respeito ao papel da Câmara, obviamente que temos uma proximidade muito grande, junto às entidades que promovem o turismo de ambos os países, e o nosso papel é sempre de coadjuvar.

José, dê-nos em números os dados essenciais para termos uma ideia do que é hoje o Grupo Pestana e, também, a nível Ibérico.

JR – O Grupo Pestana é, hoje, o líder em Portugal e, em termos ibéricos, está entre os dez maiores grupos na área do turismo. Temos um volume de negócios próximo dos 400 milhões de euros, um EBITDA já um pouco acima dos 100 milhões. Estamos hoje presentes em 15 países…

Na América do Norte e do Sul.

Sim, América do Norte e do Sul, África e Europa. Três continentes, 15 países e temos cerca de 10 mil quartos espalhados aí pelo mundo.

Quer dizer que tem havido, ultimamente, uma grande expansão.

Sim. Mesmo nos últimos cinco anos  fizemos cerca de dez novos projetos e temos, neste momento, 20 novos projetos em carteira, o que vai dar um salto muito grande: são 3000 quartos espalhados por vários países do mundo, o que significa investimentos muito próximos dos 200 milhões de euros, que vão acontecer nos próximos cinco anos.

Em novos países ou naqueles em que já estão?

Alguns em novos países. É o caso de Amesterdão, Holanda.

Quantas pessoas empregam diretamente?

Um bocadinho mais de 7000. É uma equipa já bastante grande, também espalhada pelo mundo, por esses 15 países, o que faz que o Grupo Pestana, hoje, seja uma referência grande no setor do turismo, com uma particularidade: é um grupo de capital fechado – portanto, não está cotado em bolsa, logo diferente de todas as outras cadeias, sobretudo espanholas e internacionais -, tem um modelo de negócio tradicional, ou seja, é proprietário da maioria das suas unidades hoteleiras e tem um único acionista. Logo, isso dá uma enorme estabilidade ao nosso desenvolvimento e um ritmo próprio, também, de desenvolvimento.

Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e José Roquette, administrador do Grupo Pestana, responsável pela área do desenvolvimento, foram os convidados de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e José Roquette, administrador do Grupo Pestana, responsável pela área do desenvolvimento, foram os convidados de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Efetivamente, há grupos e empresas turísticas muito fortes em Espanha e não seria de esperar outra coisa.

Fortíssimas. Fortíssimas.

Qual é a história do Grupo Pestana, na sua implantação ibérica, e até que ponto é que ela poderá ter ajudado à internacionalização para a América Latina e outras paragens?

O Grupo Pestana nasceu numa ilha, nasceu na Madeira, não é?

Sim, sim, claro. Aliás, já lhe vou falar de outro famoso ilhéu que se está a juntar também ao grupo.

Nasceu na Madeira, veio para o Continente e depois foi para o mundo. A entrada em Espanha aconteceu relativamente tarde na nossa estratégia de desenvolvimento, não por falta de vontade mas por dificuldade. Ou seja, o mercado espanhol não é um mercado no qual as cadeias internacionais conseguem entrar facilmente. É um mercado bastante fechado, tem grupos muito fortes e muito competentes e que têm uma solidez muito grande…

Isso é um desafio para a CCILE e para a sua congénere em Espanha, porque eu ouço os seus representantes dizerem que, às vezes, há dificuldades de implantação.

Foi bastante difícil. O nosso primeiro passo foi dado em Barcelona, porque é realmente um destino turístico ímpar, um dos melhores destinos da Europa: trabalha os vários segmentos de mercado, tem uma política de turismo e, sobretudo, política aérea muito, muito inteligentes.

E é muito cosmopolita, muito centro-europeia já, não é?

Muito cosmopolita. Só para lhe dar uma ideia, é um dos maiores destinos turísticos de cruzeiros e de grandes congressos da Europa. Estamos a falar, realmente, de um destino fortíssimo e com uma dinâmica enorme. Certo é que sempre quisemos estar em Madrid e o ano passado concretizámos essa entrada com dois projetos: um num concurso que vencemos na Plaza Mayor, que foi uma coisa relativamente extraordinária – nunca esperámos conseguir conquistar aquele lugar de excelência no coração da cidade…

Claro, claro. E um lugar, também, emblemático da cidade.

Um lugar emblemático, um edifício histórico. Realmente foi um passo espetacular. A obra deve estar a começar em breve. O segundo projeto vai ser em parceria com o nosso Cristiano Ronaldo, vai ser um dos primeiros projetos desta parceria.

Era disso que eu lhe queria falar. O Pestana CR7, não é?

Pestana CR7, exatamente.

Que é um projeto para um segmento mais jovem.

É uma marca nova que o Grupo Pestana criou para o segmento, tão falado, dos millennials, esta nova geração que tem, realmente, um padrão de consumo e um comportamento, mesmo no setor do turismo, muito diferente e muito próprio. E que também exige, às cadeias hoteleiras que se querem renovar, uma abordagem diferente. Não podemos continuar a fazer hotéis iguais aos que fazíamos há 10 ou 20 anos se a procura também está a mudar completamente de perfil. Então, no fundo, usámos a força dessa marca e, sobretudo, a visibilidade global que a marca CR7 tem – que tem 200 milhões de seguidores no mundo inteiro nas redes sociais, que é uma coisa impressionante…

Pois é.

E com isto juntámos também os esforços de dois empreendedores, quer o Cristiano Ronaldo quer o Dionísio Pestana, e conseguimos criar esta marca que vai fazer a sua abertura em quatro cidades: Lisboa, Funchal, Madrid e Nova Iorque. A nossa parceria com Cristiano Ronaldo vale para estas quatro cidades. Obviamente que Madrid, [cujo hotel] será na Gran Vía, será um emblema fundamental desta parceria.

Claro, lá ele está em casa.

É a base. Está em casa.

São as diversas casas dele. [Risos].

Está a jogar em casa.

Exatamente. Eduardo, a Câmara tem outras solicitações na área do turismo, há coisas a mexer? O que nos pode dizer sobre isso no nosso país, vindo de Espanha ou de outras paragens?

EJ – Bom, as economias estão muito abertas e a Câmara de Comércio, embora seja um parceiro muito interessante, não é incontornável. Na verdade, já há muita informação sobre o setor e, eu diria, que quer em Portugal quer em Espanha o setor está muito maduro. É fácil qualquer empresa ou empresário espanhol vir a Portugal fazendo o seu trabalho de casa e vice-versa. Há pouco registei que referiu que a tendência é encontrar, em Espanha, dificuldade de implantação.

José Roquette (à esquerda), administrador responsável pelo desenvolvimento do Grupo Pestana, falou da estratégia de expansão deste aglomerado turístico para os próximos 3 anos. Eduardo Jorge, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, crê que a Espanha ainda é um mercado desconhecido para os empresários portugueses

José Roquette falou da estratégia de expansão do Grupo Pestana para os próximos 3 anos. Eduardo Jorge, da CCILE, crê que a Espanha ainda é um mercado desconhecido para os empresários portugueses

Noutros setores. Já foi referido.

Noutros setores. Mas eu diria que isso é um desafio também. Diria que, do ponto de vista institucional, não há nenhuma falta de recetividade. Pelo contrário, há uma abertura total, porque se investe na reciprocidade. E essa questão da reciprocidade é crítica para podermos acreditar que existe uma convergência no âmbito das duas economias. Aliás, a ambição espanhola é que, de facto, haja uma integração económica… Enfim, eu diria política. Ainda não estamos por aí, mas, se calhar, até seria uma ambição de largo prazo. Eu diria que era mais um desafio para os grandes grupos poderem investir num país que, se calhar, é muito próximo mas conhecem mal…

Com o fluxo crescente de espanhóis que nos vêm visitar e que começam a querer visitar-nos pelas mais diversas razões – há cada vez mais [a virem] para concertos, para eventos, para coisas de empresas; dos mais diversos segmentos -, Portugal já não é aquele país de costas viradas e desconhecido. Quer dizer, as empresas de turismo de Espanha sabem que há esta apetência, que há esta deslocação de espanhóis ao nosso país, já não é um mistério, não é?

As grandes cadeias internacionais espanholas, de alguma maneira, estão representadas em Portugal. E, portanto, não somos, de facto, desconhecidos. Estou a dizer é exatamente o oposto: Espanha ainda é desconhecida para os portugueses. No turismo, enfim, não conheço com detalhe mas, pelos vistos, vai ser feito o segundo investimento daquele que, provavelmente, será o maior grupo de turismo português. (E vai-me desculpar se não estou a ser correto nessa afirmação. Pelo menos é essa a perceção que eu tenho).

JR – Sim, sim. É.

EJ – Só vai fazer agora o seu segundo investimento, aproveitando uma âncora muito grande, que é o Cristiano Ronaldo. Portanto, diria que Espanha continua ainda a ser um mistério grande para Portugal. Será falta de escala das empresas portuguesas? Será o facto de as empresas estarem tradicionalmente mais viradas para mercados tradicionais como a África ou a América, principalmente o Brasil? De facto não há grande investimento.

Ou será, José, o desconhecimento, porventura ainda prevalecente, de que Espanha não é uma unidade, mas que são realidades culturais muito fortes, diferenciadas em todo o espaço ibérico?

Sim, será um pouco de tudo isso, mas também julgo que é bom não esquecer outra coisa. O Grupo Pestana esteve durante 10 anos a estudar várias oportunidades em Espanha. Vamos ter, neste momento, três unidades – uma em Barcelona, já, e duas em Madrid. O que é que sentimos nos últimos anos, sobretudo nos anos de crise, em que sentimos que podia haver oportunidades mais interessantes? É que houve uma solidariedade enorme entre o setor financeiro, o imobiliário e o hoteleiro, coisa que em Portugal nem sempre aconteceu nos anos mais difíceis. Isso fez que conseguissem atravessar a crise de uma forma…

Jogam em equipa.

Claro. Muito mais. Essa é uma grande diferença.

Isso é curioso, porque estamos numa altura de globalização, cosmopolitismo, de fluxos abertos de capitais, mas há países que preservam sempre… Tradicionalmente, é sabido que os japoneses também funcionam assim.

Claro. É um saber ver mais a longo prazo, não é? Eu julgo que é isso.

Não é fechar-se, mas é saber potenciar o seu próprio poder. Não será isso?

Exatamente.

Isso é uma grande diferença que se sente em Espanha, não é?

Uma grande diferença. É muito diferente. E depois também existe uma tenacidade, por parte do espanhol, para preservar o património ao longo das gerações, coisa que aqui não é tanto assim – aqui vende-se, compra-se e… Logo, nesse aspeto, o português é um bocadinho mais comerciante e, talvez, o espanhol um bocadinho mais industrial. Talvez assim, essa diferença faz que tenha, muitas vezes, uma visão de mais longo prazo e [se] é preciso aguentar a crise, aguenta-se e faz–se das tripas coração…

E eu não estou a falar só nas nacionalidades históricas. Há um grande amor por tudo o que está edificado e pela história de cada um.

Exato. Nesse aspeto, eu diria que há um sentimento muito nacionalista, muito forte – às vezes mais regional, até, do que nacionalista; é o caso da Catalunha, talvez, não é? -, mas que, depois, se traduz em decisões práticas de negócio que são de defender a todo o custo o que é deles. Eu acho que isso explica muito.

José, queria perguntar-lhe que metas gerais, para além das que já enunciou, o grupo traçou para este ano e perspetivas para 2017?

Este ano, sem dúvida, como disse, vai ser talvez o nosso melhor ano de sempre. As metas são de ter um crescimento certamente acima dos 5% tanto das receitas como dos resultados.

E prevê, também, que seja o melhor ano de sempre para o turismo em geral?

Sim, acreditamos que sim. Vai ser também um ano, está a ser um ano no qual estamos a dar grandes passos adicionais na internacionalização do grupo e, portanto, vamos chegar rapidamente à presença em 20 países – hoje estamos em 15 – e vai ser um ano, também, de muito investimento. Portanto, é um ano de muitos resultados mas, sem dúvida, é um ano de muito esforço de investimento.

De sementeira.

Sem dúvida. É a altura, também, de o fazer. E, por isso mesmo, é um ano em que vamos reforçar não só esta liderança incontestável em Portugal como, certamente, vamos progredir na penetração neste mercado espanhol.

Com uma perspetiva de que 2017 seja melhor do que este ano?

Sim, eu acredito que sim.

O impulso vai manter-se.

Sim, eu acredito que sim, porque estes ventos favoráveis também se vão manter, acreditamos.

 

Fotos: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens